2008-12-24

Atitudes sociais dos Madeirenses perante o Ambiente


Hoje à noite irei para a minha ilha natal. Entre as naturais saudades de familiares e amigos, ou a natural ligação que todo o ilhéu tem à sua terra (ainda que muitos o neguem esta existe), há sempre uma dúvida - comum a muitos aqui neste espaço - que me assalta sempre que vou: que alterações físicas encontrarei no espaço quando chegar lá?

Esta pergunta não é em vão. Lembro-me de há poucos anos, sempre que regressava (e ao contrário de muitos só ia em alturas ditas "essenciais") encontrava sempre grandes alterações. Reduzindo a análise à minha zona, era sintomático a quantidade de prédios, casas e apartamentos construídos. O aparecimento de estruturas em tudo o que era espaço, inclusivé por cima de pequenos cursos de água...Esta explosão de betão, em conjunto com o assassinato (autêntico genocídio ambiental em algumas zonas) perpetuado em algumas zonas da costa madeirense (ajuda não ter POOC definido), sempre me pareceram erradas e excessivas, isto olhando ao frágil ecossistema existente.

Mas já se perguntaram sobre o porquê de tanta permissividade dos madeirenses para com tal situação. Lembro-me de um estudo que li há alguns meses, de um sociólogo madeirense André Freitas*, que na sua tese de licenciatura, abordou "Desenvolvimento e Mudança Paradigmática na Madeira - Atitudes Sociais sobre o Ambiente", depois publicado na revista Sociologia, Problemas e Práticas [editada pelo CIES-ISCTE, Celta Editora, n.º 54, pp.101-125 - clicar para baixar respectivo pdf] ajuda a explicar em parte o porquê de tanta apetência por cimento - ou a noção que desenvolvimento apenas se consegue com isso.

O estudo é um pouco longo e resumi-lo aqui de forma exaustiva e minuciosa, poria em causa o seu alcance [deixo à vossa consideração lê-lo dado que é interessante e ajuda a explicar e a confirmar certas premissas que são muito veiculadas, mas quase nunca são validadas]. No entanto deixo umas ideias e conclusões que me farão ir ao cerne de uma questão - a persistência neste modelo de desenvolvimento.
Refira-se que o investigador começa por expôr os três paradigmas de percepção ambiental existentes: Dominant Western Paradigm (DWW) - uma visão muito antropocêntrica, centrada no domínio do Homem sobre a natureza, na percepção de um mundo vasto com possibilidades ilimitadas, onde o Homem pode pôr e dispor, considerando este que a história da humanidade é uma história de progresso: para cada problema há uma solução e o progresso ultrapassará isso. Muito comum até inícios da década de 70. Acrescento que este paradigma acaba por estar muito associado ao mito do economicismo - percepção e redução do desenvolvimento à lógica meramente económica, muito em voga nesta altura.

O segundo paradigma existente é o Human Exemptionalism Paradigm (HEP). É mais uma vez um visão antropocêntrica, focando-se nas interacções entre os homens e as diferentes culturas, considerando o ambiente biofísico algo irrelevante para o contexto das interacções humanas, sendo que a acumulação de conhecimento técnico e social acaba por fazer ultrapassar os problemas e desigualdades existentes. Muitas vezes associado ao primeiro paradigma, acaba por vingar nas décadas de 70 e 80, como resposta ao aparecimento de um terceiro paradigma.

Este - New Ecological Paradigm (NEP) - assenta numa matriz completamente diferente dos outros dois. Têm uma visão já ecocêntrica do Homem ou seja, este tem de interagir com todo o meio envolvente. Há uma noção claras dos limites da natureza, havendo um cuidado por preservar a simbiose existente - a inventidade e criatividade podem ultrapassar certos aspectos, mas as consequências disso poderão ser bem nefastas. Decorrem daqui as noção de sustentabilidade (tão em voga em tudo o que é mensagem e discursos nos dias que correm), ganhando esta visão muitos adeptos a partir da década de 70, havendo um reconhecimento para a pertinência do problema e para as consequências advindas para a as gerações vindouras, no célebre relatório Brundtland "Our Common Future" - com a celébre definição de desenvolvimento sustentável - que preenche as nossas necessidades, salvaguardando as necessidades das gerações futuras (havendo depois muitas modificações consoante os objectivos de cada um - em 1994 a a cimeira de Davos citou uma noção de sustentabilidade muito própria, salvaguardando na básica as prácticas insustentáveis dos países presentes...)

Como já aqui disse, os ilhéus, devido às contigências naturais e limitadas em termos de espaço e grande exposição à força dos elementos, têm uma grande sensibilidade para as limitações da Natureza. Este estudo [baseado em entrevistas de um inquérito que versava várias áreas] vem comprovar isso mesmo, sendo esta preocupação transversal aos demais extractos sociais ou habilitações literárias dos inquiridos. Friso este último aspecto, porque é aqui que se revela a grande fractura na sociedade madeirense. Nota-se que a esmagadora maioria das pessoas inquiridas que não possuía habilitações escolares ou possuía apenas o nível básico ou de ciclo (até ao 9º ano), tinha uma visão muito utilitarista da Natureza, muito coincidente com o paradigma DPP (o primeiro que referi). Pelo contrário, quem possuía habilitações ao nível do secundário ou superior, possuía um grande pendor NEP - com uma visão muito preocupada com a acção humana sobre a natureza.

Curiosamente, ou tal vez não, tal fracção não era tão visível ao nível de extractos sociais, como uma primeira abordagem poderia supor.

Sabendo-se o baixo nível cultural e escolar da generalidade da população, assim como as graves deficiências existentes na Madeira a nível de sistema de ensino [ao que parece, somos das regiões do país com maiores taxas de reprovação e taxas de absentismo escolar] e a manutenção de um modelo económico (esgotado na minha opinião) centrado na construção [basta ver o ORAM 2009], é fácil descortinar o porquê de propostas algo surreais como a do Rabaçal ou a criação de não sei quantas praias de areia branca, poderem vir a colher no futuro algum entusiasmo por parte de certos sectores da população. Aliás, a aposta em cimento em detrimento de educação e inovação, acaba por criar um ciclo vicioso.

Já aqui escrevi que a generalidade das pessoas, olha a política com uma perspectiva de muito curto-prazo, de satisfação das suas necessidades pessoais. A cultura da fraternidade e a perspectiva e sentido cívico a longo prazo, são difíceis, quando não há as ferramentas nem o estímulo intelectual para se obter tal.

Parece-me a velha história das audiências televisivas. Face à degradação de conteúdos, os canais defendem-se que é isto que a maioria dos telespectadores quer. E caímos assim num ciclo vicioso, sem que haja a tentativa (que é trabalhosa e apenas recompensatória a médio-longo prazo) de elevação de conteúdos. A lógica imediata e insustentável é a que prevalece.

Transpondo para a temática em discussão, compreende-se assim o porquê da manutenção da política do betão. Esta é a mais segura e fiável para a manutenção e perpetuação no poder, para além de manter alimentados alguns interesses que sustentam todo este status quo. E pior é quando aliado a isto, a elite governativa aparenta ter uma visão muito utilitária e imediata sobre o uso do espaço. Só assim se explica certas declarações efectuadas.

A mudança radical de modelo de desenvolvimento - imperativa e necessária face a muitos atropelos que têm vindo a ser feitos - tem de se processar rapidamente, sob pena de virmos a pagar futuramente [bem mais perto do que se crê] uma elevada factura, seja ambiental, seja social, seja económica...

Foto: flirck

*e não é que vim a descobrir através da foto existente no CIES que o conheço...dos tempos de jogador [petiz] de bola no mítico JAC!

2 comentários:

Dário disse...

Parabéns, isto é claramente um post de um greensaver...hehehe

Nem sei porque tu (e eu e os outros) ainda te cansas... Isto é pregar no deserto... O Zé povinho madeirense (que é quem tem maior quantidade de votos) não alcança mais do que aquilo que o sistema lhes "vende"... O aqui e agora é que interessa e nem querem saber como é que é feito, nem das implicações futuras. Desde que haja obra que se veja (tradução - carradas e carradas de cimento sem discernimento) e comes e bebes nas inaugurações, é uma alegria, e viva o Alberto e abaixo o continente e não sei mais o quê...
Depois, há aqueles, que não fazendo parte do zé povinho nem do sistema, são os que suspiram por um lugar (vulgo tacho) no sistema e por isso exaltam e veneram publicamente (nomeadamente em blogues) Jardim e o pepedeia e vociferam contra quem se lhe opõe.
Este grupo caracteriza-se ainda por uma forte clubite partidária, a que costumo chamar "estupidite" partidária.
É óbvio que deste grupo nada de positivo se pode esperar e muito menos que evoluam as suas mentalidades.

Os restantes,aqueles madeirenses que poderiam ser a força motriz de uma mudança benéfica, são em número que considero quase residual, não tendo força para mudar o paradigma da situação. No entanto, não posso deixar de incentivar que continuem...

Quanto a esta problemática considero que há confusão pública na distinção de 2 conceitos de desenvolvimento sustentável (não incidem sobre o mesmo tema), proporcionada pelo palavreado que se utiliza: o Económico e o Ambiental.

O económico é a sustentabilidade do próprio modelo económico "per se", ou seja, livre de artificialismos de injecção ou engenharias financeiras e considerando os ciclos de endividamento (qual o impacto do serviço de dívida e amortização a curto e longo prazo? À atenção da Madeira...).

O ambiental é a sustentabilidade ecológica da acção humana, ou seja, interagirmos em harmonia com a biosfera, não pondo em risco a própria existência humana a longo prazo. Sustentabilidade ambiental é pois, a actividade económica sem grande impacto maléfico no ambiente.

Com isto quero dizer que pode haver desenvolvimento económico sustentável sem desenvolvimento sustentável ambiental e vice-versa (embora não seja aconselhável qualquer dos casos, óbviamente).
No entanto, sendo dois conceitos diferentes, nada impede que a sustentabilidade ambiental seja integrada na económica. Aliás, é baseado nesta premissa que a nova vaga ecológica (se assim se pode chamar) se apoia.
É aqui, nesta integração de sustentabilidades, que chegamos à designação pomposa e generalista, de Desenvolvimento Sustentável.

É interessante verificar que a Madeira pepedeia, não só não enveredou por uma política de desenvolvimento sustentável económico (está terrivelmente longe disso...quando chegarem ao tempo de pagamento do serviço da dívida vai ser o bom e bonito...), como está cada vez mais a afastar-se dos pressupostos de defesa ambiental ou até de simples bom gosto no impacto visual,como me relatam. A este propósito, o impacto no ambiente, uma achega: não basta ter um bom sistema de reciclagem e tratamento para se poderem considerar vanguardistas do ambiente, como apregoam... Tudo o resto contraria esse auto-intitulado vanguardismo. Pelos vistos, muitos teleféricos do Rabaçal se fazem por lá...

Valha-nos deus, tanta cegueira...

Deixo aqui a minha frase preferida, proferida por um chefe índio, para reflexão:
"...e quando os rios tiverem secado, as florestas destruídas e o último bisonte caçado, o homem branco descobrirá que o dinheiro não pode ser comido..."

Luis Miguel disse...

Excelente "post". E ao contrário do que se possa pensar, há cada vez mais gente insatisfeita com o "status quo".

É uma questão de continuar a apertar os botões certos... ;)