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2012-06-21

22 de Junho.

"Sim, uma final, porque nós, por tudo o que representava, estávamos a jogar uma final contra a Inglaterra. Porque era ganhar ganhar sobretudo a um país, não a uma equipa de futebol. Embora disséssemos, antes do jogo, que o futebol não tinha nada a ver com a Guerra das Malvinas, sabíamos que ali tinham matado muitos jovens argentinos, tinham-nos matado como pardais... E isto era uma desforra, era...recuperar alguma coisa das Malvinas. Todos dizíamos, nas entrevistas, que não tínhamos de misturar as coisas, mas era mentira, mentira! Não fazíamos mais nada senão pensar nisso, o caraças é que era mais um jogo!
Era mais do que ganhar um jogo, era mais do que deixar os ingleses fora do Mundial. nós culpávamos os jogadores ingleses pelo sucedido, por tudo o que o povo argentino tinha sofrido. Eu sei que parece uma loucura, um disparate, mas isso era o que sinceramente sentíamos. Era mais forte que nós. Estávamos a defender a nossa bandeira, os jovens mortos, os sobreviventes... É por isso que julgo que o meu golo teve tanta transcendência. Na verdade tiveram os dois; os dois tiveram um sabor especial."

Diego Armando Maradona, Eu Sou El Diego (p.135)


22 de Junho de 1986. Estádio Azteca na Cidade do México. Quartos de final do Mundial'86. Um escaldante Argentina - Inglaterra, quatro anos após a guerra das Malvinas. Ou chamar-se-ão Falkland? Não interessa.

O que interessa reter é que pese todos os intervenientes o negassem, aquela partida tinha uma carga simbólica que ia muito mais além do que um simples jogo de futebol.
Quatro anos antes, e norteadas pela necessidade de consolidação dos respectivos regimes políticos - o interesse estratégico das ilhas era quase nulo - os dois países tinham-se envolvido na disputa de um conjunto de ilhas rochosas e semidesérticas situadas a menos de 500 km da costa argentina, em pleno Atlântico Sul, num conflito que durou cerca de 74 dias e provocou 907 baixas, das quais 649 foram do lado argentino e 258 do lado inglês.

O conflito decorreu envolto num alto clima de exaltação nacionalista em ambos os lados. A junta militar argentina basicamente usou o conflito para legitimar o seu poder, e o partido conservador de Margareth Thatcher no auge da sua ânsia reformadora liberal que tantas forças resistentes estava a encontrar, encontrou neste conflito uma escapatória para consolidar a sua liderança por longo tempo, algo que a (previsível) vitória permitiu.
Ainda que a derrota tenha precipitado o início da queda da junta militar que governava de forma opressiva a Argentina há já algum tempo a essa parte, o facto é que a humilhação que a derrota provocou no forte ego argentino, foi algo que nunca foi verdadeiramente esquecido.

Naquela tarde, naquele relvado, tratava-se muito mais que um jogo de futebol. Aliás, desconfio mesmo que para a maioria dos argentinos, ganhar à Inglaterra naquela tarde seria bem mais importante que conquistar o título de campeões do mundo. Algo que mais tarde, Maradona e muitos outros viriam a confirmar. É verdade que o jogo é recordado pela mão de Deus. E pelo 2º golo - o melhor do século - que o Deus Maradona marcou. Essas efemérides são mais que conhecidas. O que não é muito tido em conta, é que ali estava em jogo muito mais que um campeonato ou quaisquer honrarias. Estava em causa sim, a honra e o orgulho ferido de um país que se sentia injustiçado.


"Não podemos comparar futebol com política. É uma má ideia misturá-los. É apenas um jogo. Vamos jogar e desfrutar, mais nada (...)


(...)Somos 23 jogadores, mais a equipa técnica e o resto do staff, mas não jogamos só por nós. Jogamos por todo um país, por 11 milhões de pessoas que na Grécia estão à espera de um sorriso, por alguma boa razão para sair à rua e celebrar. Creio que o conseguimos contra a Rússia e ficamos mesmo contentes."

Giorgos Samaras, conferência de imprensa diária da selecção grega (19-06-2012)

22 de Junho de 2012. Arena de Gdansk, na cidade polaca do mesmo nome. Banhada pelo Báltico. Uma das cidades da chamada Liga Hanseática, aberta por natureza, por influência da sua grande tradição comercial. Cidade que transitou por vários impérios, preservando sempre a sua independência e esse livre espírito. Uma cidade que fiel às suas tradições, foi berço do sindicato solidariedade de Lech Walesa, o movimento que provocou o início da derrocada e progressiva abertura do regime comunista na Polónia assim como outros regimes no até então chamado bloco de leste.
Uma cidade que nos últimos 200 anos esteve baloiçar entre o domínio polaco e o domínio alemão/prussiano. A cidade direi ideal, para receber o previsivelmente escaldante Grécia - Alemanha destes quartos de final do Euro'2012.
Olhando ao contexto político-económico que actualmente se vive na Europa, é impossível ficar indiferente a este confronto e não extravasar o mesmo para fora das quatro linhas. Os devedores contra os credores. Os media gregos já designam a partida pela "A mãe de todas as batalhas".
O norte rico contra o sul pobre.
Numa altura em que que todos os olhares estão na delicada situação grega, a austeridade "über älles" defendida pela chanceler e apoiada pela maioria da opinião pública alemã, assim como declarações (estapafúrdias) como as de políticos e altos dirigentes alemães que defenderam ideias como a Grécia ter que abdicar da sua soberania em certas matérias ou mesmo vender território (ilhas) para pagamento de empréstimos contraídos, criaram um clima de forte contestação e muitos anticorpos anti-alemães no povo grego.
Por outro lado, o comum contribuinte alemão sente-se farto daquilo que considera ser um festim desregulado, a maneira como certos países não têm controlado os seus défices orçamentais.

Ainda assim, para os Gregos, a partida será sempre bem mais que um jogo. O povo grego procurará que uma vitória sirva de alguma espécie de vingança. Um ligeiro lamber de feridas, mesmo que por uma noite, mesmo que passageiro, sobre a terrível sensação de humilhação nacional a que julgam estar a ser submetidos. Arrisco que ganhando à Alemanha, a maioria do povo grego achará secundária a eventual conquista de um hipotético (2º) campeonato da Europa.

Não deixa de ser engraçada a feliz coincidência das datas.
26 Anos depois, este também não será com certeza mais um mero jogo duns quartos de final de uma grande competição.

Claro que o desnível de forças em termos futebolísticos é considerável - bem mais que o existente na altura entre a Inglaterra de Lineker e Shilton e a Argentina de Maradona e Valdano. Esta Alemanha é clara candidata ao título. A Grécia nem ao perto lá chega - se bem que há 8 anos provou que nada é impossível.
A Mannschaft é equipa que gosta de dominar e explanar o jogo. Pelo contrário, esta é uma Grécia em transmutação. Não será a Grécia na retranca de 2004, mas não deixa de ser a equipa que menos remates fez na competição até este momento (19). Menos que Cristiano Ronaldo (21). Nem Karagounis, a ainda grande figura da equipa - nem jogará - é Maradona.

No entanto, tenho a certeza que será mais que um jogo. Assim como no seu íntimo, pese as palavras de Samaras, os jogadores estarão a interiorizar toda esta involvência. Do lado grego, 11 milhões de pessoas assim o exigem.

Racionalmente e em condições normais, a Alemanha ganhará o jogo. Aliás, traçando um paralelismo, até a via política pró-troika acabou por levar a sua avante nas recentes eleições gregas.
Mas a capacidade de superação e abnegação nestes momentos, podem fazer a diferença. Há 26 anos atrás, isso foi bem visível. E neste caso, até já temos um belo exercício de futurologia feito pelo pelos Monty Python, onde a escola grega acaba no fim por se sobrepor ao racionalismo e ética alemãs.


No futebol, como em outros campos da vida, temos sempre a tendência de torcer pelo mais fraco. E o "beautiful game" é precisamente belo, porque em campo são onze contra onze. Ainda que Lineker tenha acrescentado "que no fim ganha a Alemanha". 

Veremos sábado.











2011-06-26

Rasgo




Intro em Lá maior. Dó menor. Dó menor. Mi menor. Mi menor. Sol menor. Sol menor. Mi maior. Mi maior. Dó maior. Dó maior.

As primeira notas de Danúbio Azul. A música que melhor define a Valsa. Ou melhor. Aquilo que a esmagadora maioria das pessoas associaria a este género musical. Até para mim, um completo leigo na matéria. Gizada do génio de Johann Strauss II. Uma pessoa de rasgo. De vida cheia de acasos e ocasos. Com glória. Com depressões e esgotamentos. De posições políticas bem vincadas. Uma pessoa bem controversa ao seu tempo.

Valsa, a erudita e ritmada valsa. De compasso binário composto. A sublime e muito nobre Valsa. Inspirada em simples danças campestres alemãs e austríacas, que provindo de contextos e meios sociais mais baixos, depressa se tornou objecto de culto entre as elites, em especial na ainda púdica Viena dos séc. XVIII e XIX. Como alguém que sobe a pulso, aqui na hierarquia dos géneros musicais.

Javier Marías, numa frase tantas vezes citada, escreveu uma vez que o "futebol é a recuperação semanal da infância". Nada mais correcto.

Numa das primeiras memórias televisivas que tenho, na saudosa RTP-Madeira, num tempo ainda jurássico com apenas um canal - que começava a meio da tarde - recordo um curto clip de vídeo. De futebol. Em slow motion. Ao som de Danúbio Azul de Strauss. Que passava nos intervalos de jogos e eventos desportivos, porventura colmatando a ausência de publicidade. Memórias de um tempos em que ainda havia espaço para estes escapes, algo que a posterior "eucaliptação" publicitária acabou por asfixiar. Adiante.

Recordo uma imagem de forte contraste e imensa luz. Um enorme relvado. No centro uma enorme sombra, sobre o meio campo, como que um religioso presságio ou profecia, introduzia elementos que nos preparavam para o milagre que iria acontecer. Como pano sonoro de fundo, a valsa de Strauss conferindo o devido sentido épico ao momento.

Convém desde já esclarecer que o termo valsa provém do alemão Walzen, que em tradução livre significa girar ou deslizar. Dar voltas.

Quartos de final do México'86. Estádio Azteca, na capital mexicana. Epicentro de um encontro que se adivinhava quente e destrutivo. Um Argentina vs Inglaterra, tal e qual o forte terramoto ocorrido no México um mês antes. O primeiro encontro entre as selecções dos dois países, desde a disputa sobre as ilhas Malvinas. Ou chamar-se-ao Falkland?




Intro em Héctor Enrique. Um toque na bola. Passa Peter Beardsley com rápido toque para outro pé. Finta de corpo e terceiro toque passando Peter Reid. Quarto toque. Quinto toque. Golpe de anca. Passa "Terry" Butcher ao sexto toque. Sétimo toque. Finta Terry" Fenwick. flexão para direita. Oitavo toque entre "Terry" Butcher e saída de Peter Shilton. Nono toque. Entrada de "Terry" Butcher. Baliza aberta. Golo.

Há 25 anos, amparada e quem sabe, abençoada por uma prévia Mão de Deus, outro momento Justificar completamentesublime foi composto. Uma nova composição musical acabava de ser criada. Chamaram-lhe "O Golo do Século". Pelo maestro Maradona, o pobre miúdo de Vila Fiorito. O inconstante e politicamente incorrecto Maradona. Pessoa capaz do melhor e do pior. Uma pessoa cujo nome equivale quase sempre a controvérsia. Uma pessoa que sempre viveu no limite. Naquele relvado, como de uma pauta musical se tratasse, compõe um sublime momento de arte. Um rasgo de criatividade apenas possível a poucos predestinados. Aos maiores. Como Strauss. Naquele relvado, deslizando e girando por entre adversários, Maradona como que cria a sua própria escala musical entregando uma peça de arte para a posteridade.

A partir daquele momento, Futebol - sim, com F maiúsculo - equivalia àquele golo de Maradona. Fosse ali no gigante estádio Azteca, fosse no pequeno beco junto à minha casa, onde se tentava a muito custo transpor, para aquele bocado de alcatrão e cimento, toda a magia que ocorreu naquele 22 de Junho de 1986.

A partir daquele momento, aquele golo de Maradona, passou a ser algo mais que uma mera obra-prima. Se por um lado, contém todo o génio e talento que apenas está ao alcance de alguns escolhidos, por outro lado, o mesmo irrompe no humano e imperfeito Maradona. Egocêntrico até. Capaz da maior gargalhada. Capaz de verter lágrimas. Como que mostrando que há uma camada interior cheia de criatividade. Em permanente combustão. O chamado rasgo. Algo difícil de encontrar. Que no caso de Maradona se manifestou no Futebol. Daí e por tudo o que representa, ele será o maior.

OK. Temos o quase extraterrestre Messi - que nasceu um ano e dois depois deste feito. O imperturbável e pacato Messi. De quem se desconhece grandes desvairos ou incongruências. Alguém atípico. Sem o "salero" mediático que se exige aos predestinados. Embora ele seja um deles.
Que alimenta e alimenta-se do autêntico Deep Blue futebolístico que é este Barça. Algo que nem o génio do igualmente humano e imperfeito José Mourinho, parece contrariar. Mas para mim e numa típica comparação entre o El Pibe e a La Pulga faltará sempre algo mais. O tal lado imperfeito. Faltará igualmente conseguir comandar a Argentina a algo grande. Até porque aquele Nápoles não é este Barcelona. Ou fazer aquela brutalidade nuns quartos de final de um campeonato do mundo, num jogo com aquela carga emotiva contra a Inglaterra, não é o mesmo que fazer igualmente magia, numa meia final da Taça do Rei contra o Getafe. Aos que não crêem, e citando o maior "que la chupen, y que la sigan chupando". Mas estas são outras conversas que agora não interessam.

Aquele foi igualmente o dia da vingança argentina. Qualquer argentino diria que se justiça divina houvesse, a mesma teria acontecido. Ali naquele relvado. Onde se jogava mais que um simples encontro de futebol, pese os intervenientes negassem isso. Ali, Maradona, assumia o papel de marechal guiando as suas operárias tropas à conquista de um segundo título mundial. Numa equipa orgulhosamente só. Para gaúdio popular de um depauperado país. Um ligeiro e efémero conforto, na altura dura realidade argentina. Mas com toda lisura desportiva possível, sem as trapaças do ocorrido no vergonhoso Argentina'78. Digo possível, porque minutos antes, a mão de Deus fora nas palavras de Robson meramente a mão de um patife. Creio que o termo correcto foi "the hand of a rascal".
Mas por vezes "os fins justificam os meios" diria sem qualquer pejo qualquer Sun Tzu, Maquiavel, Lenine ou mesmo algum Kissinger de pacotilha. A história igualmente encobre estas falhas. Chamam-lhe realidade. E os patifes e as patifarias por vezes são necessárias. Em nome de um bem maior. Algo que é reconhecido, mesmo por idealistas convictos. Adiante.

Gostaria de ter começado estas linhas, escrevendo que tinha presenciado in loco aquele fantástico jogo e em especial aquele momento. Que tinha sido um dos 107.000 espectadores presentes naquela autêntica sagração de um mito.
Mas não.Tomei o primeiro contacto com aquele vídeo alguns anos depois. Mas pese essa distância, passou a estar na minha memória como algo que nunca mais esquecerei. Minha e de outros amigos meus. Companheiros de longas tardes de futebol, que se prolongavam até ao raiar da luz. Todos na ânsia de interpretar aquela pauta e aquela composição feita naquele dia, no estádio Azteca. A tentar imitar o inimitável. A pretender alcançar aquele patamar. Ao dito rasgo criativo. A tentar ser um Strauss. Um predestinado.

Acredito piamente que todos, temos em nós contido este rasgo. Mas a esmagadora maioria das pessoas nunca chega a descobrir ou explorar o mesmo. Imposição da rotina, sempre a rotina dirão alguns. Outros por desconhecimento da área a investir - muitos dedicam-se numa eterna busca, muitas vezes em vão. Outros ainda por pouca capacidade de motivação-barra-trabalho.

Mas esta busca, deve a meu ver, ser permanente. Não por qualquer mania ou fixação na "especialização" - algo que abomino um pouco, mas por uma questão de bem estar que daí se gera. Na alegria que se via na cara de Maradona quando tinha a bola. E já agora na de Messi - que só aí deixa cair a sua máscara de "imperturbável".

A melhor prenda que recebi este Natal foi uma placa com a dita jogada - embora o habitual par de peúgas dado pela minha tia tenha sempre um lugar especial. De uma grande revista chamada "11 Freunde". Onze amigos. Como se uma partitura tratasse. Uma Valsa. Talvez o Danúbio Azul. Que me remete para a minha infância e para aquelas tardes. Como que a recordar que todos nós temos um rasgo escondido dentro nós, à espera de ser explorado.

Poderemos não ser predestinados. Não se pretende isso. Mas essa busca deve ser explorada e incentivada. Método tentativa-erro. O rasgo existe e por vezes merece que seja conhecido. E visto. Seja em que área for. Aquela jogada, naquela quente tarde em Junho de 86 vem precisamente comprovar isso mesmo.