2015-05-29

Eu tenho dois amores.


"Eu tenho dois amores
Que em nada são iguais
Mas não tenho a certeza
De qual eu gosto mais
Mas não tenho a certeza
De qual eu gosto mais
Eu tenho dois amores
Que em nada são iguais
"


"Nunca gostei (de "Eu Tenho Dois Amores"). É repetitiva, tem um refrão demasiado fácil, a letra espreme-se e não deita sumo."

Marco Paulo.
Aliás João Simão da Silva. "Himself". Sobre aquele que é o seu maior êxito.

Uma opinião que está de acordo com a cartilha do bom adepto de futebol.
"Um homem muda de tudo: muda de mulher e de partido, muda de religião e até de sexo - muda daquilo que quiser, menos de clube de futebol."

E não é de bom tom mudar de emblema. Ou sequer simpatizar com mais de um emblema.
Quase como um tabu. Como um dogma que nos é incutido desde tenra idade. Um sacrilégio e uma heresia que não conhece nacionalidades ou fronteiras.

Mas neste rectângulo à beira-mar plantado, onde mais de setenta por cento dos adeptos de futebol se diz apoiante ou simpatizante de um dos três maiores e mais titulados emblemas nacionais, esta é uma questão bem premente. Até por uma questão de sustentabilidade do desporto enquanto negócio.
Até que ponto esta premissa é cumprida? Tal como Marco Paulo, indeciso entre morenas e louras, não será normal haver adeptos que tenham simpatia por mais de um emblema? Ou pior. Até ponto as pessoas são fiéis aos seus emblemas de origem? Haverá algum ponto de viragem ou de não retorno que os faça não voltar?

Primeiro a contextualização. A escolha de um clube ocorre devido a várias razões. Uma ponderação de factores entre o sucesso do mesmo, a herança e as preferências a nível familiar e a identificação regional, serão provavelmente as três maiores razões para tal escolha. Claro que muitas outras razões haverá, desde identificação com valores do próprio clube até a uma mera questão cromática, mas as três razões acima descritas serão em grande medidas os factores que mais influirão na altura de escolha de um clube. Mesmo se inconscientemente. 
Friso este ponto, porque a escolha de um clube normalmente ocorre numa tenra idade. Numa altura onde a capacidade de discernimento não será a melhor.
Mas quem disse que isto tinha de ser racional?

E eu próprio, mesmo defendendo a livre escolha, confesso que acho estranho uma mudança de emblema em adulto.
Mas ainda que tabu - também porque parte da essência e beleza do jogo está nos seus códigos e rituais, as mesmas ocorrem.
Mas o que me leva a abordar este tema é mais a questão de ser ou não possível ter duas preferências clubísticas. E para complicar mais as coisas, que os mesmos possam ser adversários na mesma divisão. Ou seja, chegar a um ponto em que os mesmos se defrontam entre si. Imaginam algum adepto que apoie o Benfica e Sporting? Ou o Benfica e o Porto? Mas porventura um Marítimo e um Benfica já será mais aceite. Ou será que não é?

Bem sei que estamos no domínio do irracional, mas a questão pode levantar vários problemas, isto num país onde mais que o futebol, gosta-se dos clubes. 
A um adepto é exigida e pede-se lealdade total a um emblema. A umas cores. A um conjunto de ideias e ideais. Mesmo que possamos não estar totalmente de acordo. Neste domínio, não há muito espaço para individualismo, em especial quando o associativismo puro perde espaço para a progressiva mercantilização do jogo – mas já irei a esse ponto.
E quando essa opinião diverge, essa “ovelha negra” tende a ser ostracizada, numa lógica maniqueísta do nós contra eles. 

O que fazer nestas situações?
Será lógico apoiar e seguir uma equipa por catorze jogos e num jogo subitamente trocar de cores para o outro lado da barricada?
Eis os ditos camaleões.
Que muito asco provocam a quem está lá fielmente durante os tais 15 jogos de uma época - ainda que por vezes estes tenham igualmente o prazer escondido de torcer por uma outra equipa...

Isso em Portugal, até pelos números que falei atrás, não é tão descabido de acontecer. Aliás, não se pense que este é um fenómeno tipicamente português. Acontece em todo o lado. Dou um exemplo, há uns anos assisti a algo que catalogaria de quase surreal. No exterior do Olímpico de Barcelona, então estádio do Espanyol, a maioria dos cachecóis que vi à venda tinha metade do símbolo do clube e metade do símbolo do Real. E a maioria dos cânticos que presenciei visavam o Barcelona. Pese o mesmo nem jogasse. Há razões para tal, mas não deixa de ser estranho.
Mas até nas insuspeitas ilhas britânicas, a terra do "support your local time" esta situação ocorre. E acaba por ser normal. Pelas razões que falei - e que até podem variar um pouco de país para país, mas que sua essência será igual.

As pessoas querem estar associadas a uma aura de sucesso. Muitos dos casos que conheço de mudança de clube ocorrem por isto. As razões familiares são igualmente muito importantes. Normalmente tendemos a seguir o clube dos nossos pais. Mas por vezes isso até pode funcionar em contrário. Há estudos sociológicos que demonstram que em Inglaterra, filhos revoltados escolhem de propósito o grande rival clubístico do clube de preferência do seu pai. Também sei de casos assim cá no burgo.

A identificação regional será mais localizada e provavelmente a ponderação que menos peso terá hoje em dia. Mas numa lógica de simpatia por um segundo clube acaba por ser a que mais peso terá. Pese as boas práticas nesse sentido de clubes como o Braga, Guimarães ou mesmo o meu Marítimo, que lentamente começam a perceber que há que captar e a fidelizar a massa adepta disponível.

Neste domínio, convém lembrar que a reacção de cada pessoa poderá variar. Conheço pessoas que entre um dos chamados "grandes" e os "outros" (que acabam por ser igualmente grandes quando comparados com outros de dimensão ainda menor), escolhem o grande. Outros que preferem nem ver o jogo pois isso seria sempre como escolher entre a mãe e a irmã. Outros, em menor escala, que tomam a decisão de apoiar o mais pequeno. 
Ainda que tudo isto possa variar. Nem vou entrar muito por este domínio, mas é sabido (e sentido) que o nosso grau de afectividade por algo pode estar mais "quente" ou mais "frio" variando devido a uma multiplicidade de razões.
Depois há a crescente mercantilização do jogo. 
Futebol é muitas vezes pintado como o domínio da irracionalidade - e em boa parte até o é, veja-se como no domingo passei em plena Luz do desespero à loucura em apenas dois minutos.
Mas não deixa de ser cada vez mais um negócio. Que joga com a paixão e a irracionalidade de muitos é certo, mas que tende a tratar os seus sócios e adeptos cada vez mais como clientes. Concorde-se ou não (pertenço a estes segundos que não concordam muito com esta lógica), a grande realidade é esta.

Dentro desta perspectiva, na lógica de disputa de activos, o marketing usado é cada vez mais agressivo. E esta irracionalidade estimulada. Talvez a pior forma de marketing possível. Que nos impele a fazer tudo pelas nossas cores. 
Se bem que mediante o pagamento de quota X. Ou aquisição anual da camisa da praxe. Mas que ao fim ao cabo vai tentando cavar uma suposta diferença face aos outros, ainda que depois percebemos que isso acaba por ser uma ilusão com uma lógica mercantil bem definida.

Como já devem ter percebido, também eu padeço deste mal – que será sempre irracional e sobre a qual já não terei controlo. Falo nestes termos, porque considero que muitos dos males do nosso futebol advêm deste desnível que beneficia sempre os mesmos três. E ganharíamos muito mais em termos outros emblemas com mais força a lutarem pelos lugares cimeiros. Até por uma questão de maior competitividade.
Ou talvez esteja a abordar este assunto, porque por vezes, me pareça insano sentir que possuo uma espécie de dupla personalidade ou uma sensação de falta de princípios - experimentem terem feito quase 5.000 km só para ver uma equipa para três dias depois estarem no estádio dessa mesma equipa a puxar pelo adversário que provêm da vossa região. Não qualquer clube da região, mas aquele em específico.
No meu caso, direi que é quase uma forma rebuscada de manter um laço à região em causa. 
No entanto, se pudesse, teria feito não 5.000 mas 10.000 km pela equipa do outro lado do relvado.

Dito assim, não parece muito coerente, mas eu nunca disse que esta era uma temática de fácil percepção.

Acredito na livre escolha. E nunca gostei de alimentar perseguições. Nunca as fiz. E acredito que da mesma maneira que posso gostar de uma banda, posso ouvir igualmente muitas outras. Se bem que aceito que não possa ser comparável. 
Mas lá está, tudo isto responde a um domínio irracional.
E claro, há muitas simpatias que poderão ser criadas com muitos clubes que vamos encontrando ao longo da nossa vida, seja por afinidades políticas, geográficas ou mesmo cromáticas.

E aceito que me contraponham. Que digam que estou a incorrer numa heresia.
Porventura não saberei escolher entre a loura e a morena.

Eduardo Galeano uma vez disse: "Eu finalmente já me aceitei como sou: um mendigo por bom futebol. De mão estendida, vou pelo mundo e nos estádios peço - 'por favor, um movimento gracioso pelo amor de Deus.' E quando esse bom futebol acontece, eu dou graças pelo milagre e não me importo nada sobre qual equipa ou país que o executou."

Não me tenho em tão boa conta, mas eu “biclubista” me confesso.
Por vezes tenho dois amores, e não sei de qual eu gosto mais.


(na sequência da final da 8ªedição da Taça da Liga, que irá opor as equipas do SL Benfica e do CS Marítimo, aproveito para "desenterrar" um texto escrito em Agosto de 2013 para o sítio footyelegance.com versando um dos tabús existentes no "beautiful game": ser adepto de duas equipas.  pese o texto possa indicar a existência de um coração dividido, mais logo, o autor do texto estará em Coimbra a apoiar o Maior das Ilhas)


2014-01-06

King.



"Podem existir muitos príncipes no futebol, mas Rei há apenas um!"

No meio de toda a profusão de mensagens e opiniões, com esta singela frase, Toni retrata na perfeição o que foi Eusébio.
Alguém que fazia jus ao lema "E Pluribus Unum".
De todos um.

RIP Eusébio.




2013-11-14

Tributo a Camus


"Everything I know about morality and the obligations of men, I owe it to football"
Albert Camus




Há precisamente um século atrás, a 7 de Novembo de 1913, nascia na Algéria o autor desta frase.
Outrora um razoável guarda redes das camadas jovens do Racing Universitaire d’Alger – isto em idos da década de 30 – o bem conhecido Albert Camus tornou-se com a idade num excelente ensaísta, dramaturgo, filósofo, romancista, escritor, editor, tutor…Enfim um Katsouranis das letras.
Alguém que ganhou um Nobel da Literatura dado pela Academia Sueca.
Mas não embandeiremos muito o arco. Do país do IKEA era de esperar algo semelhante, isto duma instituição que um dia foi capaz de dar o prémio [muito bem atribuído] a um serralheiro-mecânico nascido na Golegã.

Mas regressemos a Albert Camus.

Alguém cujos escritos versaram muito sobre o absurdo. Politicamente alguém muito engajado. Primeiramente na forma de um socialismo científico que mais tarde desagua num pós anarquismo idealista, isto sem nunca se ter aprisionado pelo debate ideológico.
Amarrado ou condicionado por quer que seja.

Fosse no papel activo na emancipação contra a ocupação francesa do Magrebe. Fosse durante a Segunda Grande Guerra, militando na Resistência contra a ocupação nazi. Ou fosse ainda na sua resignação da UNESCO em 53, após a aceitação da Espanha de Franco na ONU, regime cuja violação sistemática dos direitos humanos era por si fortemente criticada.
Alguém de coluna idónea, fiel a valores e conceitos como o amor ao próximo, ética, pacifismo, justiça ou o humanismo.
Que rejeitava qualquer tipo de totalitarismo não interessa a proveniência ou tendências de pensamento único. Alguém com opinião. E mais importante, sem receio de a usar como a sua vida o comprova.
Ainda assim, alguém muito terra-a-terra, em muito devido às suas origens e às suas vivências de todo o seu percurso de vida.

Nesta altura, até pela temática, admito este texto pode parecer estranho a muitos dos que nos lêem.
Mas Camus era alguém que mantinha com o futebol uma dialéctica muito interessante. Vendo no mesmo uma analogia da sociedade e da vida em geral.
Algo que compartilho.
Daí esta minha homenagem. Daí este meu texto.

De homenagem a alguém que numa vez ao aterrar no Brasil para uma conferência universitária, fez o inusitado pedido de ir logo ver um jogo de futebol, isto numa época em que ao intelectual era difícil assumir – quanto mais aos outros reconhecer – a sua faceta de adepto de um desporto ou actividade conotada com as massas incultas, como era na altura considerado o jogo que tanto amamos.
O homem que uma vez na resposta a uma questão, disse que entre futebol e o teatro, escolheria sem dúvida o futebol. Sem desprimor para o primeiro.
Mas agradava-lhe o carácter popular e simples do segundo. Sem máscaras.


Camus no Racing Universitaire d'Alger
Pegando na citação inicial, Camus referiu uma vez numa entrevista à France Football, que tudo o que tinha aprendido na vida acerca de moral e as obrigações de um homem devia ao futebol.

De facto, se bem que à primeira vista esta frase possa parecer redutora, quem partilhou um balneário percebe o que Camus quereria dizer.
A camaradagem, a integração do individual no colectivo, o "fair play", a prossecução de um objectivo comum no meio de díspares personalidades, são tudo aspectos intrínsecos ao “beautiful game”. E porque não dizê-lo, também a uma sociedade.

E Camus ainda por cima era um guarda-redes.

Uma posição que poderá ser algo ingrata.

Em putos, há sempre a tendência para usarmos a posição para a qual são despejados aqueles que são desprovidos de algum jeito para jogar na frente. Ou que são gordos. E normalmente o gordo vai à baliza.

Mas à parte disto e não querendo despertar algum recalcamento contido em quem lê este texto, num outro contexto, se imaginarmos o onze que entra em campo como um grupo de heróis da Marvel, os guarda-redes serão os grande candidatos a serem os vilões incompreendidos [de repente tento esquecer-me que o Roberto poderá apenas ser a minha mais recente Nemésis...].

Isto porque tentam a todo o custo impedir o clímax do futebol ou seja o golo.

Na esmagadora maioria das vezes apenas são notados nestas alturas. E no coração dos adeptos passam rapidamente de bestas a bestiais à distância de uma luva. Ou de um golpe de asa. Daí a necessidade de grande concentração para tão específica posição. Que muitas vezes gera o inverso em termos de reconhecimento pelo seu esforço.

E todos sabemos que existe a tendência para haver sempre um bode-expiatório.

Jonathan Wilson, autor de um (bom) livro chamado “The Outsider: A History of the Goalkeeper“, estabelecendo um paralelismo óbvio, indica que em todas as sociedades, até os mais influentes fazedores de opinião arranjaram ou arranjam um bode-expiatório: Marx culpava o sistema capitalista. Freud culpava o impulso sexual. E Darwin a religião.
Por cá Vasco Pulido Valente culpa todo o mundo (e ele próprio quando se olha ao espelho).
Os futebolistas por seu turno culpam o guarda-redes.

Galeano escreveu sobre eles que podem ser chamados de porteiros ou guardiães, mas poderiam chamar-lhes de mártires ou penitentes, não crescendo mais relva no espaço em que pisam, condenados que estão a observar o jogo de longe.
Este autor vai até mais longe e indica que carregando nas costas o número um, são os primeiro a receber e os primeiro a pagar. Os guarda-redes terão sempre culpa e mesmo que não a tenham, arcarão sempre com a mesma.

Daí serem quase como que “outsiders”. Corpos estranhos num jogo tão belo. Alguém que destoa duma harmonia tão própria.

Mas talvez por actuar em tão específica posição, Camus tenha aprendido a observar toda esta dinâmica e harmonia de uma posição privilegiada, ou seja de trás, algo muito difícil aos restantes intervenientes em campo.

Talvez por isso tivesse tido a postura e a conduta que sempre o caracterizou. Alguém que politicamente (e transcrevendo uma publicação recente de Vitor Belanciano no Facebook sobre Camus) “não caiu na armadilha em que a maior parte das pessoas caem: ‘se não estás ao meu lado, estás contra mim’(…) tendo a lucidez de não cair na armadilha de escolher entre o imperialismo de um ou de outros, tentando superar as clivagens políticas tradicionais.”

Ou seja, um verdadeiro espírito livre. Fiel mais que tudo à sua conduta e aos seus princípios.

Algo inerente a alguém a quem é permitido não se reger por sistemas tácticos rígidos. Que tem os seus próprios posicionamentos específicos em campo. Os seus próprios ritos e rituais. Porque o guarda-redes acaba por ser a última barreira de segurança, de quem tudo pode depender, ainda que esteja na mais desprotegida das posições.

Paradoxo não é?

Mas ao mesmo tempo esta será aquela posição que permitirá mais solidão e introspecção pessoal aos seus ocupantes.
Daí não ser descabido ter havido nomes como o já referido Camus mas também Karol Wojtyla ou mesmo Vladimir Nabokov, tudo personalidade reconhecidas pela sua vincada independência em tão ingrata posição de campo, isto quando praticantes da modalidade.

Talvez estarei a extrapolar um pouco e certamente não espero nenhum vulto extraordinário para além dos feitos desportivos de um comum guarda-redes – digamos de um Rui Patrício (nem sequer uma entrevista interessante, quando mais algo…).

Mas olhando ao exemplo particular de Camus, gosto de pensar que o futebol, enquanto pequeno microcosmos representativo da sociedade poderá porventura despertar e incentivar nos seus intervenientes e naqueles que o rodeiam e seguem, ainda que em pequena escala, este tipo de sentimentos.
Mesmo se na maioria das vezes o futebol seja o domínio do irracional.

Mas muitas vezes a vida ensina-nos que não podemos ser iguais a mais um jogador de campo.
Por vezes temos de assumir a posição de guarda-redes.
Por muito difícil e confuso que isso possa parecer.


(texto próprio publicado no FootyElegance por altura do centenário do nascimento de Albert Camus - 07-11-2013)




2013-08-31

Footy Tunes #3 - Mais que um simples jogo.


Mais que um simples jogo.
Aires Gouveia



15 de Dezembro de 2001.

Antigo Estádio da Luz. 

Recém-chegado à capital, com 18 anos ainda frescos, finalmente assistia ao vivo ao meu primeiro derby. 
Por sinal o último disputado naquele estádio ainda completo - antes do início das demolições que ocorreriam no dia seguinte e decepariam parte da estrutura da velha catedral, numa Luz efervescente a rebentar pelas costuras.
Aquele Benfica-Sporting do mergulho do Jardel.

Recordo com exactidão todos os momentos que rodearam esse acontecimento.
Desde a compra de bilhetes na "cadonga" por um preço muito acima do normal, à energia electrizante que rodeou a entrada no estádio, o estar emparedado a saltar num sector com muitas mais pessoas que o permitido, o acreditar numa vitória indo da emoção do 2-0 à desilusão do 2-2 final, num jogo com tudo desde expulsões a penaltis, o sentimento de revolta no final, a chuva de pedras entre grupos de adeptos no túnel sobre a 2ª Circular ou o ficar à espera da saída do autocarro do Sporting para mostrar um cachecol do AC Milan - equipa que os tinha eliminado da Europa uns dias antes, e sentir que tinha ganho o dia ao ver que o Hugo Viana tinha respondido a tal gesto com um manguito (pese o excerto de porrada que apanhei no final da noite por estar no sítio errado, à hora errada, provavelmente com as cores erradas...).

Bem vindos ao domínio do irracional. 
Ao domínio da paixão. Exacerbada. 
Do jogo no qual, não obstante a classificação à altura, não haverá favoritos à partida. Porque é o Derby. Isso mesmo, escrito com letra maiúscula.
O clássico dos clássicos. 
E tendo como breve amostra muitas mesas de matraquilhos em bares por esse país fora, o jogo que mais paixões suscita em Portugal.

Eis o Derby da Capital. Da Segunda Circular. O Derby Eterno.

Tal como Caim e Abel, como dois irmãos fratricidas, nado e criados na mesma cidade, porém de origens bem distintas, o choque entre dois emblemas obrigados a coexistir e a partilhar um espaço em comum, 
Se bem que ambos terão no entanto a noção, de que um não existiria ou teria a mesma grandeza se não existisse o outro. Como um Yin e o Yang.
Um confronto que faz perceber o verdadeiro significado da palavra rivalidade, um embate sem tréguas, despertando paixões não só na capital, como mexendo efectivamente com todo o país e além-fronteiras.
Pese o domínio do futebol indígena tenha há muito rumado a Norte.

A história deste jogo remonta muito atrás. À própria origem dos clubes. Tal como todos os grandes clássicos, há sempre um catalisador para toda esta rivalidade. 

O primeiro derby disputou-se há mais de 100 anos, mais precisamente a 1 de Dezembro de 1907. No Campo da Quinta Nova, em Carcavelos, casa emprestada então do Sport Lisboa - que um ano mais tarde se fundaria com o Grupo Sport Benfica, formando o actual Sport Lisboa e Benfica.

O recém-formado Sporting Clube de Portugal apresentou em campo oito jogadores que haviam abandonado o Sport Lisboa, "aliciados" ou "em busca" (ler conforme cor clubística mais adequada) "por" ou "de" melhores condições oferecidas pelo primeiro. Bastou um campo próprio, existência de balneários e sanitários.

Para compor o ramalhete, um dos fundadores do Sport Lisboa, Cândido Rosa Rodrigues (um dos irmãos Catatau"), agora com outras cores, foi o marcador do primeiro tento da vitória do Sporting, selada na sequência de um auto-golo infeliz marcado por Cosme Damião (grande impulsionador do Benfica durante o primeiro quarto de século de vida - ainda hoje é o treinador com mais épocas ao leme das águias com um total de 18 anos seguidos), perfazendo o resultado final da de 1-2 - Corga marcaria o tento de honra do Sport Lisboa.
Isto sem antes e na sequência de uma forte chuva, o Sporting ter interrompido o jogo e se ter retirado, apenas retornando sob a ameaça feita pelo árbitro da partida de que poderia vir a perder o jogo caso não revertesse essa sua decisão de abandono. 

Duzentos e oitenta e nove jogos oficiais depois e neste sábado teremos mais um embate entre as duas equipas.
O 290º desafio.
O saldo regista 127 triunfos para as águias, 104 dos leões e 58 igualdades. Em termos de golos marcados, nova vantagem do Benfica com 493 golos marcados contra 448 golos do adversário. 

Números que alimentam este choque de titãs que atravessou décadas. 

Uma partida com um confronto cultural e identitário bem definido. De um lado um clube de matriz bem popular e transversal mais conotado com as classes baixas. Do outro um clube mais aristocrático ligado aos sectores mais abastados da sociedade.
Ainda hoje em dia, pese as bases de apoio sejam bem mais transversais e misturadas, esta segmentação encontra-se enraizada no ADN do ideário popular. 

Um jogo que cresceu para além do conceito de simples jogo. Que criou mitos e lendas em volta do mesmo, alimentando-se e retro-alimentando-se de tais conceitos desde aquela tarde invernosa de Dezembro em 1907.

Numa vez li uma descrição interessante que ilustra bem o porquê deste jogo ser tão especial. 
Um "Benfica-Sporting" ou um "Sporting-Benfica" nunca são meramente um "Benfica-Sporting" ou um "Sporting-Benfica". 
Serão sempre "aquele". 
Tal como foi "aquele" do mergulho do Jardel.
"Aquele" da cabeçada de Luisão. 
"Aquele" do brinco do Baptista. 
"Aquele" dos sete a um.
"Aquele" em que o Scott Minto até marcou!
"Aquele" do "petardo" do Geovanni.
"Aquele" (triste) do very-light.
"Aquele" do beijo de Sabry.
"Aquele" do golaço do Lima (e da barbaridade de São Gaitán). 
"Aquele" do hat-trick do João Pinto. 

Já vi e presenciei muitos derbys quer ao vivo, quer via televisão. Mas recordo com especial carinho este último que referi. 
"Aquele" do menino de ouro.

Em Maio de 1994, então com 11 anos, no meu rochedo natal, passei o jogo todo estoicamente colado à frente de um televisor com um (agora velhinho) cachecol erguido ao alto que um amigo lisboeta da minha irmã mais velha me tinha oferecido no Natal anterior. 
Levantei-o após o primeiro golo do Sporting e após o 3-6 final acreditava que a minha acção tinha sido razão para tão desnivelado resultado - isto frente a um dos melhores Sporting que tive memória de ver.
Tinha assistido a magia pura. Tinha realmente impelido os “meus” para a vitória.
Na idade de todos os sonhos. Na idade em que ainda acalentava estar um dia lá dentro do relvado. 
Tinha assistido ao adicionar de mais um episódio mágico ao já extenso rol de mitos e lendas que se criaram nos confrontos entre estas duas equipas. 

Muitos dos meus companheiros que aqui escrevem poderão estar a discordar em muitos destas linhas que aqui vos escrevo. Não os censuro.
Reconheço que um Porto-Benfica tem sido nos últimos anos muito forte em termos de animosidade. E para muitos dos benfiquistas que estão fora de Lisboa (e são imensos), esse será porventura o jogo que mais mexe com os mesmos. E concordo que haverá certamente muitas histórias e o sentimento com que o jogo é vivido é igualmente especial.
Eu próprio terei as minhas histórias.

Mas vivendo na capital (pese orgulhoso das minhas raízes insulares), tomando a mesma como a "minha" cidade de facto (a minha “Grande Alface”) é inegável que a carga que se sente com este derby é muito maior. Pelo menos para os adeptos dos dois clubes em causa.
Porque o espaço de onde descendem os dois clubes é comum. Porque temos que "levar com eles". E também "eles" existem em grande número. Porque o "outro" faz inegavelmente parte do microcosmos desta grande cidade.
Porque há uma electricidade especial no ar.
Um “je ne sais quois”.
Porque a uma semana anterior a um derby cheia de bazófia de ambos os lados, a fronteira entre uma semana seguinte cheia de moral ou de depressão no emprego, no tasco ou na rua a cruzar-se com o vizinho, poderá estar à distância de uma vitória ou de uma derrota.

E isto só se depreende talvez depois de vivermos em Lisboa. De sentirmos "in loco" um derby. Em estádios que distam geograficamente a menos de 3.000 metros. Seja na nossa casa. E ainda em maior escala fora de casa. Onde “dá pica”. Num sentimento primário de sobrevivência. Onde o "nós contra eles" é mais que válido. Onde todos os impropérios são mais que requeridos. 
Se bem que isto é válido e comum, em maior ou menor escala, para todos os outros derbys e clássicos que existem.

Alguém externo ao fenómeno tende a percepcionar o futebol como um simples jogo. Como um fenómeno de massas que mexe com paixões, mas que ao fim ao cabo, nada mais é que um jogo. 

Nada mais errado. Há jogos envoltos numa aura que ultrapassam tudo isso. Porque ao fim ao cabo são mais que um simples jogo. E um derby é isso mesmo.
Muito mais que um simples jogo.

E mesmo quase 20 anos depois, sou capaz de sair do estádio com um sorriso pueril de lés a lés. Com a mesma crença daquela tarde Maio. Ou aquela satisfação irracional daquela noite de Dezembro. Acreditando que com o meu apoio levei a equipa à vitória. Ou que não os deixei de os confortar com esses mesmos cânticos na derrota. Uma completa irracionalidade. 

Rezam as escrituras que Deus (e para que não haja dúvidas, não estou a falar de ninguém na tríade Eusébio, Rui Costa ou Aimar) na sequência da morte de Abel por Caim deixou neste último uma marca física. Para que fosse visível a todos a sua imperfeição.

O futebol moderno foi concebido pelos seus criadores como um jogo de "gentlemen" para "gentlemen" onde o respeito pelo adversário imperaria acima de tudo. 

Talvez o derby sirva para mostrar que até o futebol tem a sua marca de Caim.
E muita da beleza do mesmo advém disso.



(publicado em footyelegance.com - projecto que transpira paixão pelo jogo mais lindo, e que muito apraz ter sido convidada a colaborar. sempre acompanhado de uma lista musical apropriada. ver restantes textos em footyelegance.com/author/aires/)


2013-06-19

# vemprarua

 


Sou louco por futebol.
Mesmo. 
Vibro. 
É uma droga.  
E digo que, entre todas as coisas fúteis e triviais da vida, o futebol é provavelmente das mais importantes, senão a mais importante (por vezes confesso que sim).


Mas há uma linha que convém não passar.


Se princípios e valores como a justiça e a dignidade humana são colocados de lado em detrimento do futebol, então ele perde todo o significado e deixa de ser o jogo mais bonito.
O jogo que eu adoro.


Solidariedade Brasil!

# vemprarua




2013-04-11

Manifesto por um Futuro Europeu





Nascida da ideia de cooperação, desenvolvimento e progresso, a Europa parece conformada no seu actual papel e sem futuro. A Europa esqueceu-se da comunidade dos europeus e parece caminhar de olhos fechados sobre um presente negro.
O projecto de uma União Europeia parece desvanecer-se perante as transformações globais, e a recuperação europeia encontra-se bloqueada por um processo burocrático que encobre o medo de não assumir compromissos com alcance histórico.
Esta Europa esqueceu a riqueza do seu passado, a vantagem do seu presente e o impulso democrático, ambiental e cívico do seu processo de construção, e apagou os benefícios de uma integração política e económica entre os seus estados-membros. Este é o momento para travar a soma de egoísmo e cepticismo que ameaça os países e os cidadãos europeus. É o tempo de recuperar as palavras de Shelley: “somos todos gregos”, e de Kennedy: “Ich bin ein Berliner.” Nascemos europeus. Nascemos em nações democráticas numa Europa sem fronteiras e queremos derrubar os muros entre os povos europeus.
Somos um grupo de jovens europeus de Portugal e mais do que identificar problemas, queremos ver a Europa levantar-se de novo e confiar nas mãos dos seus cidadãos, a responsabilidade histórica que lhes compete. Vimos comunicar que queremos e somos capazes de escolher o nosso futuro.
Identificámos três áreas em concreto nas quais focaremos os nossos esforços:

1. Democracia

A União Europeia carece de legitimidade popular. A separação entre os centros de poder não eleitos e a discussão política sem poder de decisão provocou um afastamento entre os interesses da comunidade de europeus e os interesses de alguns particulares.
O diálogo de aproximação que caracterizou a Europa foi substituído por imposições que subverteram o significado da própria palavra “União”, fracturando os estados-membros em grupos distintos. Os mais altos dirigentes da UE não são escolhidos por sufrágio directo, respondendo mais aos governos de alguns países do que aos cidadãos que deviam representar. Este afastamento é causado pela opacidade dos processos de deliberação, do impacto das directivas europeias e pela falta de legislação que aproxime os cidadãos dos decisores.
É necessária a criação de formas de representação dos cidadãos europeus cada vez mais para além da clássica mediação exercida pelos representantes dos respectivos estados-membros e a instituição de um exercício constante de transferência de informação de forma clara e directa, também no sector legal. Sobretudo, consideramos que deveria existir um maior esforço no sentido de instituir uma cidadania europeia significativa, que nasça não da padronização mas da aceitação e equilíbrio das diferenças, no sentido de criar uma verdadeira união, superior a fronteiras e tratados, ancorada no desejo de cada indivíduo de ser europeu e no espírito do lema da União Europeia: “Unidos na Diversidade”.

2. Educação e Cultura

A educação e a cultura merecem um particular destaque nas nossas preocupações, por considerarmos que são factores críticos para a promoção da coesão social, inovação, convergência entre países e desenvolvimento da Europa. Constituem uma parte fundamental na formação pessoal dos cidadãos, que se reflecte em todas as suas esferas de acção. As mais-valias demonstradas por iniciativas de mobilidade como o programa Erasmus, que aproximaram os estudantes dos vários estados da Europa e permitiram a esta geração uma visão global e inclusiva, devem ser tomados como ponto de partida para uma maior integração entre as várias instituições de ensino, de investigação, de desenvolvimento e de inovação.
Consideramos um direito fundamental o acesso à informação pela disponibilização pública, universal e livre da internet, assim como de todas as ferramentas tecnológicas inerentes a esse meio, a existência de equipamentos escolares modernos e de métodos de ensino-aprendizagem que promovam o trabalho colaborativo com recurso a meios tecnológicos avançados e que seja potenciado o envolvimento, desde cedo, dos estudantes com entidades, equipamentos e conteúdos culturais.
Defendemos igualmente a existência de uma política de financiamento e de acção social do ensino superior, assim como de combate ao insucesso e abandono, mais concertada à escala europeia. Desejamos uma sociedade onde a condição inicial do indivíduo não seja a determinante do seu futuro, tornando necessário um esforço de inclusão dos estudantes em posição mais desfavorecida e de apoio aos países sob maiores constrangimentos orçamentais.
Sugerimos uma maior dedicação à área da cidadania europeia no ensino obrigatório, de carácter sobretudo informativo, especialmente nos casos em que o estudo de tais assuntos já esteja previsto nos currículos, como é o caso do nosso país. Reforça-se também a necessidade da sua maior flexibilidade, apostando numa formação mais geral e transversal e evitando situações em que se torna impossível ou impraticável corrigir escolhas feitas anteriormente. Desta forma, e no sentido de permitir o maior desenvolvimento possível de todos, de forma livre e independente, afirmamos a vontade de ver promovidas acções de debate e de discussão no ambiente escolar, baseadas no civismo e no respeito mútuo, como incentivo a atitudes participativas e de combate ao atavismo.
Finalmente, gostaríamos de salientar a importância das indústrias criativas e das iniciativas culturais, especialmente no momento da crise que atravessamos. O elevado volume de actividade comercial gerado por estas actividades, no contexto europeu, é indicativo do seu potencial de crescimento, pelo que defendemos o incentivo à sua expansão.

3. Sociedade e Economia

Vivemos actualmente numa crise económica, financeira, mas sobretudo numa crise de futuro. As consequências destas crises são sentidas de forma severa pelos jovens, que procuram aplicar à sociedade e à economia o seu saber e trabalho, que tentam fugir à precariedade e que procuram a felicidade. Nos países intervencionados há uma geração inteira que vê as iniciativas culturais e sociais desaparecerem, sentindo-se assim entre a espada do desinvestimento e a parede da estagnação e perdendo a confiança numa Europa que se vê incapaz como instrumento potenciador de soluções.
A chegada do Euro elevou a Europa a um novo patamar e as exigências aumentaram sem que muitos estados-membros percebessem as implicações. Um dos erros da construção económica europeia foi a criação do Euro como instrumento para uma maior integração política. Fazê-lo como um fim e não apenas um meio para alcançar uma progressiva unidade política e económica poderia ter evitado as consequências que hoje sofremos - uma economia débil, com desigualdades crescentes e uma desunião política preocupante. Ao colocar todo o ónus das origens desta crise sobre os elevados níveis de dívida e défice e na ausência de reformas estruturais, estamos necessariamente perante uma análise incompleta. A abertura da Europa a mercados externos como a China e as debilidades nos sistemas produtivos de vários países europeus, potenciadas por esse choque, devem ser factores a considerar nesta avaliação. As actuais políticas, ao privilegiarem uma análise simplista desta crise invalidam a eficácia das soluções encontradas.
No actual quadro, em que mais de um quinto dos trabalhadores são precários, o desemprego jovem atinge níveis historicamente elevados (com mais de quatro em cada dez jovens sem emprego) e o investimento em investigação se afasta dos objectivos europeus 2020 (3% do PIB), definimos como principal prioridade o combate à precariedade, ao desemprego e um novo impulso à investigação. Se assim não for, o actual ciclo vicioso em que as economias do sul se encontram não terá fim, com consequências extensíveis a todos os estados-membros. A procura de soluções conjuntas ao nível europeu parte da interligação de Estado e economia para a promoção do bem-estar social e o relançamento do crescimento económico. Tendo em conta o novo quadro de apoio comunitário, consideramos prioritária a promoção da inovação, educação e cultura e o desenvolvimento de sectores como as pescas, a agricultura e as energias renováveis, assegurando a independência energética. É também fundamental que a Comissão Europeia assuma um papel mais activo na prossecução do ideal fundador da União, promovendo o crescimento económico e o desenvolvimento social, através da definição de metas claras não apenas de longo mas também de curto prazo.
Postos os pontos anteriores, assumimos a nossa responsabilidade na apresentação de medidas para a resolução de problemas concretos que se apresentam no contexto europeu:

I

A eleição directa do Presidente do Conselho Europeu no sistema de sufrágio directo e universal, a criação de um órgão eleito directamente pelos cidadãos com igualdade de representação para todos os estados-membros, e que coordene com o Parlamento Europeu na iniciação e debate legislativo. Também sugerimos que os partidos europeus ou outros movimentos cívicos indiquem as suas escolhas para Presidente da Comissão Europeia e que apresentem programas comuns em todos os estados-membros e defendemos a capacidade de grupos de cidadãos (independentemente da sua nacionalidade) recorrerem ao Tribunal de Justiça Europeu por manifesto défice de protecção jurídica nos seus países de origem.

II

A criação de uma rede de Universidades da União Europeia, sedeadas nos países em que exista um maior défice de qualificações, com custos normalizados de acesso, baseando-se na mobilidade e no livre acesso à informação e às publicações dela resultantes. De igual modo, esta iniciativa pode estender-se ao nível pré-Universitário (à semelhança do programa Comenius) e aos centros de investigação, que contribuem quer para a formação pessoal como para a produção académica, facilitando assim a transferência de pessoas e de conhecimento e a consolidação do sistema universitário europeu.

III

Propomos a criação de um banco europeu de capitais públicos de microcrédito ou de fomento - vocacionado para empréstimos de apoio à criação de novos negócios. Esta medida permitiria promover a criação de emprego, a aplicação de muito capital humano na economia e a sua modernização. O papel meritório reconhecido a várias incubadoras nacionais permitiria adicionar a experiência que garanta o sucesso do investimento.
Também consideramos que na resolução dos problemas identificados é essencial a expansão das competências e responsabilidades do Banco Central Europeu como responsável pela emissão de dívida comum a todos os estados, bem como agente activo na eliminação de off-shores em solo europeu, mas igualmente à escala mundial em cooperação com os restantes bancos centrais.

Subscritores do manifesto

Diogo Capelo, Lisboa, estudante e bolseiro de investigação, 25 anos 
Tiago Batista Gil, Trancoso, arqueólogo
Stephanie Figueiras, Oeiras, estudante
David Filipe dos Santos, Viseu, mestre em Ciência Política
Rui Moreira, Lisboa, designer, 26 anos
David Crisóstomo, Charneca da Caparica, estudante, 21 anos
Francisco Themudo de Oliveira, Ourique, estudante de Ciência Política, 19 anos

Jorge Pinto, Bruxelas, engenheiro, 25 anos
Hugo Fernandes Lourenço, Lisboa, jornalista, 28 anos
Pedro Moura, Coimbra, estudante, 24 anos
Mariana Teixeira Santos, Porto, jornalista/produtora de conteúdos, 30 anos
Jorge Miguel Campos, Coimbra, estudante, 20 anos
Ana Carolina Coutinho da Silva, Coimbra, estudante, 20 anos
André Costa, Paço de Arcos, historiador, 34 anos
Bernardo Pereira, Oliveira de Frades, economista, 23 anos
Kelly Rodrigues, Leiria, estudante, 20 anos
Melissa Rodrigues, Leiria, estudante, 20 anos
Madalena Martins de Jesus, Coimbra, estudante, 23 anos
João Tibério, Lisboa, historiador, 30 anos
Tiago Patrício, Trás-os-Montes, escritor, 34 anos
João Gregório, Lisboa, 34 anos
Aires Gouveia, Lisboa, precário profissional, 30 anos
Adriana Couto, Braga, estudante, 22 anos
Marta Rosa, Lisboa, estudante, 21 anos
Rafael Esteves Martins, Queluz, mestrando, investigador bolseiro, 25 anos
Cláudio Carvalho, Maia
Alexandre Henriques, Oliveira do Hospital, estudante de Sociologia, 21 anos
Rita Costa, Lisboa, estudante, 21 anos
Joana Gonçalves de Sá, Lisboa
Natacha Melo, Águeda, estudante, 18 anos


(excelente iniciativa dinamizada pelo historiador e eurodeputado Rui Tavares no âmbito do encontro Youth in Crisis. um interessante exercício de democracia deliberativa no qual tive muito gosto em participar. ver mais aqui e aqui)  



2013-02-28

109.


 


 "Parabéns a todos por termos a doença mais bonita do mundo."