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2010-12-22

Invertendo o ângulo



reverse graffiti - retirado daqui


Se continuarmos a olhar a política como o palco de uns tais "eles" - em vez do lugar de um "nós" onde caibam todos -, não há mudança possível.
Sim: seremos cúmplices da crise se sob as desculpas habituais de "eles são todos iguais", "isto não há volta a dar-lhe", "é só cada um por si", acabarmos por encolher os ombros, ficar em casa, não escolher.


Jacinto Lucas Pires
Público 21.12.2010 p.37



2009-12-27

O "teste para a democracia"



imagem daqui

"Eleitores do Uzbequistão começaram a votar para eleger o Parlamento, naquilo que o Presidente Islam Karimov considerou "um teste para a democracia" desta antiga república soviética, independente desde 1991.

As mesas de voto abriram às 06:00 locais (01:00 de Lisboa) e mais de 17 milhões de eleitores poderão votar até às 20:00 locais nos 506 candidatos que se afirmam todos defensores da política do governo, na disputa dos 150 lugares no Parlamento.

Segundo a lei uzbeque, 15 lugares estão reservados aos deputados do Movimento Ecológico do Uzbequistão, criado em 2008 e integrado por militantes pró-governamentais."

in DN



Eis mais uma estranha concepção de democracia, isto sob o prisma ocidental, indicada por uma pessoa do antigo aparelho soviético que desde a independência do Uzbequistão em 1991, se tem perpetuado no poder com votações com mais de 90%, quer passando por limitações constitucionais de dois mandatos - 5 anos cada [já agora, diga-se de passagem que é uma prática comum nesta parte do globo e os déspotas vizinhos até conseguem votações mais "retumbantes"].

Isto num país situado no chamado crescente turco, em plena Ásia Central, rico em recursos naturais como ouro e urânio - economia essencialmente recolectora, com especial incidência em culturas intensivas insustentáveis como o algodão (vide desastre ecológico do mar Aral) - recortado e tendo vastas extensões de deserto, com apenas 10% de terra arável.

Fora dos radares mediáticos, eis mais um pequeno exemplo do que acontece num país que figura nos tops de países mais repressivos para com imprensa, liberdade de associação, liberdade religiosa, com constantes violações de direitos humanos, mas que por circunstâncias geopolíticas - apoio na guerra ao Afeganistão e concessão de bases aéreas para apoio de acções militares na região - é tolerado pela comunidade ocidental, fechando assim olhos à grande repressão exercida sobre a população. Uma sociedade onde mais de 45% vive com menos de 2 dólares por dia e onde o Islão radical é uma real ameaça [em parte por via de todas estas circunstâncias] devido a crescimento da corrente wahabita do Islão - fortemente financiada pela Arábia Saudita, em contraponto a uma tradição endógena mais pacífica, mística e menos radical, mais característica da região como a corrente sufista [recordo e recomendo a leitura de "Jihad - Ascensão do Islão Militante na Ásia Central" de Ahmed Rashid para melhor percepção da profundidade das mudanças].

Feito este pequeno retrato, a notícia ilustra um bom exemplo no extremo, de certa "normalidade democrática" muitas vezes prevalecente em sociedades gravemente desiguais, onde a riqueza está concentrada nas mãos de uma pequena elite que insiste em se perpetuar no poder e onde as básicas noções de protecção de opiniões divergentes simplesmente não são consideradas ou tidas em conta em prol de um suposto unamismo agregador. Faz-vos lembrar algo?

2009-10-10

O debate e a campanha que gostaria de ter visto.


Condicionadas pelo facto de estar a ocorrer após umas disputadas legislativas e estando os portugueses estafados de tanta campanha, a impressão que fico é que este terceiro acto eleitoral num curto espaço de 4 meses, decorreu no cômputo geral de uma forma muito morna e superficial.

Ainda que pautadas por um estranho ritmo de "final de época", assistiu-se aqui e ali a interessantes discussões, em especial nas principais câmaras do país, lutas obviamente empoladas pelos meios de comunicação nacionais dado o seu mediatismo. Mas ainda assim, creio que mais uma vez desperdiçou-se uma excelente oportunidade para discutir medidas que a ser tomadas representariam muito a médio-longo prazo. Mas tomando em linha de conta que o eleitor vota em função do curto-prazo, que governantes se regem por um calendário eleitoralista, numas eleições de cariz local o que esperar?

Tendo seguido toda a dinâmica de campanha pelos meios de comunicação social com a atenção que um cidadão comum dispensa ao tratamento que é dado a estas acções [sempre condicionado ao tratamento que é dado pela comunicação social], observei no entanto que esta campanha , falhou ainda assim, uma vez mais na discussão do verdadeiro posicionamento do papel das autarquias, como factores de coesão e desenvolvimento, assim como quase não se referiu a necessidade premente de uma profunda reforma administrativa a nível local, antes de se poder pensar em medidas mais ambiciosas como a regionalização.

Portugal, pequeno país muito homogéneo em termos histórico-culturais, é dos países mais centralizados da Europa. Aliás, o facto das nossas fronteiras continentais serem praticamente as mesmas há 800 anos [desde Alcanizes] influí em tal facto.
Por outro lado, há que ter em conta que os concelhos têm muito do seu fundamento nas cartas de foral que foram sendo outorgadas pelo Rei desde a Baixa Idade Média. As freguesias - agrupamentos de cariz ímpar na Europa - descendem por sua vez das sede de paróquia que existiam.

Neste momento, Portugal tem cerca de 308 concelhos que por sua vez têm 4260 freguesias. O problema é que coabitam por vezes dentro do mesmo concelho freguesias como os Olivais com 40.000 habitantes e a freguesia de Mártires que é na prática um quarteirão no Chiado com cerca de 400 habitantes, isto olhando às 53 freguesias de Lisboa.

Parece caricato, mas a última grande reforma ocorrida em Portugal a este nível, aconteceu na instauração do liberalismo, quando Mouzinho da Silveira reduziu o caótico quadro de quase 800 concelhos existentes para bem perto do actual número, assim como introduziu o conceito freguesias - separando-as do poder intemporal da Igreja - ou criou o esqueleto dos, até há bem pouco tempo, actuais distritos.

Curiosamente, devido a esta situação - que fomentou muitas contra-revoltas dos caciques locais - Mouzinho foi obrigado a recorrer ao exílio em Paris. Quase 200 anos depois, a razão teima em manter-se: uma profunda reforma administrativa mexeria com muitas práticas vigentes e com muito clientelismo instaurado com o beneplácito das estruturas partidárias locais.

Portugal, para além do seu profundo centralismo, teima em manter uma estrutura administrativa complexa, porém não dispondo estas estruturas de meios e competências para gizar políticas e actuar em áreas mais próximas do cidadão.
Se compararmos com outros países, notamos que as transferências de meios existentes para o poder local é manifestamente menor que em Espanha ou França. Por outro lado, enquanto os nosso congéneres espanhóis ou franceses possuem um poder local competências para actuar na educação ou na saúde, notamos que em Portugal as competências atribuídas aos nossos concelhos são manifestamente reduzidas e limitadas, não fugindo à lógica do "betão".

Por isso não espanta, que dispondo de parcos recursos e constituindo as receitas advindas do licenciamento e construção, no fundo a principal fonte de receitas que uma autarquia pode arrecadar, que haja tantos atropelos a PDM's ou que muitas vilas e cidades portugueses sejam um verdadeiro caos urbanístico, alimentando os lobbies da construção civil que por sua vez erguem e mantêm no poder caciques que na maioria dos casos se comportam como senhores dos sítios onde governam.

Daí que e tendo em conta que uma efectiva regionalização é necessária, creio que a mesma apenas surtirá efeito, se precedida antes de uma efectiva e profunda reforma administrativa a nível local. Situações como os 89 concelhos de Barcelos - com uma população menor que o Funchal ou o facto de a Rua de S. Bento em Lisboa atravessar 6 freguesias (?!?), são situações que tornam impraticáveis qualquer tipo de tomadas de decisão em conjunto e que demonstram a fragmentação existente.

Urge assim reorganizar o território, dotando no entanto os municípios de outro tipo de competências que actualmente estão na estrita competência do Governo. As freguesias - que deveriam ser reduzidas [ainda que olhando protegendo e promovendo a coesão], pela proximidade existente, deveriam também ver reforçadas competências em especial em matérias mais relacionadas com o dia-a-dia dos cidadãos.

Só assim, o princípio de subsidiaridade seria plenamente cumprido, libertando um já constrangido Estado para a tomada de decisões a um âmbito mais geral e nacional. A poupança de custos e os ganhos em termos de know-how local gerados seriam imensos. E muito provavelmente, o números de caciques alimentados por patos-bravos da construção desceria e muito.

Em suma, penso que surgiria assim uma verdadeira coesão nacional. E o poder local deixaria a sua habitual figura de parente pobre, assumindo uma vocação realmente agregadora e vocacionada para estar ao serviço do cidadão.

2009-09-25

As mil e uma razões para não votar no PS

Depois de um belo jantar na casa de uns amigos acabámos a falar de política e em especial das últimas eleições. Como não podia deixar de ser discutiram-se diversos temas, e muitos foram os argumentos A FAVOR e CONTRA votar no PS.
Um dos argumentos utilizado e já bastante divulgado na comunicação social foi a diferença entre programas eleitorais dos dois partidos, que temos de ser realistas, têm possibilidade de ganhar estas eleições.
Nesta medida, e porque não gosto de falar do que não conheço, lá me dei ao trabalho de ir pesquisar e ler os ditos programas eleitorais.
As diferenças são abismais...
Numa análise puramente numérica o programa do PS tem 130 páginas e o do PSD 40. Ora não é para admirar que tenham chamado de vago o programa eleitoral do PSD.
Mas vamos ler o programa e não apenas centrarmos-nos no número de páginas ou no tipo e tamanho de letra utilizada.
Devo confessar que no caso do programa eleitoral do PS, fiquei com a sensação que os meus níveis de iliteracia estão bastante altos...pelo menos no que diz respeito a programas eleitorais.
Quando comparados, o P.E. do PSD é bastante conciso e até vago, pois o do PS vai a pormenores bastante interessantes:
1) Em relação às energias renováveis o PS vai tão longe como:"n) Terminar, a prazo, com a comercialização de lâmpadas incandescentes de baixa eficiência energética;"...o que não passa de pura demagogia pois todos sabemos que produtos como as lâmpadas incandescentes, electrodomésticos de classes inferiores à B, têm a tendência a desaparecer naturalmente uma vez que os mais eficientes são cada mais baratos e por isso mais competitivos... No entanto em Portugal o PS será o responsável por tal facto (Sarcasmo!).
2) Em relação aos transportes: "f) Permitir a compra de um bilhete com qualquer origem e qualquer destino em qualquer estação da rede ferroviária;"
Podia citar mais mas parece-me bastante enfadonho continuar, no entanto, convido-vos a dar uma olhadela...há mais pérolas.

Depois temos as mentiras descaradas:
"Em Portugal a despesa pública e privada em Investigação e Desenvolvimento atingiu 1,2% do PIB em 2007 e o número de investigadores 5 por cada mil activos. Mais importante ainda, a dinâmica de crescimento, produção científica, entrosamento entre universidades e empresas, relevância e reconhecimento internacionais, é hoje um dos principais activos
para o futuro."
Ora para contradizer esta afirmação temos o próprio ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago que 2009 dizia que tem como meta atingir 1 cientista por cada 200 pessoas activas...ora fazendo as contas...dá exactamente o que o que o programa do PS anuncia que já existe em 2007.FENOMENAL!!

Depois temos coisas mais obscuras para as quais desafio qualquer de vós a decifrar:
1)"m) Desenvolver um novo modelo de articulação entre o subsídio de desemprego e o trabalho a tempo parcial, tendo em vista aumentar as oportunidades de trabalho e a redução da informalidade." Afinal o que é a informalidade?
2) "a) Assegurar a posição de Portugal entre os 5 líderes europeus ao nível dos objectivos em matéria de energias renovávei sem 2020;" Não deveria ser ao nível dos resultados...ao nível dos objectivos é muito fácil...é só aumentar o número.

Enfim...é tanta a demagogia, a areia atirada para os olhos e até as mentiras que eu, pessoalmente, considero o programa eleitoral as mil e uma razões para não votar PS.
Não advogo com isto que votem no PSD ou em qualquer outra força partidária. Sou antes mais a favor de uma abstenção ( ou votos em branco) que numa verdadeira democracia deveria ter mais força do que realmente tem, uma vez que se é de maiorias que trata a democracia, a maioria que não vai votar ou vota em branco deveria contar para alguma coisa.
Apenas peço que pensem em consciência se querem votar num partido que se diz de esquerda, mas que acabou com todos os benefícios sociais que o povo português pôde conquistar com o 25 de Abril.

Pensem nos milhares de jovens que estão no desemprego ou em trabalhos precários ou não qualificados, tendo eles qualificações reais e não estas novas qualificações, aliás, novas oportunidades.

Pensem se querem votar novamente num governo que fecha maternidades por falta de dinheiro mas quer construir autoestradas, TGVs e aeroportos.

Pensem se querem continuar com o engano de que felicidade é sinónimo de educação e desenvolvimento, pois não é dando o 12º ano às pessoas porque as faz feliz que elas têm capacidades para o concluir, e nem isso trará desenvolvimento ao nosso país.

Pensem se querem votar em alguém que promete fundos, trabalho fácil e sucesso garantido, pois não se iludam a vida é difícil e para cada coisa que conseguimos é necessário muito esforço.
Apelo que votem ...sim... mas não neste PS disfarçado de defensor dos pobres e oprimidos, neste PS que diz que faz tudo...e no entanto nada fez (leiam o artigo do Nuno Rogeiro na Sábado)...não se iludam com um programa eleitoral que parece muito completo e bem escrito...mas pensem sim que a política é feita de pessoas e para as pessoas, e não nas promessas fáceis.
Votem em todos menos no PS. Este é o meu apelo!!

2009-04-18

It's Politics, Stupid!

"Não vou ser candidato"
"Ao fim de 10 anos de trabalho no Parlamento Europeu, não faz muito sentido que quem foi na última eleição em quinto, seja agora oitavo"
"Não aceito a lei da paridade como justificação. Não é suficiente para atribuir ao PSD-Madeira esse lugar"
Sérgio Marques dixit


"(...)"Já está resolvido. O candidato ao Parlamento Europeu, no mesmo 8º lugar, é o senhor dr. Nuno Teixeira".
"Não quer um, vai outro. A única pessoa importante neste partido sou eu".
"Não, ele disse-me agora antes de começar a Comissão Política. Não aceita, também não peço nada a ninguém. Surpreendeu-me pela maneira de ser dele (Sérgio Marques). Não o julgava capaz disto"(...)"

AJJ dixit


A surpreendente recusa de Sérgio Marques de integrar as listas do PSD às europeias em 8ºlugar [nas últimas eleições foi eleito em 5º], depois de ter sabido via Comunicação Social que era este o lugar que lhe era destinado, conforme tem sido aventado nos órgãos de comunicação sociais e na blogosfera madeirense, merece uma leitura algo mais profunda do que à primeira vista possa parecer.

Sérgio Marques é reconhecidamente, e num puro exercício de sondagem sem qualquer tipo de rigor científico, um dos nomes laranjas cujo trabalho e capacidade de iniciativa não é posta em causa dentro das hostes laranjas regionais, tendo o eleitorado opositor geralmente uma uma boa imagem da sua prestação política.

O facto de estar há 2 mandatos exilado na Europa, logo longe quer da vida política regional, quer do desgaste de imagem que a mesma produz, aliado à boa publicitação do seu trabalho - é dos deputados laranjas que mais investe nesta área, em especial na área das novas tecnologias - dos primeiros a estar na blogosfera, usa redes sociais para contactar eleitores [Facebook no caso], etc. - faz com que a imagem tida dele seja em geral positiva, não havendo grandes máculas sobre a sua imagem.

Numa primeira leitura simplista, face às palavras caústicas de Alberto João Jardim confrontado com a recusa, poderíamos considerar que Sérgio Marques tenha assinado a sua certidão de óbito político, pelo menos no seio do PSD-M, devido à "heresia"de ter ousado enfrentar o líder. Uma pessoa menos atenta à vida política na Madeira, pode achar que estou a exagerar, mas convém recordar que Jardim nunca foi grande adepto de debate interno ou de muitos desvios à ortodoxia da sua palavra.

Por outro lado, outra leitura possível, poderá indiciar esta recusa como uma simples tomada de posição por parte do deputado, que não tendo satisfeito as suas ambições, resolveu tomar uma atitude de força no calor do momento.

Há no entanto diversas nuances que me fazem explorar um outro prisma. Sérgio Marques, como qualquer político, tem as suas ambições e era público [em entrevista recente] que veria com bons olhos a ideia de poder no período pós-Jardim. Por outro lado, temos de considerar o facto de o poder e a alternância do mesmo, ser motivado, pelo menos em Portugal, não por uma vitória da oposição, mas sim pela erosão governativa do partido no poder. Tendo em mente estas duas premissas, num exercício de pura especulação, poderíamos ser levados a pensar que os factos que nortearam esta abrupta decisão poderiam ter mente uma estratégia com horizontes mais latos.

Isto porque com esta decisão e a aparente proscrição (a nível regional), o mais engraçado nesta situação é o facto de Sérgio Marques poder vir a obter a médio-longo prazo enormes ganhos políticos com esta medida, beneficiando com isso o PSD-M. Confusos?

Num cenário de liderança pós-Jardim, Sérgio Marques com esta recusa e pelo facto de perante os olhos da opinião pública, ter afrontado Jardim, pode constituir para o partido uma possível alternativa ou alternativa de reserva, isto quando o jardinismo (ou o que restar dele) deixar de ser a matriz agregadora do partido ou o eleitorado madeirense já não ser sensível ao peculiar estilo de retórica e mensagem.

Em termos de calculismo político, esta poderia ser considerada uma manobra arriscada - sabendo-se que o manancial de apoio do jardinismo é bem grande, a gratidão dos madeirenses é (irracionalmente e inexplicavelmente) devota e o aproveitar da sua imagem e memória, que após a sua retirada serão concerteza explorados e darão votos ao partido laranja pelo menos durante algum tempo.
Mas dado que nada é eterno, quando a alternância estiver na eminência, Marques estaria salvaguardado, aparecendo aos olhos do eleitorado laranja, como uma opção recta e imaculada (vinda fora do sistema), que soube se manter à parte, seja do possível lavar de roupa que previsivelmente se seguirá no interior do partido (e que já aparentemente já decorre - os indícios são muitos), seja das conotações menos claras com o período jardinista.
Marques funcionaria assim como o às de trunfo, num cenário de iminente alternância num contexto eleitoral difícil.

Claro que esta análise tem muitos "ses" e face ao publicamente propalado, não creio que tenha havido este tipo de visão política a longo prazo - estão escritas muitas determinantes não controláveis. Aliás, as próprias ambições a curto-prazo do candidato, ficariam algo lesadas, podendo a sua imagem pública ser afectada (como deverá previsivelmente ficar).
No entanto, não deixa de ser engraçado como uma medida que aparentemente é uma mera tomada de força, poderia no entanto se revestir de uma medida com extrema astúcia e argúcia. Será a análise assim tão descabida e fictional?

2009-02-09

Ontem como hoje


"(...)devido à ignorância dos seus instintos primitivos, da violência das suas necessidades, da impaciência dos seus desejos, o povo inclina-se para as formas sumárias de autoridade. O que procura, não são garantias legais, das quais não faz qualquer ideia e não conhece o poderio; não é em absoluto uma combinação de mecanismos, uma ponderação de forças, das quais não sabe que fazer: é um chefe em cuja palavra possa acreditar, cujas intenções sejam suas conhecidas e que se devote aos seus interesses. A esse chefe, ele dá uma autoridade sem limites, um poder irresistível. O povo, olhando como justo tudo o que julga ser-lhe útil, tendo em conta que ele é o povo, ri-se das formalidades, não faz caso algum das condições impostas aos depositários do poder. Predisposto à desconfiança e à calúnia, mas incapaz de uma discussão metódica, não acredita em definitivo senão na vontade humana, não tem esperança senão no homem, não tem confiança senão nos seus semelhantes, in principibus, in filiis hominum [nos príncipes, nos filhos dos homens]; não espera nada dos princípios, que só eles podem salvar; não tem a religião das ideias.(...)"

P.-J. Proudhon [cujo bicentenário se comemorou em Janeiro] in "Do Princípio Federativo e da necessidade de reconstruir o partido da revolução"

O contexto pode ser diferente. Mas a Lógica do Pão e do Circo persiste!

2008-11-28

Web 2.0

Se há um facto inegável na espantosa campanha que levou à eleição de Obama como 44ºpresidente dos EUA, foi a forma como o mesmo soube usar a internet para granjear apoio, tendo consolidado através deste meio a sua cada vez maior base de apoio. Isto notou-se no enorme montante monetário recolhido.
Ninguém dúvida que Obama inaugurou uma nova era, em termos de feitura e estrutura de campanha, quer em termos de relação com os próprios eleitores, que de certeza tenderá a ser copiada um pouco por todo o lado.
Aliado ao discurso de confiança [o que numa altura de crise é de louvar e realçar], a atitude e abertura demonstrada por Obama na relação com os eleitores, foi em minha opinião uma das razões para a euforia e dedicação prestada pelos seus ferverosos apoiantes.
Como exemplo, temos a criação [como um comum mortal] de vários álbuns de fotos no sítio Flickr [de onde retirei a foto em cima], onde Obama revelou alguns momentos da campanha. Recordo que outros canais da dita web 2.0 foram fortemente explorados pela sua campanha para fazer passar mensagem, constituindo assim uma forma alternativa de chegar ao eleitorado. Resumindo, tratou-se apenas de seguir as tendências seguidos pelo eleitorado, adaptando-os ao contexto de campanha.
No entanto, dá também azo para ver momentos mais pessoais da vida do candidato [por norma não são revelados] como a pressão vivida na aferição de resultados na grande noite de 4 de Novembro [aceder aqui].
Este Obama sabe!

Post scriptum: é de génio esta foto! O pormenor dos sapatos gastos do candidato ao mesmo tempo que revela trabalho de campanha, revela humildade e aproxima o candidato ao comum dos mortais! Mais que coincidência isto revela muito trabalho de marketing político [digo isto sem qualquer acepção negativa].

2008-11-06

MANIFESTO “ANTI-PRETOS”: BRANCOS PRETOS E PRETOS BRANCOS



Calma, ao contrário do que o título possa indiciar, isto não é uma demonstração de racismo… Bem pelo contrário… Passo a explicar… Tudo começou com Lewis Hamilton (no ano passado e com corolário no presente) e culminando agora com Barack Obama... Ao Tiger Woods não passei muito cartão, talvez pela novidade do fenómeno naquela altura, e por isso ainda não enjoava…
BASTA! Estou farto! Porque é que isto tem que girar em torno da cor da pele??! Ainda que num tom elogioso, a ênfase desta vitória nas eleições presidenciais americanas tem sido a cor da pele de Barack Obama… “Primeiro presidente afro-americano dos EUA”… Bah!! Ignoremos a perspectiva humanista (jamais vista desde JFK); as medidas para transformar a segurança social numa outra digna desse nome, nomeadamente no sector da saúde; a atitude de aproximação/reconciliação em contraste com a anterior atitude de radicalismo/confrontação internos; a redefinição da política externa com afastamento da postura imperialista e de imposição, virando para o internacionalismo; a política económica baseada na criação de valor real e não nas mais valias artificiais (e voláteis) dos mercados financeiros; as preocupações ambientais... Naaaaaão, centremo-nos apenas no facto de Obama ser preto, ou filho de um preto, ou filho de um preto queniano, que isso é que é importante… Esqueçam tudo o que é verdadeiramente importante… Porque o que interessa mesmo é a cor da pele…

Com esta atitude, os media mundiais transformaram e adulteraram o “Yes we can” da mudança/esperança humanista num outro “Yes we can elect a black president”. Ainda que inconscientemente (ou talvez não), este ênfase e distinção de tratamento só contribui para manter um fosso psicológico social entre brancos e pretos. Como se brancos, pretos, amarelos não fossem todos meras pessoas. PESSOAS, ponto final! Foi um preto que ganhou as eleições? Errado! Foi um cidadão americano, no caso um democrata. Não foi uma cor que venceu, foi uma PESSOA!! Se essa pessoa é branca, preta ou amarela isso é apenas um atributo físico e portanto irrelevante… E nesta perspectiva, dar ênfase ao facto de Obama ser o primeiro presidente preto da história dos EUA é tão relevante como alguém ser o primeiro presidente com um sinal no tornozelo, pêlos nas orelhas ou um queixo com 30cm de comprimento (escrevi queixo porque não encontro uma bolinha vermelha para pôr…).
Podem vir com a historicidade em causa para justificar, mas a verdade, e a meu ver, por mais elogioso que seja o tom, e por melhor que sejam as intenções, isso só contribui para chamar à baila, por um lado os discursos de vitimização e por outro os de racismo. O que deveria ser chamado à baila são as atitudes e as ideias e propostas que os candidatos apresentaram.

E há mais para apontar o dedo! O que é que Hamilton e Obama (e já agora, Woods) têm em comum? São todos café com leite! Nem “verdadeiros” pretos são!! Brancos pretos ou pretos brancos, como queiram. Por isso, quanto muito, as manchetes poderiam ser: “Americanos colocam café no leite presidencial”…

Exige-se portanto que retirem de todas as manchetes e conversas de taberna a palavra preto (ou na sua versão politicamente correcta, afro-americano) quando referindo a vitória de Obama! Não porque seja um insulto mas porque diminui o seu valor, desviando a atenção para algo tão irrelevante (e já expliquei porque é que o argumento da historicidade é contraproducente).

Ah como eu gostaria de ver referido o Hamilton campeão mundial como “aquele que foi mais rápido, agressivo e tecnicamente superior, enfim, o melhor!”. Em oposição a “aquele que foi o primeiro campeão mundial negro da história da f1…

VIVA O OBAMA!!

2008-02-13

uma questão de dinâmica...


...Com a campanha de Hillary a perder o gás (convulsões no seu interior já levaram a que saíssem dos dos seus gestores), a campanha de Obama está com uma dinâmica de vitória que o torna claramente favorito. Conseguindo ir buscar votos a todas as camadas e etnias, tendo já o apoio velado do clã kennedy e personificando a memória de M. Luther King, Obama já está à frente a nível de número de candidatos eleitos, contra todas as previsões feitas há um ano atrás...Falta ainda os dois pesos pesados, onde muita coisa pode ficar decidida: Texas e Ohio.
Pese Hillary tenha a vantagem de ter ganho na maioria dos Blue States (estados democratas por norma) e até tenha saído vencedora em dois momentos onde já anunciavam a sua derrota, nota-se à volta da campanha de Obama uma dinâmica que está a ir buscar votos aos nichos mais improváveis. Acresce-se a isto o facto de ter muita (boa) mediatização à sua volta e entende-se o porquê deste favoritismo...
Será que teremos eleição primária até ao fim (convenção em Agosto) ?

2007-09-26

...portugalidade do PSD...

...desleixo e pagamentos em massa de quotas em cima do prazo limite, efectuados pelo mesmo cartão em vários pontos na ânsia de recolher o máximo de apoios; ameaças levar acções para os tribunais civis reclamando ilegalidades na contagem do universo eleitoral por parte de um dos candidados; ameaças de impugnação da eleição; discussão quase nula de ideias, entrando os candidatos num discurso infértil de acusações fúteis, captando e alimentando ilusões a muitos caciques locais...

...afinal de contas, já descobri o porquê de ser este o partido político que muitos dizem melhor representar a realidade do nosso país...O mais português dos partidos...

...Pode-se censurar muito o Carrilho, mas o seu artigo no DN há uns dias nunca fez mais sentido do que agora...A implosão partidária dos grandes partidos parece ser uma realidade não muito distante...