"(...) O futebol é tão belo enquanto espectáculo sensitivo como na
qualidade de representação e divagação. Gosto do futebol como jogo,
paixão, estratégia, coreografia e vida. Está lá quase tudo. Não foi, por
acaso que Albert Camus, esse filósofo com um lado solar, afirmou um
dia: "Tudo o que sei sobre a moral devo-o ao futebol." Frase lapidar e
extraordinária. Como uma outra que passo a citar: "Ap
rendi
que a bola nunca vem até nós por onde a esperamos. Isso ajudou-me
durante a vida, sobretudo nas grandes cidades onde as pessoas não
costumam ser propriamente rectas." Vai ainda mais longe afirmando que
"com o futebol aprendeu a ganhar sem se sentir um deus e a perder sem se
sentir um lixo". Ele era guarda redes na equipa da Universidade de
Argel, onde então estudava. A sua opção no campo tinha uma razão de ser:
pobre, quase miserável, a sua avó inspeccionava-lhe todos os dias o
estado dos sapatos, pelo que ele teve que optar pela posição em que
estes menos se desgastavam. Camus, um dos grandes pensadores da
liberdade, foi afinal de contas guarda-redes por razões de necessidade.
Isso não o impediu de encontrar no futebol os princípios morais que
fundariam a sua filosofia moral. (...)"
Francisco Assis in Público 28-06-2012 (edição de papel)