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2013-04-11

Manifesto por um Futuro Europeu





Nascida da ideia de cooperação, desenvolvimento e progresso, a Europa parece conformada no seu actual papel e sem futuro. A Europa esqueceu-se da comunidade dos europeus e parece caminhar de olhos fechados sobre um presente negro.
O projecto de uma União Europeia parece desvanecer-se perante as transformações globais, e a recuperação europeia encontra-se bloqueada por um processo burocrático que encobre o medo de não assumir compromissos com alcance histórico.
Esta Europa esqueceu a riqueza do seu passado, a vantagem do seu presente e o impulso democrático, ambiental e cívico do seu processo de construção, e apagou os benefícios de uma integração política e económica entre os seus estados-membros. Este é o momento para travar a soma de egoísmo e cepticismo que ameaça os países e os cidadãos europeus. É o tempo de recuperar as palavras de Shelley: “somos todos gregos”, e de Kennedy: “Ich bin ein Berliner.” Nascemos europeus. Nascemos em nações democráticas numa Europa sem fronteiras e queremos derrubar os muros entre os povos europeus.
Somos um grupo de jovens europeus de Portugal e mais do que identificar problemas, queremos ver a Europa levantar-se de novo e confiar nas mãos dos seus cidadãos, a responsabilidade histórica que lhes compete. Vimos comunicar que queremos e somos capazes de escolher o nosso futuro.
Identificámos três áreas em concreto nas quais focaremos os nossos esforços:

1. Democracia

A União Europeia carece de legitimidade popular. A separação entre os centros de poder não eleitos e a discussão política sem poder de decisão provocou um afastamento entre os interesses da comunidade de europeus e os interesses de alguns particulares.
O diálogo de aproximação que caracterizou a Europa foi substituído por imposições que subverteram o significado da própria palavra “União”, fracturando os estados-membros em grupos distintos. Os mais altos dirigentes da UE não são escolhidos por sufrágio directo, respondendo mais aos governos de alguns países do que aos cidadãos que deviam representar. Este afastamento é causado pela opacidade dos processos de deliberação, do impacto das directivas europeias e pela falta de legislação que aproxime os cidadãos dos decisores.
É necessária a criação de formas de representação dos cidadãos europeus cada vez mais para além da clássica mediação exercida pelos representantes dos respectivos estados-membros e a instituição de um exercício constante de transferência de informação de forma clara e directa, também no sector legal. Sobretudo, consideramos que deveria existir um maior esforço no sentido de instituir uma cidadania europeia significativa, que nasça não da padronização mas da aceitação e equilíbrio das diferenças, no sentido de criar uma verdadeira união, superior a fronteiras e tratados, ancorada no desejo de cada indivíduo de ser europeu e no espírito do lema da União Europeia: “Unidos na Diversidade”.

2. Educação e Cultura

A educação e a cultura merecem um particular destaque nas nossas preocupações, por considerarmos que são factores críticos para a promoção da coesão social, inovação, convergência entre países e desenvolvimento da Europa. Constituem uma parte fundamental na formação pessoal dos cidadãos, que se reflecte em todas as suas esferas de acção. As mais-valias demonstradas por iniciativas de mobilidade como o programa Erasmus, que aproximaram os estudantes dos vários estados da Europa e permitiram a esta geração uma visão global e inclusiva, devem ser tomados como ponto de partida para uma maior integração entre as várias instituições de ensino, de investigação, de desenvolvimento e de inovação.
Consideramos um direito fundamental o acesso à informação pela disponibilização pública, universal e livre da internet, assim como de todas as ferramentas tecnológicas inerentes a esse meio, a existência de equipamentos escolares modernos e de métodos de ensino-aprendizagem que promovam o trabalho colaborativo com recurso a meios tecnológicos avançados e que seja potenciado o envolvimento, desde cedo, dos estudantes com entidades, equipamentos e conteúdos culturais.
Defendemos igualmente a existência de uma política de financiamento e de acção social do ensino superior, assim como de combate ao insucesso e abandono, mais concertada à escala europeia. Desejamos uma sociedade onde a condição inicial do indivíduo não seja a determinante do seu futuro, tornando necessário um esforço de inclusão dos estudantes em posição mais desfavorecida e de apoio aos países sob maiores constrangimentos orçamentais.
Sugerimos uma maior dedicação à área da cidadania europeia no ensino obrigatório, de carácter sobretudo informativo, especialmente nos casos em que o estudo de tais assuntos já esteja previsto nos currículos, como é o caso do nosso país. Reforça-se também a necessidade da sua maior flexibilidade, apostando numa formação mais geral e transversal e evitando situações em que se torna impossível ou impraticável corrigir escolhas feitas anteriormente. Desta forma, e no sentido de permitir o maior desenvolvimento possível de todos, de forma livre e independente, afirmamos a vontade de ver promovidas acções de debate e de discussão no ambiente escolar, baseadas no civismo e no respeito mútuo, como incentivo a atitudes participativas e de combate ao atavismo.
Finalmente, gostaríamos de salientar a importância das indústrias criativas e das iniciativas culturais, especialmente no momento da crise que atravessamos. O elevado volume de actividade comercial gerado por estas actividades, no contexto europeu, é indicativo do seu potencial de crescimento, pelo que defendemos o incentivo à sua expansão.

3. Sociedade e Economia

Vivemos actualmente numa crise económica, financeira, mas sobretudo numa crise de futuro. As consequências destas crises são sentidas de forma severa pelos jovens, que procuram aplicar à sociedade e à economia o seu saber e trabalho, que tentam fugir à precariedade e que procuram a felicidade. Nos países intervencionados há uma geração inteira que vê as iniciativas culturais e sociais desaparecerem, sentindo-se assim entre a espada do desinvestimento e a parede da estagnação e perdendo a confiança numa Europa que se vê incapaz como instrumento potenciador de soluções.
A chegada do Euro elevou a Europa a um novo patamar e as exigências aumentaram sem que muitos estados-membros percebessem as implicações. Um dos erros da construção económica europeia foi a criação do Euro como instrumento para uma maior integração política. Fazê-lo como um fim e não apenas um meio para alcançar uma progressiva unidade política e económica poderia ter evitado as consequências que hoje sofremos - uma economia débil, com desigualdades crescentes e uma desunião política preocupante. Ao colocar todo o ónus das origens desta crise sobre os elevados níveis de dívida e défice e na ausência de reformas estruturais, estamos necessariamente perante uma análise incompleta. A abertura da Europa a mercados externos como a China e as debilidades nos sistemas produtivos de vários países europeus, potenciadas por esse choque, devem ser factores a considerar nesta avaliação. As actuais políticas, ao privilegiarem uma análise simplista desta crise invalidam a eficácia das soluções encontradas.
No actual quadro, em que mais de um quinto dos trabalhadores são precários, o desemprego jovem atinge níveis historicamente elevados (com mais de quatro em cada dez jovens sem emprego) e o investimento em investigação se afasta dos objectivos europeus 2020 (3% do PIB), definimos como principal prioridade o combate à precariedade, ao desemprego e um novo impulso à investigação. Se assim não for, o actual ciclo vicioso em que as economias do sul se encontram não terá fim, com consequências extensíveis a todos os estados-membros. A procura de soluções conjuntas ao nível europeu parte da interligação de Estado e economia para a promoção do bem-estar social e o relançamento do crescimento económico. Tendo em conta o novo quadro de apoio comunitário, consideramos prioritária a promoção da inovação, educação e cultura e o desenvolvimento de sectores como as pescas, a agricultura e as energias renováveis, assegurando a independência energética. É também fundamental que a Comissão Europeia assuma um papel mais activo na prossecução do ideal fundador da União, promovendo o crescimento económico e o desenvolvimento social, através da definição de metas claras não apenas de longo mas também de curto prazo.
Postos os pontos anteriores, assumimos a nossa responsabilidade na apresentação de medidas para a resolução de problemas concretos que se apresentam no contexto europeu:

I

A eleição directa do Presidente do Conselho Europeu no sistema de sufrágio directo e universal, a criação de um órgão eleito directamente pelos cidadãos com igualdade de representação para todos os estados-membros, e que coordene com o Parlamento Europeu na iniciação e debate legislativo. Também sugerimos que os partidos europeus ou outros movimentos cívicos indiquem as suas escolhas para Presidente da Comissão Europeia e que apresentem programas comuns em todos os estados-membros e defendemos a capacidade de grupos de cidadãos (independentemente da sua nacionalidade) recorrerem ao Tribunal de Justiça Europeu por manifesto défice de protecção jurídica nos seus países de origem.

II

A criação de uma rede de Universidades da União Europeia, sedeadas nos países em que exista um maior défice de qualificações, com custos normalizados de acesso, baseando-se na mobilidade e no livre acesso à informação e às publicações dela resultantes. De igual modo, esta iniciativa pode estender-se ao nível pré-Universitário (à semelhança do programa Comenius) e aos centros de investigação, que contribuem quer para a formação pessoal como para a produção académica, facilitando assim a transferência de pessoas e de conhecimento e a consolidação do sistema universitário europeu.

III

Propomos a criação de um banco europeu de capitais públicos de microcrédito ou de fomento - vocacionado para empréstimos de apoio à criação de novos negócios. Esta medida permitiria promover a criação de emprego, a aplicação de muito capital humano na economia e a sua modernização. O papel meritório reconhecido a várias incubadoras nacionais permitiria adicionar a experiência que garanta o sucesso do investimento.
Também consideramos que na resolução dos problemas identificados é essencial a expansão das competências e responsabilidades do Banco Central Europeu como responsável pela emissão de dívida comum a todos os estados, bem como agente activo na eliminação de off-shores em solo europeu, mas igualmente à escala mundial em cooperação com os restantes bancos centrais.

Subscritores do manifesto

Diogo Capelo, Lisboa, estudante e bolseiro de investigação, 25 anos 
Tiago Batista Gil, Trancoso, arqueólogo
Stephanie Figueiras, Oeiras, estudante
David Filipe dos Santos, Viseu, mestre em Ciência Política
Rui Moreira, Lisboa, designer, 26 anos
David Crisóstomo, Charneca da Caparica, estudante, 21 anos
Francisco Themudo de Oliveira, Ourique, estudante de Ciência Política, 19 anos

Jorge Pinto, Bruxelas, engenheiro, 25 anos
Hugo Fernandes Lourenço, Lisboa, jornalista, 28 anos
Pedro Moura, Coimbra, estudante, 24 anos
Mariana Teixeira Santos, Porto, jornalista/produtora de conteúdos, 30 anos
Jorge Miguel Campos, Coimbra, estudante, 20 anos
Ana Carolina Coutinho da Silva, Coimbra, estudante, 20 anos
André Costa, Paço de Arcos, historiador, 34 anos
Bernardo Pereira, Oliveira de Frades, economista, 23 anos
Kelly Rodrigues, Leiria, estudante, 20 anos
Melissa Rodrigues, Leiria, estudante, 20 anos
Madalena Martins de Jesus, Coimbra, estudante, 23 anos
João Tibério, Lisboa, historiador, 30 anos
Tiago Patrício, Trás-os-Montes, escritor, 34 anos
João Gregório, Lisboa, 34 anos
Aires Gouveia, Lisboa, precário profissional, 30 anos
Adriana Couto, Braga, estudante, 22 anos
Marta Rosa, Lisboa, estudante, 21 anos
Rafael Esteves Martins, Queluz, mestrando, investigador bolseiro, 25 anos
Cláudio Carvalho, Maia
Alexandre Henriques, Oliveira do Hospital, estudante de Sociologia, 21 anos
Rita Costa, Lisboa, estudante, 21 anos
Joana Gonçalves de Sá, Lisboa
Natacha Melo, Águeda, estudante, 18 anos


(excelente iniciativa dinamizada pelo historiador e eurodeputado Rui Tavares no âmbito do encontro Youth in Crisis. um interessante exercício de democracia deliberativa no qual tive muito gosto em participar. ver mais aqui e aqui)  



2012-11-02

o anjo da pena torta

 imagem by desbobina


 
"futebol e escrita. linha, ir à linha, escrever à linha. bola e palavras.
história. estórias. palavras sobre bola. com historia.
nasce assim uma nova casa, um novo projecto, com palavras, história e bola.
bola na linha.
"

bolanalinha.tumblr.com
o novo projecto de João Tibério (JJT).



 

2012-10-18

hoje como ontem

(imagem by Desbobina)


Temos a enorme sorte de contar com Vítor Gaspar"

António Borges (via Público)

 


De repente, parece que estamos de volta a 1926. É só comparar com o que se dizia na altura de António de Oliveira Salazar.

2012-10-12

leituras (por João Tibério)



ele lê o jornal toda a santa-noite.
acorda cedo, naquele-cedo-que-nem-traz-sol, e lê mais uns blogs.
vai à rua e compra umas revistas. lê-as de fio-a-pavio.
passa no café e ouve as notícias da rádio. frescas como o pão da padaria em frente.
pouco depois, já no gabinete, vê o noticiário e até escuta o vox-populi. é conhecido por estar sempre informado. por conhecer todas as fontes, todos os dados, todos os pormenores.
tudo.
ele gosta disso. de ter sempre a resposta na ponta da língua.

hoje o filho perguntou-lhe: como será o amanhã?
amanhã?
não, pai. o amanhã.

silêncio.

um soco no estômago.
e uma lágrima rebelde a cair.

só sabia que não tinha resposta. só sabia que não havia futuro.


(brilhante rascunho de  João Tibério)




2012-09-26

Não sejas boneco!



Todos ao Terreiro!

Por uma outra via!





2012-09-25

Foot.Ballroom



The Beautiful Game in a musical glance.
It takes two to Tango. 
Tiki Taka takes eleven. 

(on tumblr and now also on facebook





2012-09-10

Foot.Ball.Room

 


The Beautiful Game in a musical glance. 
It takes two to Tango. 
Tiki Taka takes eleven.

2012-08-11

2006-2012



Adivinhem quem faz 6 anos e até já vai para a primária?






2012-03-23

buzica


a espuma do mar há horas que banhava o cabelo desgrenhado e a barba rebelde que sobressaía da sua face queimada e matizada pelo sal e sol. aquela cadência ritmada das ondas, qual compasso de maraca num slow de bossa-nova algo manhoso, transmitiam-lhe uma sensação de paz e relaxamento que até aí não tinha experimentado.

fazia longo tempo que não sentia terra firme. o suave e relaxante granulado da areia, ele que sempre se sentiu como um grão. ele que avesso a individualidade, sempre se sentira em interacção com tantos outros iguais ali naquela praia. como que desprovido de valor ou qualidade em especial. como um átomo.

mas ao mesmo tempo, um estranho vazio o acometia. como o interior dum átomo, assunto sobre o qual as normais pessoas tendem a não pensar, tendendo a desconsiderar ou menosprezar. desconhecendo assim que nesse suposto vazio acomodam-se electrões e protões que dão ao átomo uma característica única. como que a provar, que na mais completa discrição ou homogeneidade, há sempre espaço para o diferente. para o particular. para o individual.

um respaldo de onda mais forte, fez com que abrisse os olhos.

estava numa praia. paradisíaca. em terra firme, como o seu sonho.

levantou-se lentamente. estava extenuado e farto de nadar sem rumo. farto de numa suposta quebra de rotina, acabar por ser falsamente induzido numa outra. porventura pior. porventura mais perigosa.

ainda assim, tinha forças para começar a deslocar-se.

um pé a seguir ao outro. lentamente. como que movido por uma força interior. algo seu. do seu querer. que provinha do interior que julgava vazio e seco. como que a responder às reacções e a choques dos seus electrões e dos seus protões.

após ganhar uma certa cadência, diria até mecânica, vislumbrou no meio da praia, um estranho mas atraente X gigante.

sempre fora um pouco céptico a tais veleidades beneméritas que lhe pudessem ter ocorrido. não por questão de orgulho, mas por algo que nem ele sabia explicar. afinal de contas não há almoços grátis, pensava ele. adiante.

mas achou realmente estranho o facto de estar intacto.

embora céptico, resolveu aproximar-se.

ao chegar, notou que ali estaria algo enterrado. algo escondido. com tal X gigante era impossível não pensar nisso. e como tudo o que não está à vista, logo imaginou no que poderia estar ali contido. ali debaixo de todos aqueles indistinguíveis mas suaves e relaxantes grãos de areia.

escavou.

e escavou.

com todas as suas forças escavou.
de repente deu com uma pequena caixa. ao contrário de todas as normais e robustas arcas de tesouro, esta era bem frágil. estranhou.
mas ele também não era o Barba Ruiva e aquilo também não era a ilha de Tortuga.

resolveu abri-la.

e ao contrário do imaginado, dentro não existia mil e um tesouros, mas sim um pequeno grão de areia. um pequeníssimo grão de areia. uma "buzica" de areia, carinhosamente pensou ele.

aquele não era um grão impessoal, igual a todos os outros que tinha até aí encontrado.
não.

surpreendia-o a sua elegância e a estranha sensação de conforto que transmitia. e tinha personalidade. não era um mero grão de areia, mas sim a sua "buzica" de areia.

algo que tinha o condão de dar-lhe uma resposta a muitas das suas dúvidas que até aí o acompanhavam, na exacta proporção inversa do tamanho do mesmo.

um simples grão de areia. algo que ao longe se perdia na aparente homogeneidade e rotina que era aquela praia da vida.
algo frívolo e trivial para o comum dos mortais, como um grão de areia.
porém e ao mesmo tempo com uma imensa personalidade própria.

era assim possível ser algo que, não tendo sempre de ponderar os prós e os contras, agiria quando tal fosse necessário.
não tendo algum tipo de pressão para completar grandes feitos. ou para almejar algo. algo que o reconfortava, ele que sentia uma pressão castradora que estupidamente o inibia.

daí a necessidade de apelo ao interior. e deixar que os electrões e neutrões chocassem, esperando que daí resultasse o impulso que finalmente necessitava.

a "buzica" de areia não o sabe, mas a sua presença tinha mexido com o interior do Crusoé em questão. efeito acendalha, despertando forças interiores, que até aí ele não sabia que existiam. ou melhor, que não se recordava. tinha estado seco durante muito tempo. porventura inibido.

mas fiel à sua personalidade, esta "buzica" de areia não se remeteu a um papel passivo.
também ela continha dentro dentro de si forças que a empurraram para fora das mãos do Crusoé.
ou terá sido a passividade e inabilidade natural deste último que provocou tal separação?

o certo é que esta caiu na massa impessoal do imenso banco de areia. e ainda que se destacando dos restantes, ao algo pitosga Crusoé, à distância que estava, custava-lhe encontrar a mesma.

obviamente que a uma formosa e peculiar pequena forma, seria bem fácil fazer-se destacar naquela aparente e homogénea massa de areia.

teorizo então que porventura não quereria ser encontrada por uma pessoa que mesmo contendo algumas qualidades que apreciava - pelo menos nos breves momentos que esteve em contacto com a mesma - soava-lhe instável e tão pouco crente em si.
e todos sabemos que ninguém quer ter ao seu lado alguém com falta de confiança própria.

por outro lado e para ser justo, deduzo que o calejado e extenuado Crusoé, ainda que ciente que por vezes valeria a pena arriscar, não quereria ocupar indevidamente o lugar de outra pessoa, de outro naufrago que viesse a desembocar naquela praia.
e é bem verdade que todos nós, a dada altura, nos sentimos perdidos.
mas na realidade, notamos que uns acabam por ser mais centrados que outros. reagindo assim de forma diferente. às tantas devido às tais forças interiores que já aqui falei. e pese o conforto e segurança, porventura o Crusoé tinha ainda assim medo de falhar.

mas assim esperaria que outra pessoa aparecesse e estimasse como devido, aquele pequeno, formoso e calmante grão de areia, a que carinhosamente tinha designado de "buzica".
ainda que no seu íntimo, imagino que quisesse ser ele o escolhido. como que a apelar a uma reactividade quando esta era uma época de proactividade.

lamento, mas não sei o final desta história. aliás, creio que há vários finais possíveis, mas o indesmentível é que aquela ligação e conexão existiu ou existe. gosto de pensar que como um ying e como um yang. estando juntos ou não.

igualmente indesmentível, é que por estranho que pareça, aquele pequeno e simples grão de areia, marcou para sempre aquele homem. como que a mostrar que, por vezes, existem pequenas coisas às quais nada damos importância ou de quem nada esperamos, mas que de repente podem deixar a sua marca indelével. como uma assinatura em tinta chinesa.

mostrando que no nosso interior há algo mais que vazio. estas colisões só têm é de ser direccionadas. ainda que num equilíbrio digno de um trapezista sem rede a 40 m de altura. só com este equilíbrio, só com esta conjugação de camadas, é possível exponencial todo o seu potencial.

e naquela praia, naquele dia, para aquele homem, a "buzica" de areia foi capaz de almejar tal desiderato.

2012-02-22

apanhando o 29. na velha carcaça.

foto roubada daqui




às 18.10 apanho o vinte e nove.
numa curta viagem de 365 dias até apanhar o trinta.

2011-07-02

A última camada de Berlim.


Prenzlauer Berg, Portas de Brandenburgo, Döner Kebab, Currywurst, Reichtag, Charlie's Checkpoint...Há toda uma Berlim para além do sector americano. Até clubes de culto. Uma peregrinação à "casa na Velha Floresta" numa Berlim surpreendentemente quente vista pelo convertido Aires Gouveia.


Berlin hat sie alle. Berlin has it all.

Leio esta frase na Kunsthaus Tacheles em Berlim. A escolha óbvia se tivesse que retratar a cidade num edifício. Ocupado após a reunificação. Ponto de experiências algo utópicas. Símbolo da contracultura que por lá se respira. Das Punk Kapital, leio noutra parede. No entanto, condenado a ser demolido para dar azo a um empreendimento de luxo, apesar de receber 1 milhão de visitantes por ano. Contraditório?

Bem vindos à cidade plástica. Jack Lang, ex-ministro da cultura francês, uma vez disse que “Paris será sempre Paris e Berlim nunca será Berlim”. Sempre em mutação.

Berlim respira cultura. 190 nacionalidades numa metrópole de 4 milhões. Cidade extensa. Barata. Criativa. De diversas realidades e contradições. Maniqueísta. A cidade libertária versus o centro de poder da Europa. Uma cidade, onde coexistiram dois países, dois sistemas antagónicos, um muro de 150km a separá-los. A Guerra-fria no seu esplendor. Um muro que, se fisicamente já quase não existe, virtualmente ainda persiste, conferindo à vibrante Berlim, uma aura especial.

Berlim descrita compara-se a algo com várias camadas, que demoram a ser descobertas. A teoria da cebola. E a camada desportiva será a mais escondida. Existe o Hertha, mas a cidade tem mais que isso.

A crónica não começa em Berlim.

Marienplatz, Munique. 11h. A meio de uma road trip com amigos. Em 2 dias, 1500km na Alemanha. De cachecol do Union ao pescoço, postura de turista-totó-que-tira-fotos-a-tudo-o-que-mexe-com-analógica-de-brincar (na revelação um rolo de viagem todo queimado…), quem me visse, poderia gracejar que tinha cometido argolada. Daí a poucas horas, o local TSV jogaria com o Union. Mas em Berlim.

7 horas, 600km e 2 multas depois - sim, aquele flash visto na chegada a Estugarda no dia anterior, não foi de uma foto de boas vindas – chegámos a Köpenick. Para um jogo da 2.Bundesliga.

Tanta excitação – nem trancámos o carro, descobrimos após o jogo – tinha todo o seu fundamento.

O 1.FC Union Berlin ou Eisern Union, sempre teve uma toada diferente. Clube de matriz operária, na ex-RDA era tido como símbolo de oposição, contrapondo ao Dínamo de Berlim, clube da tortuosa Stasi. No Stadion An der Alten Försterei os dissidentes tinham o seu escape semanal.

Nome é literal. Estádio perto da casa da Velha Floresta. Tem acessos florestais pedonais em terra batida.

Olhando a sua degradação, num clube descapitalizado, 2300 adeptos ofereceram trabalho em 2008 para a sua recuperação. Gesto de enorme amor, numa poupança estimada em 2M€.

Um oásis na era das coloridas e assépticas arenas, das SAD’s onde o adepto é tratado como um cliente passivo. Um estádio que ficou com o seu velho marcador, como gostaria que os meus Barreiros conservassem o seu.

Como no conto Hänsel und Gretel, atraídos não por doces, mas pelo cântico que ao longe ouvíamos – por entre lama, barraquinhas de salsicha e carros de compras cheios de cerveja para venda ilegal – fomos dar às bilheteiras old school do estádio. 10€ mais 1.5€ o programa do jogo.

Sepp Maier, disse uma vez desgostado que "os alemães, organizam perfeitamente um Mundial e até esmagam a equipa mais forte com igual disciplina. Mas não têm a mínima ideia de como organizar uma festa."

Com certeza não veio a Köpenick. 7ºC negativos. 14037‎ espectadores, uma bela moldura numa 6ªfeira às 18h. Todo o estádio a cantar continuamente - FC Union, Unsere Liebe, Unsere Mannschaft, Unser Stolz, Unser Verein, Union Berlin.

Viciante. Até para mim que não domino a língua. Numa anarquia bem berlinense, naquele festival observo de tudo - contrastando com o pobre espectáculo em campo. Alemães. Turcos. Italianas. Velhos. Jovens. Operários. Punks. Anarcas. Outros nem por isso. Cerveja. Muita cerveja. Com álcool. 2.30€ o copo de 0.5 cl. Com reembolso de 1€ na entrega do copo. Todos em pé em bancadas super compactas.

Das Kult Klub na sua plenitude. Como o afamado St. Pauli. Clubes diferentes em contracultura ao reinante e homogéneo futebol pipoca. Quase românticos. O reverso de clubes sem alma como o Hoffenheim. Sem a postura “hollywoodesca” do Bayern. A eterna discussão no futebol alemão. Um clube de, com e para a massa adepta.

Cai o intervalo. Tal como no Barnabéu, Shakira não consta da playlist. Aqui oiço Basket Case de Green Day. Sorrio. Na barraca cool do clube compro por 15€ uma t-shirt. Choque cultural. Descubro que um M alemão é maior que um português.

Recomeça o jogo. Adiamos o retorno à bancada e entramos num pequeno túnel, cujo final gradeado tem vista para o relvado. Um antigo acesso preservado. Nas paredes, lápides com nomes de pessoas que já cá não estão. Adeptos e desportistas. Que coexistem numa ligação ao que decorre no relvado. Um clube idealista que preza a memória dos seus. Gosto disso.

Atestámos novamente os copos. Afinámos gargantas no nosso alemão inexistente. Em campo o TSV cresce. Minuto 88. 0-1 para os visitantes. Ouvem-se os adeptos contrários.

Ressurge a grande altura "FC Union, Unsere Liebe (…)”
A ganhar ou a perder, os adeptos estão com a equipa. Tempo ainda para mais uma cerveja. E sair com a restante turba a cantar do estádio.

Retorno à teoria da cebola. Descubro a última camada. Se tivesse que retratar Berlim numa equipa, a mesma seria o Union.

Ich bin ein berliner.

Berlim tem mesmo tudo.


[Crónica de uma ida a um jogo entre Union Berlin vs TSV 1860 München, no decurso de uma viagem que realizei no final de Fevereiro passado (Lisboa-Barcelona-Berlim-Nuremberga-Estugarda-Munique-Berlim-Lisboa). Publicado na secção "Viagens na Minha Terra" do suplemento LiV na edição de papel do jornal I do passado dia 28 de Maio de 2011]

2011-06-29

é clicar, é clicar! mais um clique, para mais uma voltinha!



Até amanhã às 12h. Sendo malta da casa (que já não escreve há imenso tempo ;) , a gerência agradece.



2011-02-05

um ano depois, eis-nos de volta ao local do crime


O PROJECTO 10 chegou ao fim com a edição do seu #10 - online desde o passado dia 26 de Dezembro -, dedicado ao tema Reconhecimento. Foi todo um ano dedicado a 10 temas - Identidade, Sagrado, Ruptura, Futebol, Pólis, Ilha, Extremismo, República, Anos 90, Reconhecimento -, retratados sob 5 perspectivas diferentes: Sociedade e Mundo, Ciências Sociais, Arquitectura e Design, Artes e Entretenimento e Espaço-Criação. Foi toda uma equipa que se juntou e reuniu cerca de 100 convidados para levar até si obras originais, opiniões e experiências. Foram crónicas, contos, música, poesia, esquissos, ilustração, entrevistas, fotografias, projectos, pintura, teatro, e cinema, coligidos num site para chegar a mais leitores.

«E porque "o PROJECTO10 é apenas isso, um projecto para 2010», nesta hora de adeus socorro-me daquelas últimas palavras do primeiro editorial - que parecem agora escritas há mil anos -, e relembro-me que «A identidade do PROJECTO10 não se resume a palavras. A estas palavras. Nem às próximas que aqui escreverei. Nem às imagens que o povoam. Nem às músicas que nele ecoam. PROJECTO10 constrói-se, como qualquer sonho, com o trabalho incansável e extraordinário de muitos. De muitos amigos. De amigos que acreditaram que era possível criar este projecto. E foi. A todos eles, um grande obrigado. Este é o vosso/nosso PROJECTO10."» in Editorial #10

Combinamos um brinde às 10?

2010-10-15

A Voz do Povo e a República. Hoje nos ecrãs, 8#PROJECTO10


...ou em alternativa, lançamento no Botequim da Graça, Largo da Graça nº79 pelas 20h.

Fica feito o convite.

10 cumprimentos
projecto10.pt






2010-10-10

Nos ecrãs no próximo dia 15.

PROJECTO10 #19 from PROJECTO10 on Vimeo.


Feito a partir de fotografias de Joshua Benoliel para a revista Ilustração Portugueza. Fonte: revistaantigaportuguesa.blogspot.com/​

A música é uma versão de Air, Suite No. 3 in D major, BWV 1068 (Air on the G String) de Johann Sebastian Bach.



2010-09-09

Apresentação 7# Projecto10.



Fica feito o convite. Hoje pelas 21.30 no Fábulas, no Chiado.


Os extremos tocam-se?

PROJECTO10 #17 from PROJECTO10 on Vimeo.




Descubram dia 9 do 9.



2010-08-17

PROJECTO10 #15 from PROJECTO10 on Vimeo.



“No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent.”

Jonh Dunne



Desde dia 5 nos ecrãs! Ilha - projecto10.pt