2015-05-29

Eu tenho dois amores.


"Eu tenho dois amores
Que em nada são iguais
Mas não tenho a certeza
De qual eu gosto mais
Mas não tenho a certeza
De qual eu gosto mais
Eu tenho dois amores
Que em nada são iguais
"


"Nunca gostei (de "Eu Tenho Dois Amores"). É repetitiva, tem um refrão demasiado fácil, a letra espreme-se e não deita sumo."

Marco Paulo.
Aliás João Simão da Silva. "Himself". Sobre aquele que é o seu maior êxito.

Uma opinião que está de acordo com a cartilha do bom adepto de futebol.
"Um homem muda de tudo: muda de mulher e de partido, muda de religião e até de sexo - muda daquilo que quiser, menos de clube de futebol."

E não é de bom tom mudar de emblema. Ou sequer simpatizar com mais de um emblema.
Quase como um tabu. Como um dogma que nos é incutido desde tenra idade. Um sacrilégio e uma heresia que não conhece nacionalidades ou fronteiras.

Mas neste rectângulo à beira-mar plantado, onde mais de setenta por cento dos adeptos de futebol se diz apoiante ou simpatizante de um dos três maiores e mais titulados emblemas nacionais, esta é uma questão bem premente. Até por uma questão de sustentabilidade do desporto enquanto negócio.
Até que ponto esta premissa é cumprida? Tal como Marco Paulo, indeciso entre morenas e louras, não será normal haver adeptos que tenham simpatia por mais de um emblema? Ou pior. Até ponto as pessoas são fiéis aos seus emblemas de origem? Haverá algum ponto de viragem ou de não retorno que os faça não voltar?

Primeiro a contextualização. A escolha de um clube ocorre devido a várias razões. Uma ponderação de factores entre o sucesso do mesmo, a herança e as preferências a nível familiar e a identificação regional, serão provavelmente as três maiores razões para tal escolha. Claro que muitas outras razões haverá, desde identificação com valores do próprio clube até a uma mera questão cromática, mas as três razões acima descritas serão em grande medidas os factores que mais influirão na altura de escolha de um clube. Mesmo se inconscientemente. 
Friso este ponto, porque a escolha de um clube normalmente ocorre numa tenra idade. Numa altura onde a capacidade de discernimento não será a melhor.
Mas quem disse que isto tinha de ser racional?

E eu próprio, mesmo defendendo a livre escolha, confesso que acho estranho uma mudança de emblema em adulto.
Mas ainda que tabu - também porque parte da essência e beleza do jogo está nos seus códigos e rituais, as mesmas ocorrem.
Mas o que me leva a abordar este tema é mais a questão de ser ou não possível ter duas preferências clubísticas. E para complicar mais as coisas, que os mesmos possam ser adversários na mesma divisão. Ou seja, chegar a um ponto em que os mesmos se defrontam entre si. Imaginam algum adepto que apoie o Benfica e Sporting? Ou o Benfica e o Porto? Mas porventura um Marítimo e um Benfica já será mais aceite. Ou será que não é?

Bem sei que estamos no domínio do irracional, mas a questão pode levantar vários problemas, isto num país onde mais que o futebol, gosta-se dos clubes. 
A um adepto é exigida e pede-se lealdade total a um emblema. A umas cores. A um conjunto de ideias e ideais. Mesmo que possamos não estar totalmente de acordo. Neste domínio, não há muito espaço para individualismo, em especial quando o associativismo puro perde espaço para a progressiva mercantilização do jogo – mas já irei a esse ponto.
E quando essa opinião diverge, essa “ovelha negra” tende a ser ostracizada, numa lógica maniqueísta do nós contra eles. 

O que fazer nestas situações?
Será lógico apoiar e seguir uma equipa por catorze jogos e num jogo subitamente trocar de cores para o outro lado da barricada?
Eis os ditos camaleões.
Que muito asco provocam a quem está lá fielmente durante os tais 15 jogos de uma época - ainda que por vezes estes tenham igualmente o prazer escondido de torcer por uma outra equipa...

Isso em Portugal, até pelos números que falei atrás, não é tão descabido de acontecer. Aliás, não se pense que este é um fenómeno tipicamente português. Acontece em todo o lado. Dou um exemplo, há uns anos assisti a algo que catalogaria de quase surreal. No exterior do Olímpico de Barcelona, então estádio do Espanyol, a maioria dos cachecóis que vi à venda tinha metade do símbolo do clube e metade do símbolo do Real. E a maioria dos cânticos que presenciei visavam o Barcelona. Pese o mesmo nem jogasse. Há razões para tal, mas não deixa de ser estranho.
Mas até nas insuspeitas ilhas britânicas, a terra do "support your local time" esta situação ocorre. E acaba por ser normal. Pelas razões que falei - e que até podem variar um pouco de país para país, mas que sua essência será igual.

As pessoas querem estar associadas a uma aura de sucesso. Muitos dos casos que conheço de mudança de clube ocorrem por isto. As razões familiares são igualmente muito importantes. Normalmente tendemos a seguir o clube dos nossos pais. Mas por vezes isso até pode funcionar em contrário. Há estudos sociológicos que demonstram que em Inglaterra, filhos revoltados escolhem de propósito o grande rival clubístico do clube de preferência do seu pai. Também sei de casos assim cá no burgo.

A identificação regional será mais localizada e provavelmente a ponderação que menos peso terá hoje em dia. Mas numa lógica de simpatia por um segundo clube acaba por ser a que mais peso terá. Pese as boas práticas nesse sentido de clubes como o Braga, Guimarães ou mesmo o meu Marítimo, que lentamente começam a perceber que há que captar e a fidelizar a massa adepta disponível.

Neste domínio, convém lembrar que a reacção de cada pessoa poderá variar. Conheço pessoas que entre um dos chamados "grandes" e os "outros" (que acabam por ser igualmente grandes quando comparados com outros de dimensão ainda menor), escolhem o grande. Outros que preferem nem ver o jogo pois isso seria sempre como escolher entre a mãe e a irmã. Outros, em menor escala, que tomam a decisão de apoiar o mais pequeno. 
Ainda que tudo isto possa variar. Nem vou entrar muito por este domínio, mas é sabido (e sentido) que o nosso grau de afectividade por algo pode estar mais "quente" ou mais "frio" variando devido a uma multiplicidade de razões.
Depois há a crescente mercantilização do jogo. 
Futebol é muitas vezes pintado como o domínio da irracionalidade - e em boa parte até o é, veja-se como no domingo passei em plena Luz do desespero à loucura em apenas dois minutos.
Mas não deixa de ser cada vez mais um negócio. Que joga com a paixão e a irracionalidade de muitos é certo, mas que tende a tratar os seus sócios e adeptos cada vez mais como clientes. Concorde-se ou não (pertenço a estes segundos que não concordam muito com esta lógica), a grande realidade é esta.

Dentro desta perspectiva, na lógica de disputa de activos, o marketing usado é cada vez mais agressivo. E esta irracionalidade estimulada. Talvez a pior forma de marketing possível. Que nos impele a fazer tudo pelas nossas cores. 
Se bem que mediante o pagamento de quota X. Ou aquisição anual da camisa da praxe. Mas que ao fim ao cabo vai tentando cavar uma suposta diferença face aos outros, ainda que depois percebemos que isso acaba por ser uma ilusão com uma lógica mercantil bem definida.

Como já devem ter percebido, também eu padeço deste mal – que será sempre irracional e sobre a qual já não terei controlo. Falo nestes termos, porque considero que muitos dos males do nosso futebol advêm deste desnível que beneficia sempre os mesmos três. E ganharíamos muito mais em termos outros emblemas com mais força a lutarem pelos lugares cimeiros. Até por uma questão de maior competitividade.
Ou talvez esteja a abordar este assunto, porque por vezes, me pareça insano sentir que possuo uma espécie de dupla personalidade ou uma sensação de falta de princípios - experimentem terem feito quase 5.000 km só para ver uma equipa para três dias depois estarem no estádio dessa mesma equipa a puxar pelo adversário que provêm da vossa região. Não qualquer clube da região, mas aquele em específico.
No meu caso, direi que é quase uma forma rebuscada de manter um laço à região em causa. 
No entanto, se pudesse, teria feito não 5.000 mas 10.000 km pela equipa do outro lado do relvado.

Dito assim, não parece muito coerente, mas eu nunca disse que esta era uma temática de fácil percepção.

Acredito na livre escolha. E nunca gostei de alimentar perseguições. Nunca as fiz. E acredito que da mesma maneira que posso gostar de uma banda, posso ouvir igualmente muitas outras. Se bem que aceito que não possa ser comparável. 
Mas lá está, tudo isto responde a um domínio irracional.
E claro, há muitas simpatias que poderão ser criadas com muitos clubes que vamos encontrando ao longo da nossa vida, seja por afinidades políticas, geográficas ou mesmo cromáticas.

E aceito que me contraponham. Que digam que estou a incorrer numa heresia.
Porventura não saberei escolher entre a loura e a morena.

Eduardo Galeano uma vez disse: "Eu finalmente já me aceitei como sou: um mendigo por bom futebol. De mão estendida, vou pelo mundo e nos estádios peço - 'por favor, um movimento gracioso pelo amor de Deus.' E quando esse bom futebol acontece, eu dou graças pelo milagre e não me importo nada sobre qual equipa ou país que o executou."

Não me tenho em tão boa conta, mas eu “biclubista” me confesso.
Por vezes tenho dois amores, e não sei de qual eu gosto mais.


(na sequência da final da 8ªedição da Taça da Liga, que irá opor as equipas do SL Benfica e do CS Marítimo, aproveito para "desenterrar" um texto escrito em Agosto de 2013 para o sítio footyelegance.com versando um dos tabús existentes no "beautiful game": ser adepto de duas equipas.  pese o texto possa indicar a existência de um coração dividido, mais logo, o autor do texto estará em Coimbra a apoiar o Maior das Ilhas)