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2011-02-21

Doin' Time



Brian Jones, Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Jim Morrison ou Kurt Cobain.

Todos membros do afamado clube dos 27. Aquele selecto clube de grandes vultos musicais que viram a sua criatividade interrompida, aos 27 anos, em mortes que tanto tiveram de trágicas como ocorreram na sua maioria em estranhas circunstâncias. Para além de terem sucumbido no auge da sua produção criativa - quase não tendo espaço ou tempo para errar (ou na gíria popular "tendo tido tempo para fazer merda"), as condições em que ocorreram as suas mortes, conferem a todos estes artistas, uma aura quase mitificadora, elevando-os ao estatuto de ícones. Ícones de gerações diferentes. Ícones que com a morte, atingiram um patamar inatacável, apagando-se ou diminuindo-se ao mínimo, qualquer falha ou crítica que se lhes pudesse apontar.

Há quem prossiga toda uma vida em busca de glória e fama. Há quem simplesmente, quem com a melhor das intenções, queira deixar uma marca. E há quem simplesmente esteja alheado de tudo isto, prosseguindo a sua habitual vida casa-trabalho-casa (quando o há), copos ao fim de semana (por vezes durante a semana), como se nada disto interessasse. Bola, reality tv e séries para alhear o pessoal.

A um dia dos 28, com os 30 ali mesmo ao virar da esquina, não deixo de pensar nisso. Não porque queira fama e glória, mas porque entendo que cabe a cada um gizar o seu próprio destino. Assim como avaliar se a sua acção tem sido compatível até agora, com o potencial/propósitos que sabe que pode atingir. E cabe a si, meramente a si, dar o impulso/contributo que ache necessário. Para atingir a sua felicidade, num instinto que em última análise será sempre egoísta, mas que o fará contribuir para o bem comum. O bem geral. Porque o ciclo virtuoso (não confundir com vicioso) de uma sociedade apenas é possível tendo em conta esta última vertente.

Sim, sou um idealista, que tem cada vez mais levado com choques de realismo (à quem lhe chame realidade) como se descargas, de um qualquer aparelho de fibrilação fossem. E não quero ser o tipo do bar. Aquele que anos depois se gaba de quase ter feito algo. Mas não fez, por uma qualquer razão que irá hiperbolizar, para desculpabilizar em definitivo (chamo-lhe camuflar), uma falta de acção que deveria ter partido de si. Também nunca gostei de rotinas. Mas a verdade é que é tão fácil cair nas mesmas. Aliás, cada vez mais me convenço que as rotinas são necessárias. Em última instância, meramente por uma questão de sanidade mental. Provavelmente a acompanhar este texto, teria que aqui estar uma música de National ou de alguma outra (muito boa) banda semelhante que falasse da angústia de uma classe média e de uma geração que cresceu cheia de expectativas, mas que neste momento se encontra apertada. Ponto parágrafo neste breve apontamento.

Retornando ao texto, durante muito tempo, pensei que Bradley Nowell, vocalista de Sublime, tinha morrido aos 27 anos de overdose de heroína. Engano meu. Morreu aos 28. Não que fosse um autor muito versado, não que Sublime seja uma banda que musicalmente seja excepcional, mas o seu contributo, a sua influência em tantas outras bandas, o seu estatuto quase icónico entre as comunidades skater e surfer entre outras (assim como a minha estima pessoal pela mesma e inexistência de referências à banda neste excelente blog), motivaram a que levassem a redigir umas breves linhas (que já não são assim tão breves quanto isso) acerca da mesma.

Sublime, para quem não conhece, é uma das bandas, que a par de Green Day (Dookie - o primeiro CD que comprei com as minhas poupanças aos 12 anos) ou Offspring (recordo com especial carinho o álbum Smash), mais contribuiu para o reavivar do punk, em termos mainstream, durante a década de 90, nos EUA. Oriundos da Califórnia do Sul, acompanhando uma explosão de bandas oriundas desse mesmo estado, ao que se convencionou chamar punk californiano, numa terceira grande onda de bandas deste género, muito ligadas à comunidade skater e surfer (em contraponto à toada mais musculada ocorrida em NY por esta altura, muito mais ligada à corrente hardcore), entre as quais destacamos NOFX, Pennywise, Lagwagon, Mad Caddies entre muitas outras.

Para além de nítidas influências do punk de bandas anteriores como Bad Religion, Black Flag ou mesmo Ramones, houve uma fusão de estilos com sonoridades Ska, Dub e Reggae e é neste contexto que bandas como No Doubt (cuja vocalista Gwen Stefani - para muitos a rainha do Ska - nasceu na mesma cidade e andou no mesmo liceu de Bradley, sendo amiga do mesmo) ou Sublime aparecem, misturando todas estas sonoridades, numa toada mais alegre e muito peace and love, drug-friendly em muitos dos casos, tornando extremamente apelativa para toda uma geração, em especial após o desaparecimento de Kurt Cobain e ao refrear de toda a onda grunge que se seguiu.

Bradley, que curiosamente nasceu a 22 de Fevereiro - igualmente meu dia de anos - junta-se aos outros dois elementos de Sublime - Bud Gaugh e Eric Wilson - e fortemente influenciado por música jamaicana, introduz elementos ska e reggae ao repertório do duo, que até aí ouvia e tocava exclusivamente punk. Após um rápido sucesso inicial local - fruto de uma fama granjeada por concertos cheios de peripécias, a banda opta por criar uma pequena editora de raiz, a Skunk Records, lançando o 40 oz. to Freedom (para mim, um dos melhores álbuns da banda a par do homónimo e já póstumo Sublime), conseguindo apenas alguma rotação e notoriedade, quando uma rádio de LA, pega num dos hinos do álbum "Date Rape" e começa a passar o single várias vezes.

Nessa altura, e como ocorreu a muitos artistas no início da década de 90, já Bradley tinha iniciado a sua relação com heroína, algo que segundo o pai se devem à necessidade de obter um escape criativo. Aliás, numa banda abertamente drug friendly, esta dependência e toda a parafernália relacionada com o tema, deram origem a muitas músicas que rapidamente se tornaram hinos como Smoke Two Joints, Pawn Shop, Garden Groove. Em maio de 1996, e a meio de uma tournée (sempre as tournées) que realizavam pela Califórnia, Bradley é encontrado morto num quarto de hotel com uma overdose de heroína.

Isto tudo ocorre, semanas depois da banda ter acabado as gravações do seu primeiro álbum já numa editora de renome, álbum que ficará com o nome da banda e que venderá 17 milhões de cópias.

O terceiro single é este Doin' Time, um tema que podemos classificar de lounge/dub, que fala da impossibilidade de mudança de vida de um homem, entre outros aspectos, usando como pano de fundo, o tema Summertime de George Gershwin da ópera "Porgy and Bess". Pretendo assim, com este (longo) texto, efectuar uma segunda homenagem. Nascido no final de séc XIX, Gershwin é simplesmente um dos mais profícuos autores/compositores musical de peças, operetas, árias, musicais etc. A sua obra é vasta e foi/tem sido vastamente usada em músicas de jazz, no teatro, em tv, e por uma multiplicidade de diferentes bandas musicais, entre as quais Sublime.

Uma banda que face à sua heterogeneidade e amplitude musical (esta música é exemplo), que face a um som que se pode classificar de alegre, marcou toda uma geração e à qual deixo aqui a minha homenagem, numa altura em que sei que irei ser um gajo mais ou menos. Resta-me apontar aos 33 anos. Creio que até lá terei tempo para preparar a fundação de uma religião ;-)


Aires Gouveia


[texto produzido, no passado dia 21-02, para a rubrica "Guest Box" no (excelente) blog musical xukebox.blogspot.com. Publicado a 26-02, nesse mesmo espaço. Obrigada Mariana pelo trabalho desenvolvido com o dito blog]



2010-09-21

O Síndrome de Estocolmo II



(continuação)


Tony Judt, eminente historiador recentemente falecido em Agosto passado, no seu último livro "Ill Fares the Land" [a ser editado em português pela Editora 70 no último trimestre do ano - em inglês já disponível no país] tentava alertar precisamente para esta questão, sugerindo uma defesa radical da social-democracia e do estado previdência por parte das novas gerações. Para o mesmo, ideias de pertença em comunidade e a existência de mecanismos de solidariedade, sustentáculo baluarte do modelo social europeu e indutores de maior igualdade em termos societais, tinham sido progressivamente destituídos por uma crescente individualização que acabou por gerar uma maior desigualdade, redundando numa maior sensação de insegurança e medo. Com isso, quebrou-se um ciclo virtuoso que o mundo ocidental viveu até meados da década de 70.

Obviamente, Judt defende um modelo mais igualitário, sem que no entanto belisque a liberdade individual [apoiando-se largamente em muitos estudos efectuados em países da OCDE sobre igualdade do livro "The Spirit Level - Why Equality is Better for Everyone" de Richard Wilkinson e Kate Pickett]. Mas a ideia de Estado enquanto actor central da vida colectiva, intervencionista, mas nada totalitário, à semelhança do New Deal ou do sistema alemão, é algo que o autor assume como necessário. Para o mesmo, em contextos de maior depressão económica, o Estado pode constituir a última membrana de protecção para o indivíduo.


Daí a necessidade de identificar as causas que levaram a esta erosão. Daí a necessidade de recuperar argumentos que rebatam uma visão estritamente economicista da sociedade. Daí a necessidade de recuperar um certo argumentário que se julgava perdido para contrapor ao discurso imperante nos últimos anos. Judt e a sua geração, acabam por ter sido os grande beneficiários de todos estes ganhos, sendo igualmente legítimo referir que muito provavelmente a minha geração, será a primeira que viverá tendencialmente pior que os seus pais.


Hoje em dia, todos estes conceitos têm sido postos em causa. A forte desregulação de mercados e a crescente erosão do poder dos Estados face a outras entidades económicas, é deveras real e em parte explica toda esta situação.



Face à falência dos sistemas de previdência, olhando às condições e premissas sobre os quais foram criados, urge incentivar uma rápida reflexão sobre o caminho a seguir, procurando preservar as boas valências do mesmo. Ainda que os sistemas sejam diferentes de país para país - devido a contextos histórico sócio-culturais, o debate acaba por ser o mesmo seja na Suécia, seja em França onde as greves ocorrem - com reivindicações que muito provavelmente não farão sentido- seja no nosso país, onde em minha opinião um projecto de revisão constitucional desvirtua o princípio de igualdade e livres condições de acesso a bens para a devida realização pessoal, que o Estado deveria facultar. É verdade que o nosso estado previdência não é perfeito, não está isento de falhas, nem é de longe sustentável. Mas foram inegáveis as suas conquistas. Assim como faz todo o sentido, num dos países mais desiguais da Europa Ocidental, repensar o mesmo.

Ainda que tendencialmente torça o nariz às propostas apresentadas - que supostamente não "acabarão" com o Estado Previdência, mas na prática todos já estão a ver que levarão a um consequente sub-investimento no sector público, em prol do sector privado, e aqui é uma questão ética: aos privados, por muito boa vontade que possuam, movem-se por uma questão de lucro; ao Estado deve mover a prossecução e defesa do interesse público e dos seus cidadãos - saúdo ainda assim o levantar da questão. Isto porque obriga que o outro lado possa recuperar o seu argumentário. E obriga a um repensar de um modelo que é neste momento manifestamente insustentável nestes moldes.



[publicado em simultâneo no blogprojecto10]


O Síndrome de Estocolmo I


foto: Márcio Barcelos (aka bob)


O Síndrome de Estocolmo é o nome dado a um estado psicológico particular desenvolvido por pessoas que são vítimas de raptos, manifestando-se normalmente por uma simpatia ou tentativas da vítima em se identificar com o raptor.

Tendo estado no poder na Suécia em 65 anos, nos últimos 78 anos, os sociais democratas sofreram uma segunda derrota consecutiva pela primeira vez desde a década de 30. Tido frequentemente pela esquerda como o país modelo do Estado Providência, a derrota da coligação que integrava os sociais-democratas, tidos como os guardiãs deste modelo, suscitou várias reacções e interrogações dos mais variados quadrantes, havendo quem já indique que este é meramente um indício do fim de uma era, vislumbrando alguns o fim do chamado Modelo Social Europeu.

Baseando o modelo numa elevada carga fiscal, sustentando um sistema proactivo com serviços públicos de excelência que acompanham o cidadão durante toda a sua vida [o chamado "from cradle to grave"], este país, através da acção em espacial do antigo primeiro ministro Olaf Palme, combinou este sistema com uma economia de mercado bem liberalizada.

Poderia efectuar uma contextualização histórica mais extensa, afinal de contas, todo este processo foi gradual e a própria criação e maturação do modelo assentou na adopção precoce de medidas de previdência, algo aceite por ambos os lados do espectro político, assim como a existência de uma estreita relação entre uma forte sindicalização da população e a adopção de vias dialogantes com o poder vigente, redundando num modelo societal com altos níveis de solidariedade e senso de comunidade, mas importa reter que neste momento a Suécia é o país do mundo com a maior taxa de população que é possuidora de acções - cerca de 25%. Mais, se adicionarmos a propriedade de algum fundo de investimento ou de pensões, esta taxa dispara para os 80% da população.

Daí que o título deste texto - que retirei do editorial desta segunda feira no Guardian - faça todo o sentido. Num modelo altamente protector, mas dispendioso, e com uma economia de mercado altamente liberalizada, a população sueca, que pelos padrões acima pode-se considerar abastada, acabou por ficar com pulsões mais individualistas e Torbjörn Nilsson, jornalista do semanário sueco Fokus, num artigo antes das eleições, prevendo uma vitória do bloco de centro-direita, questiona-se se "será que o conceito de ética no trabalho [tão afecto ao modelo anglo-saxónico] se sobrepôs ao da igualdade solidária?".

Esta poderia ser uma leitura algo simplista - afinal de contas há mais factores que ajudam a explicar a derrota dos sociais-democratas suecos, entre os quais um primeiro mandato do bloco de centro-direita que pouco ou nada mudou o modelo social vigente, quer a capitalização do descontentamento de franjas da população face ao desemprego crescente, num país onde 14% da população é imigrante, explicando assim a rápida subida da extrema-direita dos Democratas da Suécia - mas levanta-nos uma série de questões, que remetem-nos em alturas de crise, para o questionar da própria sustentabilidade económica de sistemas solidários de previdência como os europeus - que entre si já são algo díspares, isto numa altura em que as condições demográficas e económicas que os proporcionaram se alteraram radicalmente. Que reformulações e adaptações possíveis sem que se perca este vínculo comunitário?


(continua)


[publicado em simultâneo no blogprojecto10]



2010-05-04

Hoje adicionei um cão na minha rede de amigos no Facebook*


"É engraçado ver como o uso das palavras se vai transformando. A amizade tem-se no imaginário cultural como uma coisa que se adquire, que se trabalha. No Facebook carrega-se num botão e é-se amigo de alguém. As palavras vão ganhando contextos e contornos diferentes" João Cardoso in publico.pt


Definitivamente com a proximidade fornecida pelas redes sociais e a web 2.0, há que repensar certos conceitos. Entre os quais o de amizade, em especial o de amigo. Conheço pessoas que adicionam tudo e mais alguma coisa. Outras que não. Outras que utilizam as redes como meio de maior aquisição do dito capital social. Outras que simplesmente usam as redes como mero escape recreacional. O que acaba por ser comum nestes exemplos é verificar a diversidade significados que se atribui à palavra amizade ou ao acto de se tornar amigo numa rede social na internet.

Será que esta mutação não é assim tão linear e este post pode aparentar ser algo alarmista - dirão que as pessoas conseguiram sempre discernir entre as ditas amizades reais e as virtuais, ou não fará de todo sentido pensar que com a evolução tecnológica, certos conceitos tidos como plenamente aceites, não possam vir a ser postos em causa?

É que até já existe o termo "desamigar".


*E ainda tenho convites do Torneio de PES de Santarém (sic), de estalagens rurais, farmácias e lojas de flores da minha esquina.

2010-04-16

Sabedoria de Noé.

imagem daqui



Com tanto cataclismo, já começo a pensar em construir uma Arca.




2010-04-14

Transitoriedade Perpétua

"(...)Um operador de Call Center não luta porque não quer. O emprego é visto como passageiro, uma fase triste da vida profissional que rapidamente passará. Um outro emprego na sua área irá surgir a qualquer altura e, por isso, o facto de o contrato ser de um mês ou de seis até dá força à ideia que o tédio é apenas uma curta fase passageira. Uma boa ilustração deste quadro é a felicitação unânime e efusiva dos colegas quando alguém sai, mesmo que não se saiba para onde: para pior não será, com certeza. Assim, mesmo nas mentes mais combativas, associar-se a um sindicato está fora de questão, na medida em que esse seria o passo determinante para aceitar que este é o seu «ofício». Ninguém quer adoptar essa condição e, por isso, qualquer elo de ligação é sistematicamente combatido. Todos rejeitam a identidade de «call-centristas »: ninguém estudou para isso, é socialmente visto como um dos mais desqualificados empregos dos tempos modernos e portanto humilhante.(...)" in Le Monde Diplomatique - edição portuguesa


Nas linhas de produção do séc. XXI, um estado de transitoriedade perpétua é cultivado e inculcado - os empregos são sempre vendidos como temporários, priva-se toda uma geração de explanar as suas qualificações, desconhecendo-se os efeitos futuros de toda esta situação e de toda esta insegurança vivida. Numa das sociedades mais desiguais da Europa, e tendo o 1º de Maio à porta, vale a pena ler o dossier precariedade do Le Monde Diplomatique.

2010-04-12

Os partidos enquanto espaços de discussão.


quadro via Ultraperiferias



"(...)Um partido que é dialogante, aberto à pluralidade de opiniões, e à sociedade civil, defensor da moderação e da convivência pacífica entre homens de credos e raças diferentes, herdeiro da tradição universalista portuguesa que é estruturalmente avessa a qualquer tipo de xenofobia(...)" in sítio do PSD

Irónico que numas eleições directas quatripartidas, na Madeira em 11 concelhias, Rangel (escolha do Líder Supremo) tenha obtido o pleno em 8 concelhias (!?!). Bem ao estilo disto. É a pluralidade dos partidos políticos no seu melhor.

2010-04-10

Quiz XXXVIII


Não será um paradoxo haver uma cada vez maior desigualdade numa sociedade com cada vez maior acesso à informação?


2010-04-09

A descoloração revolucionária


imagem galeria Zé Dos Bois@Bairro Alto, Lisboa


Depois da falência e cisão entre os principais intervenientes da revolução laranja na Ucrânia, dos tiques nada democráticos mostrados pelos vencedores da revolução rosa na Geórgia, uma súbita anomia e anarquia acontece no Quirguistão* depondo a elite instituída pela revolução túlipa em 2005.

Recorde-se que todas estas revoluções foram assim designadas, numa óptica de não violência, como movimentos que espalhariam e trariam liberdade, democratização e efectiva luta contra a corrupção e nepotismos existentes, na senda do acontecido em 1989 com a revolução de veludo, na antiga Checoslováquia.

Ainda que fosse fácil prever este desfecho, olhando ao contexto vizinho onde o país se insere, com a deposição da elite estabelecida pela anterior revolução - devido aos mesmos motivos - pode-se questionar se não houve uma súbita descoloração democrática que afligiu a zona. Mas fará sentido pensarmos em democracia nos moldes ocidentais, quando os valores histórico-culturais do país e na zona tendencialmente os negam? Será a democracia liberal - ou seja que pressupõe um respeito mínimo pelas minorias e oposições - um valor essencialmente ocidental ou fará sentido considerá-lo um valor universal como muitas vezes assim o é retratado? Fará e trará o intrincado mosaico geopolítico alguma estabilidade à zona?


* Curiosamente o nome Quirguistão significa 40 tribos (na sua bandeira o sol representado tem 40 raios), unificadas por Manas na luta contra os calmucos, cuja história é contada no épico de Manas, o poema tradicional quirguize que data do séc. XV e tem mais de 500.000 versos. Dadas as inúmeras facções e grupos étnicos existentes no país - embora a influência turca seja imensa - acaba por ser um interessante paralelismo face à actual situação vivida.

2010-03-31




"Even pirates, before they attack another ship, hoist a black flag"



image by Portugal Street Art

2010-03-15

a ironia e a lógica eucaliptal



imagem: Banksy


Defina ironia: Um partido que insiste na tese da "asfixia democrática" e da "falta de liberdade de expressão" no país, mas que não se coíbe de aprovar sanções graves a militantes como a expulsão a militantes que integrem listas concorrentes ao partido ou a figuras por ele apoiadas, assim como sanciona igualmente críticas internas ditas nos 60 dias anteriores a eleições.

Por muito que seja necessária coesão e por muito que uma organização partidária obedeça a vínculos norteados pela lealdade (embora este PSD seja um partido deveras "sui generis", estando muito fraccionado e admitindo no seu seio uma vasta amplitude de convicções ideológicas, que estão ligadas entre si por ténues ligações), o papel dos partidos e organizações políticas, enquanto sustentáculo do regime democrático português, ficam gravemente feridos, com esta imposição de uma autêntica lei da rolha que impede a concretização do objectivo máximo que deveria nortear uma organização desta natureza: ser um espaço de debate e discussão.

Receio que, com a institucionalização de práticas deste género - que informalmente sempre existiram - se dê cada vez mais força ao descrédito já existente por parte da sociedade nestas organizações, fechando estas à generalidade da sociedade, numa autêntica lógica eucaliptal.

Em situações extremas, poderia significar o rejeitar de uma lógica ou matriz democrática - com todas as imperfeições que tem, é na verdade o menos imperfeito dos sistemas - assim como legitimar por parte da sociedade, de soluções mais musculadas que facilmente poderia redundar numa consequente limitação efectiva de liberdade. "History repeats itself". Faz-vos lembrar algo?



2010-03-13

Growing older



imagem: via Pensar Custa


Mais uma data passou. Já vai sendo tempo de deixar para trás o lugar na cómoda plateia, assumindo e domando o desconhecido palco.



2010-02-21

A Impotência



Os ilhéus e em especial os madeirenses estão familiarizados com os aluviões que ciclicamente assolam a ilha. Esta total sensação de desprotecção face à força dos elementos, imiscui-se e é digamos parte intrínseca, para o bem e para o mal, contribuindo na construção da espécie de sentimento a que chamamos o ser ilhéu ou neste caso específico, o ser madeirense.
E com isso, podia discorrer e apontar como uma das razões para o elevado conservadorismo da sociedade ou para o peso que instituições como a Igreja Católica, têm na sociedade madeirense. Mas o objectivo deste meu texto não é esse.

É meramente expressar, num texto que assumo ser pessoal, o sentimento vivido à distância, durante todo o dia de hoje. Impotência. Dura e pura. O tentar contactar os entes queridos e não conseguir. O olhar para notícias cada vez mais alarmantes e imaginar o pior. O imaginar possíveis percursos trilhados por quem nos é querido e esperar que o pior não tivesse acontecido. O imaginar que palavras poderiam nunca vir a ser ditas, palavras que sempre deixamos para uma outra ocasião. O passar de um aparente distanciamento perpétuo, que acaba por acontecer quer se queira quer não, para uma urgente necessidade de querer estar lá e ser parte envolvida.

Há um mês, escrevi aqui sobre o desastre ocorrido no Haiti, mas sendo madeirense (ainda que expatriado no rectângulo) como muitos que aqui escrevem e sentindo-me parte envolvida pelo facto de ter a minha família e muitos amigos na ilha, cometo o sacrilégio de confessar que de repente o Inferno dantesco haitiano parece-me algo menor face ao cataclismo diluviano de características bíblicas que ocorreu hoje na minha terra natal. É tudo uma questão de perspectiva e de proximidade, digo eu com o meu agnosticismo pontuado com uma educação numa sociedade profundamente católica, que em alturas de maior irracionalidade aparenta "sobremergir".

Sobre o desastre, mais que encontrar culpas - que as há entre a Natureza e a acção humana - importa acima de tudo minorar os destroços causados e procurar dar conforto e ajuda a quem mais necessita. O rescaldo e o apuramento de responsabilidades é uma necessidade, mas ainda não é tempo para tal, quando necessidades básicas ainda não estão supridas e o sofrimento é recente. O aproveitamento político do caso - seja a favor ou contra como ouvi e li, mais que despropositado, enoja-me e ultrapassa os limites da ética que deveria existir na "res pública". Por uma questão de respeito. Mas as consequências deverão ser apuradas. Porque nada justifica tão elevado preço a pagar. E para que a impotência face à força dos elementos, ainda que impossível de vir a ser domada, não tenha as trágicas consequências que são hoje notícia.

2009-12-18

As linhas de produção do XXI



(...)Segundo Zeinal Bava [CEO da PT], o novo "contact center" será uma boa opção de emprego para jovens licenciados de diversas áreas que pretendam tomar um primeiro contacto com o mercado de trabalho(...)"

in DN-Madeira 01-07-09


"Todas as empresas querem uma reserva fluída de trabalhadores a tempo parcial, temporários e independentes para as ajudarem a manter as despesas baixas e a acompanharem as reviravoltas de mercado (...) os habilidosos patrões das grandes marcas tornaram-se especialistas na arte de evitarem os compromissos para com os empregados, promovendo com mestria a ideia de que os empregados, de certa forma, não são verdadeiros trabalhadores e assim não precisam nem merecem segurança social, salários dignos e outros benefícios. A maioria dos grandes empregadores do sector dos serviços gere a sua força de trabalho como se os empregados não dependessem dos seus cheques de vencimento para coisas essenciais, como a renda ou a alimentação dos filhos. Em vez disso, os patrões do comércio e dos serviços tendem a encarar os seus empregados como crianças: estudantes que procuram um emprego de verão, dinheiro para gastar ou uma breve paragem numa carreira mais satisfatória e rentável(...).

(...)insistindo que continuam a oferecer empregos-passatempo para miúdos. Esquecem que o sector dos serviços está cheio de trabalhadores com múltiplos diplomas universitários, imigrantes que não conseguem encontrar emprego nas fábricas, enfermeiras e professores e gestores de nível médio despedidos (...) Toda a gente sabe que um emprego no sector dos serviços é um passatempo e que o comércio é um sítio onde as pessoas procuram "experiência", não uma forma de ganhar a vida (...) Em nenhum sítio esta mensagem foi tão bem interiorizada como na caixa registradora e no balcão de vendas [nota do autor do post: acrescentaria numa PA de um qualquer contact-center...], onde muitos trabalhadores dizem que se sentem como se estivessem de passagem, mesmo depois de se arrastarem durante uma década no sector do McTrabalho.

(...)[trabalhador da Borders Books and Music em Manhattan]"Ficamos presos nesta dicotomia de "É suposto eu viver melhor, mas não posso porque não encontro outro emprego". por isso dizemos a nós mesmos, "Só estou aqui temporariamente, porque vou encontrar uma coisa melhor". Este estado interiorizado de transitoriedade perpétua tem sido vantajoso para os patrões do sector dos serviços, que tiveram a liberdade de deixarem os salários estagnar e dar pouco espaço às oportunidades de progressão, uma vez que não há a necessidade urgente de melhorar as condições de empregos que, toda a gente concorda, são apenas temporários."


Naomi Klein (2000) "No Logo" p.257 a 259 (excertos)



2009-10-14

Rapariga do Brinco Precário




Estima-se em cerca de 900.000 trabalhadores ou seja mais ou menos cerca de 1/5 da força de trabalho activa em Portugal, os possuidores dos muitas vezes terríveis quadrados verdes - os chamados "falsos recibos verdes".

Pese criados a pensar nos chamados trabalhadores independentes que por vias das suas funções não necessitavam de um vínculo permanente a uma dada empresa, no entanto o uso abusivo dos mesmos veio a gerar situações que efectivamente me obrigam a usar o adjectivo pejorativo que usei no primeiro parágrafo.

Tal como muitos sabem [e sentem] aqui neste blog, olhando à difícil situação vivida, num contexto em que o desemprego grassa, convém ter em atenção o alastramento deste fenómeno que tem contribuído e muito para a progressiva precariedade do mercado de trabalho.

Se é verdade que temos uma das legislações laborais mais rígidas da Europa - se bem que avaliadas segundo cânones bem liberais, também é bem verdade que subterfúgios como a existência dos recibos verdes ou a expansão extemporânea de Empresas de Trabalho Temporário (ETT), têm permitido um efectivo controle da taxa de desemprego, tudo à custa do futuro de uma geração [os mais afectados] que assim se vê envolvida numa espécie de volatilidade sem fim, que difere muito da segurança sentida pelos seus pais.

Que danos provocarão o alastramento desta situação? Será que toda esta instabilidade será benéfica para quem agora começa a construir uma vida? Que tipos de danos a nível económico, social e mesmo a nível de plasticidade mental - há imensas correntes que defendem que as vivências e experiências vividas até meados dos 20/30, determinam os valores e princípios defendidos por cada um - decorrerão do efectivo prolongamento e aprofundamento desta precariedade? Não contribuirá esta espécie de "No Man's Land" para o agravar das já de si fortes disparidades sentidas pelo país? Não produzirá toda esta insegurança, um aprofundamento ou aparecimento no futuro de discursos mais radicalizados? Que consequências a nível demográfico [aliás já sentidas] ocorrerão?

Bastará a lógica dos estágios remunerados? Poderemos confiar numa suposta ética social das empresas, quando a maioria do tecido empresarial do país é constituído por PME's tendo imensas dificuldades de tesouraria e possuíndo os empresários na sua generalidade um baixo nível de qualificações? Poderemos confiar num Estado que pese almeje ser universalista - ainda que não tenha meios para tal - incorre nas mesmas práticas? Como alterar toda esta espiral aparentemente descendente, quando os dados à partida já estão desvirtuados, repercutindo-se tais noções para gerações vindouras?

[sobre o tema, debate no próxima sexta na casa do Brasil, a propósito do lançamento do livro "2 anos a FERVEr" - mais info aqui]


2009-07-02

Uma questão de distribuição

E se eliminássemos o conjunto de países que constituem apenas 5% do PIB mundial?

Apenas "excluiríamos" 81 países com cerca de 2,9 mil milhões de pessoas ou pondo isto noutros termos, cerca de 43% da população mundial...no entanto, representam apenas 5% do PIB mundial.

Dá que pensar!

via StrangeMaps

2009-06-24

Jovens e a Política II


Nesta segunda parte [ver aqui 1ªparte "Jovens e a Política" - ou em alternativa, ver 2 entradas abaixo], focarei-me essencialmente na resposta às questões lançadas, assim como analisarei a questão das juventudes partidárias.

Creio ser interessante ter em conta um estudo "Os Jovens e a Política" [do Centro de Sondagens e Estudos de Opinião da Universidade Católica Portuguesa, da autoria de Pedro Magalhães e Jesus Sanz Moral], lançado em Janeiro 2008, onde caracteriza em traços gerais a atitude da juventude em relação a formas de participação política por vias convencionais e não convencionais. Em traços gerais, há que separar a juventude até aos 18 anos e os jovens adultos dos 18 anos até aos 29 anos.

O primeiro grupo caracteriza-se por uma baixíssima taxa de interesse seja por vias convencionais de participação política (partidos, comícios, etc), seja por não convencionais (petições, manifestações ilegais, etc.), embora fosse previsível que este último grupo colhe mais adesão que o primeiro. No contexto europeu e fruto da nossa mentalidade e posição mais reactiva e expectante [a baixa auto-estima nacional em muito contribui para isto], estamos nesta faixa etária nas últimas posições, quando comparados a nível europeu. Curiosamente, o grupo dos jovens adultos, pese a baixa participação,já apresenta taxas bem mais elevadas [e medianas a nível europeu], bem parecidas com o escalão etário seguinte, destacando-se no entanto a apetência para formas de participação não convencional em detrimento das formas de participação convencional.

Estes dados, e tomando em linha de conta que a consolidação democrática foi alicerçada sob o formalismo e estrutura dos partidos, permitem um leitura no sentido que estas estruturas por vezes fechadas, necessitam de adoptar novas estratégias e tipos de abertura, para poder englobar estas franjas etárias de população. Obviamente, há participação fora do contexto partidário, mas é notória a primazia que este tem sobre os demais (e nóveis na minha opinião) movimentos cívicos ou formas organizadas de intervenção cívica que existam ou venham a se formar.
Tomando em linha de conta, esta primazia partidária, convém analisar a posição e estatuto das chamdas juventudes partidárias. Antes de mais, tenho de fazer uma declaração de interesses: tal como Vicente Jorge Silva, tenho uma imagem nada idealista das jotas. Reconheço a sua função como formadora de quadros e admiro a capacidade de compromisso que assumem numa idade onde essa característica por vezes escasseia.

Mas a verdade é que noto muito vezes apenas a reprodução de muitos dos malefícios que os partidos possuem: viveiros de carreirismo, que servem muitas vezes como interlocutores das casas-mãe para fazer ou dizer [ou atacar] aquilo que o partido eticamente não pode efectuar. Servem muitas vezes para dar aquele toque de irreverência às campanhas eleitorais [os gritos "futeboleiros" da JSD no discurso de Manuela Ferreira Leite roçaram o risível]. Para além de, por vezes silenciarem a capacidade de expressão individual dos militantes, sob o signo do unamismo e do discurso único, transformando os mesmos em autênticas cassetes.

Obviamente e dado que desconheço o funcionamento interno destas organizações [existem jotinhas aqui no blog que poderiam responder a isso melhor que eu - assim como participantes a quem peço que deixem a sua opinião, até para estimular debate e troca de opiniões], dou o benefício da dúvida sobre se estas organizações serão as ideais, como espaços de participação e inclusão dos jovens em termos cívicos.

Mas a verdade é que, olhando aos resultados do estudo assim como às sucessivas altas taxas de abstenção nesta faixa etária, a generalidade dos jovens não se revê neste sistema formal partidário. Aliás, as causas defendidas pelos mesmos estão em mutação, dado que os interesses são invarialmente outros. Estas últimas europeias, tiveram o condão de mostrar que um partido sueco cuja única causa é a abolição dos direitos de propriedade, o Partido Pirata, conseguiu eleger um eurodeputado. Aliás, já há uma formação similar portuguesa (PPP).

A política está igualmente em mutação. O tempo das ideologias e das fortes clivagens ideológicas deu lugar a um tempo onde o slogan e a imagem assumiram uma enorme preponderância. A divisão esquerda - direita já não é tão vincada e hoje em dia, o aparecimento de causas é um factor que concorre com a preponderância e primazia dos partidos, ainda que estas sejam efémeras. Partidos com uma maior dificuldade em construir pontes e a se abrir a estas novas causas e bandeiras, terão muitas poucas hipóteses de almejar a algo mais que a mera sobrevivência [isso já é visível em muitos partidos].

Creio que para finalizar, hoje em dia, a participação dos jovens tende assim a se efectuar mais por canais alternativos aos convencionais, nomeadamente os por via partidária - ainda que estes tenham de facto muito mais visibilidade. No entanto, estas vias alternativas, levantaram novos desafios aos partidos, que terão que se abrir à sociedade e deixar de lado as tendências unificadoras e agregadoras que muitas esmagam o debate interno, passando a se preocupar com novas bandeiras, de uma geração que ao contrário dos pais, é bem mais informada e preparada, porém tem muito mais insegurança e instabilidade profissional (que se reflecte a nível pessoal), não vislumbrando em muitos casos, sequer um futuro. É a geração dos estágios não pagos e dos empregos nas autênticas linhas de produção do séc. XXI que são os "call-center". A resposta tem de ser dada nestas matérias e nesta área. Para que esta geração e as vindouras, possam ser enquadrados e incluídos a dar o seu contributo para uma sociedade melhor.

Jovens e a Política


"(...)De acordo com a Visão, o perfil típico do abstencionista é:
- tem entre 18 e 29 anos
- não é casado
- não tem filhos
- não participa na vida do local onde vive, nem sequer nas reuniões de condomínio.
- vive tipicamente em zonas urbanas, no litoral ou nos Açores (...)"

Retive esta passagem de (mais um bom) "post" de Duarte Gouveia ainda sobre o tema das europeias e rapidamente me lembrei de uma temática sobre a qual estou para escrever há mais de um ano, mas que motivos vários, tem ficado sucessivamente na gaveta, a exemplo de muitos outros temas. Falarei então dos jovens e o crónico alheamento da política, um tema que volta em meia aparece nos escaparates e no ideário do debate político.

Num rápido exercício de senso comum, creio que é verificável que as sucessivas gerações de jovens foram sendo catalogadas pelos seus antecessores, como gerações despreocupadas, nada comprometidas, gerações sem uma real noção de valores cívicos. Esta ideia, sempre foi sendo veiculada ao longo da segunda metade do século XX, mesma com gerações que acabaram por vir a ter um grande posicionamento e acção política. Relembro as críticas do "establishment" europeu à geração do Maio de 68 ou as críticas de uma conservadora sociedade inglesa para com o movimento mood dos 60/70 e do movimento punk dos 70/80.

Em Portugal, tal situação igualmente aconteceu com a crítica feita à geração de 60/70 que fez a revolução, mas que em meados de 80/90 criticava fortemente os filhos da revolução, chamando os mesmos de "geração rasca", epíteto dado pelo meu conterrâneo Vicente Jorge Silva, na altura director do Público, criticando a falta de objectivos, de valores, de princípios, mas acima de tudo de sonhos, contrapondo aos feitos da sua geração.

Actualmente vivemos em Portugal sob o espectro da "geração morangos" e novamente as vozes alarmistas se levantam denunciando o desinteresse, a futilidade e a preferência pelo ócio que estas novas gerações têm. Ainda que concorde com certos aspectos (e tenho pouco mais de um quarto de século), acho que convém analisar a situação sob outro prisma, tendo sempre em mente que aqueles que criticam, já foram um dia jovens e foram igualmente criticados.

Ao contrário do que muitas vezes é propalado, este afastamento dos jovens da política não é meramente nacional e é de facto um sintoma comum aos nossos parceiros europeus. Segundo o jornal Público, um estudo revelado no início de abril pela UE, indicava que dos 96 milhões de jovens existentes na faixa etária entre os 15 e os 29 anos, apenas 4% indicava ter participado em actividades partidárias ou sindicais.

Será que aquele valor reflecte um menor envolvimento cívico dos jovens. Certamente não, olhando que o mesmo estudo referia que 49% dos jovens pertencia por outro lado a associações de cariz recreativo ou de outros fins.

Relembro que Tocqueville considerava que a existência de micro-associações [formais ou não] locais, estimulava a participação cívica. Mas é uma realidade que estudos comparados entre as décadas de 70 e 90 [ex: Gundelach e Torpe - estudo sobre realidade dinamarquesa] identificam uma maior adesão a organizações, assumindo no entanto cada vez mais esses participantes uma posição passiva e expectante.

Esta discrepância pode levar a dois tipos de leituras: a completa alienação dos jovens ou a inadaptação do sistema de representação partidário face a este grupo etário. Será que os jovens de hoje renderam-se ao ócio, dando por adquiridos todos os direitos pelos quais as gerações anteriores tiveram que lutar? Ou será que as formas de participação e causas igualmente se têm vindo a transformar, exigindo uma adaptação por parte dos partidos e organizações. Que leitura ter perante e tão baixo cenário de participação? Qual a posição das juventudes partidárias em todo este processo? Haverá novas formas de participação na forja? Tudo matérias para uma reflexão num post que publicarei de seguida (devido à já grande extensão deste).

2008-11-04

369ª


...é desde esta noite, o número de vitórias do Maior das Ilhas sobre o nacional.

Numa situação outra situação, seria normal estar efusivo com mais esta vitória num derbie, com toda a carga irracional que o mesmo transmite e transporta. Ainda para mais, com um clube cuja matriz é completamente distinta do Marítimo (pelo menos nas suas origens).

Não, não me apetece embandeirar muito em arco.
Desde sempre o mais popular e maior clube das ilhas, o Marítimo há muito que vem atravessando uma lenta erosão (aliás comum nos outros clubes da região), havendo um progressivo afastamento das cúpulas dirigentes em relação à sua massa adepta.

Mais que saudar a vitória, esquecendo assim num ápice as cada vez maiores críticas da sua (desprezada) massa adepta, convém neste momento de celebração [onde porventura muitos dos críticos passarão do 8 ao 80], reflectir sobre o rumo que o clube tem vindo a trilhar nestes últimos anos.

O Marítimo de génese popular, orgulhoso dos seus 98 anos anos de conquistas efectuadas com muito esforço, dedicação e tenacidade, não é o Marítimo "caviar"de hoje, submisso ao poder político e refém da teia de interesses de meia dúzia (muitos com altos cargos no clube). O Marítimo Campeão de Portugal, o Marítimo dos 35 Campeonatos da Madeira, o Marítimo que conquistou a pulso a subida aos nacionais contra tudo e contra todos, não se reveria neste Marítimo amorfo e quase sem alma. Um Marítimo cuja SAD engrandeceu o património, em detrimento da sua maior riqueza: a sua imensa massa adepta - porventura o maior activo, isto dirigindo-me a todos aqueles que falam a estranha linguagem das SAD's e SGPS's...

Antes de pensamentos em títulos e glórias (Champions incluído), os sócios e simpatizantes pedem antes de mais que honrem e dignifiquem o emblema que ostentam. Desde os jogadores, aos treinadores, e a toda a estrutura directiva - em especial esta última.

Faço uma pausa neste meu pensamento.

Volto à parte irracional. Hoje tenho de tirar o chapéu aos primeiros pois lutaram e honraram o emblema que representam. Não envergonhariam o velhinho Marítimo popular. Ganhámos.

Vamos Marítimo!
"Soubeste honrar a Madeira com orgulho e altivez"