Parabéns King!
A oposição quer vir para a rua porque o Governo a extinguiu no Parlamento. A partir de agora, uma lei pode ser aprovada sem discussão (...)"


Em 2010, o orçamento do exército grego representava cerca de sete mil milhões de euros. Ou seja, mais de 3% do PIB, um número que, no seio da NATO, só é ultrapassado pelos Estados Unidos. É verdade que, em 2011, o Ministério da Defesa reduziu as novas aquisições de material em 500 milhões de euros. Mas isso terá apenas como efeito aumentar as necessidades futuras, segundo um especialista na matéria.
Entre os parceiros da Grécia dentro da UE, são raros os que defendem abertamente uma paragem completa e duradoura dos projetos militares de Atenas. Como Daniel Cohn-Bendit, líder dos Verdes no Parlamento Europeu, que pensa que as hesitações europeias dissimulam sólidos interesses económicos.
Ora, o principal beneficiado com a política grega de armamento é, justamente, o grande pagador da União Europeia, a Alemanha. Segundo o Relatório sobre a Exportação de Armas em 2010, que acaba de ser publicado, a Grécia é, depois de Portugal – um outro país próximo da falência – o maior comprador de equipamento militar alemão. Os jornais espanhóis e gregos fizeram eco de um rumor segundo o qual Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, ainda no final do passado mês de outubro, convidaram, à margem de uma cimeira, o primeiro-ministro grego de então, Georges Papandreu a honrar os contratos de armamento existentes, e até mesmo a concluir contratos novos.(...)"
Os critérios que regem a contenção desta crise são tudo menos solidários. Ver igualmente o documentário "Debtocracy".
A oposição quer vir para a rua porque o Governo a extinguiu no Parlamento. A partir de agora, uma lei pode ser aprovada sem discussão (...)"
PUTin totality @ Moscow - stolen from hereNas últimas semanas muito se tem escrito sobre a possibilidade de os "ricos" do mundo contribuírem mais para assim ajudarem os seus países a combater a crise económico-financeira com que se deparam, tentando aliviar as classes média e baixa do pesado fardo. Embora uns digam que as contribuições não ajudariam assim tanto, eu digo que criariam, pelo menos, um sentimento de solidariedade e de boa vontade que poderia atenuar a latente (ou mesmo existente) crispação e confrontação social sentida um pouco por toda a Europa.
Daniel Oliveira no seu artigo "Todos Pobres" (Expresso), sintetiza magnificamente o que penso sobre os "ricos" e os "empresários" portugueses:
"Numa entrevista ao "Jornal de Negócios" o homem mais rico de Portugal explicou que era apenas "um trabalhador". E que não se considerava rico. Há quem saiba dos seus privilégios e tente, pelo menos, dar a ideia de que devolve à sociedade. Há quem saiba dos seus privilégios e até ache que os merece. E há quem viva de tal forma enfiado na sua bolha social que nem se aperceba que é um privilegiado. Infelizmente, só temos desses por cá. Portugal é um país tão pobre que até os milionários são pobres. Buffett disse há uns tempos: "Há uma luta de classes, é um facto, mas é a minha classe, a dos ricos que a conduz, e estamos em vias de a ganhar". Não em Portugal. Aqui, a pobreza é demasiado envergonhada para se revoltar e a riqueza demasiado descarada para se envergonhar."
Escada sem corrimão
É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.
Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.
Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.
Sobe-se numa corrida.
Corre-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.
(David Mourão Ferreira)
Ouvir o poema na voz de Camané:
um varão por um talho. uma água de côco bebida ao som de total eclipse of the heart. um belo serão de aniversário. palavras sem sentido? muitas vezes este espaço também o é. venham mais 5.

Cortar o Tempo
“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante,
vai ser diferente. “


Prenzlauer Berg, Portas de Brandenburgo, Döner Kebab, Currywurst, Reichtag, Charlie's Checkpoint...Há toda uma Berlim para além do sector americano. Até clubes de culto. Uma peregrinação à "casa na Velha Floresta" numa Berlim surpreendentemente quente vista pelo convertido Aires Gouveia.
Berlin hat sie alle. Berlin has it all.
Leio esta frase na Kunsthaus Tacheles em Berlim. A escolha óbvia se tivesse que retratar a cidade num edifício. Ocupado após a reunificação. Ponto de experiências algo utópicas. Símbolo da contracultura que por lá se respira. Das Punk Kapital, leio noutra parede. No entanto, condenado a ser demolido para dar azo a um empreendimento de luxo, apesar de receber 1 milhão de visitantes por ano. Contraditório?
Bem vindos à cidade plástica. Jack Lang, ex-ministro da cultura francês, uma vez disse que “Paris será sempre Paris e Berlim nunca será Berlim”. Sempre em mutação.
Berlim respira cultura. 190 nacionalidades numa metrópole de 4 milhões. Cidade extensa. Barata. Criativa. De diversas realidades e contradições. Maniqueísta. A cidade libertária versus o centro de poder da Europa. Uma cidade, onde coexistiram dois países, dois sistemas antagónicos, um muro de 150km a separá-los. A Guerra-fria no seu esplendor. Um muro que, se fisicamente já quase não existe, virtualmente ainda persiste, conferindo à vibrante Berlim, uma aura especial.
Berlim descrita compara-se a algo com várias camadas, que demoram a ser descobertas. A teoria da cebola. E a camada desportiva será a mais escondida. Existe o Hertha, mas a cidade tem mais que isso.
A crónica não começa em Berlim.
Marienplatz, Munique. 11h. A meio de uma road trip com amigos. Em 2 dias, 1500km na Alemanha. De cachecol do Union ao pescoço, postura de turista-totó-que-tira-fotos-a-tudo-o-que-mexe-com-analógica-de-brincar (na revelação um rolo de viagem todo queimado…), quem me visse, poderia gracejar que tinha cometido argolada. Daí a poucas horas, o local TSV jogaria com o Union. Mas em Berlim.
7 horas, 600km e 2 multas depois - sim, aquele flash visto na chegada a Estugarda no dia anterior, não foi de uma foto de boas vindas – chegámos a Köpenick. Para um jogo da 2.Bundesliga.
Tanta excitação – nem trancámos o carro, descobrimos após o jogo – tinha todo o seu fundamento.
O 1.FC Union Berlin ou Eisern Union, sempre teve uma toada diferente. Clube de matriz operária, na ex-RDA era tido como símbolo de oposição, contrapondo ao Dínamo de Berlim, clube da tortuosa Stasi. No Stadion An der Alten Försterei os dissidentes tinham o seu escape semanal.
Nome é literal. Estádio perto da casa da Velha Floresta. Tem acessos florestais pedonais em terra batida.
Olhando a sua degradação, num clube descapitalizado, 2300 adeptos ofereceram trabalho em 2008 para a sua recuperação. Gesto de enorme amor, numa poupança estimada em 2M€.
Um oásis na era das coloridas e assépticas arenas, das SAD’s onde o adepto é tratado como um cliente passivo. Um estádio que ficou com o seu velho marcador, como gostaria que os meus Barreiros conservassem o seu.
Como no conto Hänsel und Gretel, atraídos não por doces, mas pelo cântico que ao longe ouvíamos – por entre lama, barraquinhas de salsicha e carros de compras cheios de cerveja para venda ilegal – fomos dar às bilheteiras old school do estádio. 10€ mais 1.5€ o programa do jogo.
Sepp Maier, disse uma vez desgostado que "os alemães, organizam perfeitamente um Mundial e até esmagam a equipa mais forte com igual disciplina. Mas não têm a mínima ideia de como organizar uma festa."
Com certeza não veio a Köpenick. 7ºC negativos. 14037 espectadores, uma bela moldura numa 6ªfeira às 18h. Todo o estádio a cantar continuamente - FC Union, Unsere Liebe, Unsere Mannschaft, Unser Stolz, Unser Verein, Union Berlin.
Viciante. Até para mim que não domino a língua. Numa anarquia bem berlinense, naquele festival observo de tudo - contrastando com o pobre espectáculo em campo. Alemães. Turcos. Italianas. Velhos. Jovens. Operários. Punks. Anarcas. Outros nem por isso. Cerveja. Muita cerveja. Com álcool. 2.30€ o copo de 0.5 cl. Com reembolso de 1€ na entrega do copo. Todos em pé em bancadas super compactas.
Das Kult Klub na sua plenitude. Como o afamado St. Pauli. Clubes diferentes em contracultura ao reinante e homogéneo futebol pipoca. Quase românticos. O reverso de clubes sem alma como o Hoffenheim. Sem a postura “hollywoodesca” do Bayern. A eterna discussão no futebol alemão. Um clube de, com e para a massa adepta.
Cai o intervalo. Tal como no Barnabéu, Shakira não consta da playlist. Aqui oiço Basket Case de Green Day. Sorrio. Na barraca cool do clube compro por 15€ uma t-shirt. Choque cultural. Descubro que um M alemão é maior que um português.
Recomeça o jogo. Adiamos o retorno à bancada e entramos num pequeno túnel, cujo final gradeado tem vista para o relvado. Um antigo acesso preservado. Nas paredes, lápides com nomes de pessoas que já cá não estão. Adeptos e desportistas. Que coexistem numa ligação ao que decorre no relvado. Um clube idealista que preza a memória dos seus. Gosto disso.
Atestámos novamente os copos. Afinámos gargantas no nosso alemão inexistente. Em campo o TSV cresce. Minuto 88. 0-1 para os visitantes. Ouvem-se os adeptos contrários.
Ressurge a grande altura "FC Union, Unsere Liebe (…)”
A ganhar ou a perder, os adeptos estão com a equipa. Tempo ainda para mais uma cerveja. E sair com a restante turba a cantar do estádio.
Retorno à teoria da cebola. Descubro a última camada. Se tivesse que retratar Berlim numa equipa, a mesma seria o Union.
Ich bin ein berliner.
Berlim tem mesmo tudo.
[Crónica de uma ida a um jogo entre Union Berlin vs TSV 1860 München, no decurso de uma viagem que realizei no final de Fevereiro passado (Lisboa-Barcelona-Berlim-Nuremberga-Estugarda-Munique-Berlim-Lisboa). Publicado na secção "Viagens na Minha Terra" do suplemento LiV na edição de papel do jornal I do passado dia 28 de Maio de 2011]


sublime foi composto. Uma nova composição musical acabava de ser criada. Chamaram-lhe "O Golo do Século". Pelo maestro Maradona, o pobre miúdo de Vila Fiorito. O inconstante e politicamente incorrecto Maradona. Pessoa capaz do melhor e do pior. Uma pessoa cujo nome equivale quase sempre a controvérsia. Uma pessoa que sempre viveu no limite. Naquele relvado, como de uma pauta musical se tratasse, compõe um sublime momento de arte. Um rasgo de criatividade apenas possível a poucos predestinados. Aos maiores. Como Strauss. Naquele relvado, deslizando e girando por entre adversários, Maradona como que cria a sua própria escala musical entregando uma peça de arte para a posteridade.

"(...)This is democracy in action. The views of the unemployed and the university professor are given equal time, discussed with equal vigour and put to the vote for adoption. The outraged have reclaimed the square from commercial activities and transformed it into a real space of public interaction. The usual late-evening TV viewing time has instead become a time for being with others and discussing the common good. If democracy is the power of the "demos", in other words the rule of those who have no particular qualification for ruling, whether of wealth, power or knowledge, this is the closest we have come to democratic practice in recent European history.
Syntagma's highly articulate debates have discredited the banal mantra that most issues of public policy are too technical for ordinary people and must be left to experts. The realisation that the demos has more collective nous than any leader, a constitutive belief of the classical agora, is now returning to Athens. The outraged have shown that parliamentary democracy must be supplemented with its more direct version. It is a timely reminder as the belief in political representation is coming under pressure throughout Europe (...)"
Costas Douzinas in Guardian
