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2012-10-12

leituras (por João Tibério)



ele lê o jornal toda a santa-noite.
acorda cedo, naquele-cedo-que-nem-traz-sol, e lê mais uns blogs.
vai à rua e compra umas revistas. lê-as de fio-a-pavio.
passa no café e ouve as notícias da rádio. frescas como o pão da padaria em frente.
pouco depois, já no gabinete, vê o noticiário e até escuta o vox-populi. é conhecido por estar sempre informado. por conhecer todas as fontes, todos os dados, todos os pormenores.
tudo.
ele gosta disso. de ter sempre a resposta na ponta da língua.

hoje o filho perguntou-lhe: como será o amanhã?
amanhã?
não, pai. o amanhã.

silêncio.

um soco no estômago.
e uma lágrima rebelde a cair.

só sabia que não tinha resposta. só sabia que não havia futuro.


(brilhante rascunho de  João Tibério)




2012-06-27

Lonesome George



Lonesome George morreu.

Aquele que era considerado o ser mais raro do mundo morreu.

Lonesome George, uma tartaruga gigante das Galápagos, o último sobrevivente da subespécie "chelonoidis nigra abingdonii" morreu.
Ainda jovem. Com a redonda idade de 100 anos. De enfarte cardíaco. Na flor da idade, dizem os biólogos.

Pior do que isso, "Jorge Solitário" - o persona de engate que metodicamente tinha criado (dizem que as miúdas não resistem a um bom sotaque espanhol...) - morreu sozinho. Pobre Jorge.

Vindo dum sítio com Pinta, da ilha com o mesmo nome situada no arquipélago das Galápagos, muitos esforços tinham sido feitos para Jorge juntar os trapinhos. Desde há décadas que tudo e mais alguma coisa era feito. Suponho que no início com saídas a 4 com algum casal amigo. Numa fase muito mais avançada, imagino que recorrendo a agências de encontros. Ou pior, em desespero, já nos últimos anos, investigadores que se diziam amigos, oferecendo 10.000$ a quem encontrasse uma parceira compatível. Ao nível que estes supostos amigos chegaram. A oferecer dinheiro? O Jorge não precisava destas ajudas. Considerava-se viril o suficiente. Tanta pressão no rapaz... Como se não tivessem confiança no Jorge.

Houvesse ao menos algum Santo António que naturalmente valesse a George.

Esta mudança de nome não é em vão. A verdade é que Jorge na maioria das vezes era simplesmente George. O fleumático e muito british George. Muito distante. Muito senhor de si. Frio. De coração de pedra. Sem querer se imiscuir com a dita plebe.
Pese no seu íntimo, desejasse ter o "salero" de um Jorge. Ser um galã como um Jorge. Confiante. Seguro. Quente. Uma espécie de Lucky Luck do amor. Disparando e partindo corações com o seu seis balas.

Mas não. O pobre do George recusou sempre as parceiras que lhe impuseram. Suponho que por princípio. Então tem um homem um esquema já preparado e estão sempre a lhe chatear com parceiras impostas?

Não admira que o rapaz andasse sobre forte pressão e não conseguisse "manejar o pacote" - entenda-se conseguir que alguma Rosarito ou alguma Guadalupe chocasse os ovos.

Em 2008 e após muito custo lá aceitou sair com a primeira. Não era das suas, dizia com laivos de alguma xenofobia. Não o fazia por mal. Ele no fundo era bom rapaz e convém ter em conta que os silogismos de Darwin, são um quase-dogma que nunca é questionado.
No entanto e ainda que fazendo um grande frete, conseguiu gerar 13 ovos, número que talvez prevendo o insucesso e má vontade de tal cruzamento, acabou por redundar em nenhum ovo viável.

Bola. Nada. Niente.

E com Guadalupe, uma morena com carapaça violão, uma latina bem quente que já achava bem mais aprazível, novo falhanço numa segunda tentativa. 5 Disparos. Todos com pólvora seca.

Alerta, alerta! O sinal vermelho de alarme soou então na cabeça do até aí impassível George.

Agora já não era tanto uma questão de querer ou não querer. Parecia que não conseguia. E para ele passara a ser uma questão de honra. Via-se realmente sozinho.
Ansioso e porventura pressionado, George volta-se para escapes fácil. Como um Dalton, passando por zonas bem pardas. Ou melhor, mesmo escuras.
Álcool, muito álcool. Jogo, estoirando balúrdios em corridas de cavalos marinhos. E para compor o ramalhete, muitos psicotrópicos e estimulantes, que não pelo contrário não lhe melhoraram a situação, acabando por o arrastar para uma espiral ainda mais depressiva. Que em última instância acabou por fazer ceder seu frágil coração.

No entanto, creio que esta não será a forma como George gostará de ser recordado. Creio que gostaria de passar à posteridade, visto não como um Dalton, mas sim como um Lucky Luck. Um Jorge Luck. Alguém que desaparece no horizonte, sozinho é certo, mas fiel aos seus princípios. Mesmo com todos os defeitos, com a consciência que sempre viveu de acordo com o que achava justo. Levando consigo toda a honra de uma subespécie. 


"(...)I'm a poor lonesome cowboy
But it doesn't bother me
'Cause this poor lonesome cowboy
Prefers a horse for company
Got nothing against women
But I wave them all goodbye
My horse and me keep riding
We don't like being tied(...)"

 







2012-03-23

buzica


a espuma do mar há horas que banhava o cabelo desgrenhado e a barba rebelde que sobressaía da sua face queimada e matizada pelo sal e sol. aquela cadência ritmada das ondas, qual compasso de maraca num slow de bossa-nova algo manhoso, transmitiam-lhe uma sensação de paz e relaxamento que até aí não tinha experimentado.

fazia longo tempo que não sentia terra firme. o suave e relaxante granulado da areia, ele que sempre se sentiu como um grão. ele que avesso a individualidade, sempre se sentira em interacção com tantos outros iguais ali naquela praia. como que desprovido de valor ou qualidade em especial. como um átomo.

mas ao mesmo tempo, um estranho vazio o acometia. como o interior dum átomo, assunto sobre o qual as normais pessoas tendem a não pensar, tendendo a desconsiderar ou menosprezar. desconhecendo assim que nesse suposto vazio acomodam-se electrões e protões que dão ao átomo uma característica única. como que a provar, que na mais completa discrição ou homogeneidade, há sempre espaço para o diferente. para o particular. para o individual.

um respaldo de onda mais forte, fez com que abrisse os olhos.

estava numa praia. paradisíaca. em terra firme, como o seu sonho.

levantou-se lentamente. estava extenuado e farto de nadar sem rumo. farto de numa suposta quebra de rotina, acabar por ser falsamente induzido numa outra. porventura pior. porventura mais perigosa.

ainda assim, tinha forças para começar a deslocar-se.

um pé a seguir ao outro. lentamente. como que movido por uma força interior. algo seu. do seu querer. que provinha do interior que julgava vazio e seco. como que a responder às reacções e a choques dos seus electrões e dos seus protões.

após ganhar uma certa cadência, diria até mecânica, vislumbrou no meio da praia, um estranho mas atraente X gigante.

sempre fora um pouco céptico a tais veleidades beneméritas que lhe pudessem ter ocorrido. não por questão de orgulho, mas por algo que nem ele sabia explicar. afinal de contas não há almoços grátis, pensava ele. adiante.

mas achou realmente estranho o facto de estar intacto.

embora céptico, resolveu aproximar-se.

ao chegar, notou que ali estaria algo enterrado. algo escondido. com tal X gigante era impossível não pensar nisso. e como tudo o que não está à vista, logo imaginou no que poderia estar ali contido. ali debaixo de todos aqueles indistinguíveis mas suaves e relaxantes grãos de areia.

escavou.

e escavou.

com todas as suas forças escavou.
de repente deu com uma pequena caixa. ao contrário de todas as normais e robustas arcas de tesouro, esta era bem frágil. estranhou.
mas ele também não era o Barba Ruiva e aquilo também não era a ilha de Tortuga.

resolveu abri-la.

e ao contrário do imaginado, dentro não existia mil e um tesouros, mas sim um pequeno grão de areia. um pequeníssimo grão de areia. uma "buzica" de areia, carinhosamente pensou ele.

aquele não era um grão impessoal, igual a todos os outros que tinha até aí encontrado.
não.

surpreendia-o a sua elegância e a estranha sensação de conforto que transmitia. e tinha personalidade. não era um mero grão de areia, mas sim a sua "buzica" de areia.

algo que tinha o condão de dar-lhe uma resposta a muitas das suas dúvidas que até aí o acompanhavam, na exacta proporção inversa do tamanho do mesmo.

um simples grão de areia. algo que ao longe se perdia na aparente homogeneidade e rotina que era aquela praia da vida.
algo frívolo e trivial para o comum dos mortais, como um grão de areia.
porém e ao mesmo tempo com uma imensa personalidade própria.

era assim possível ser algo que, não tendo sempre de ponderar os prós e os contras, agiria quando tal fosse necessário.
não tendo algum tipo de pressão para completar grandes feitos. ou para almejar algo. algo que o reconfortava, ele que sentia uma pressão castradora que estupidamente o inibia.

daí a necessidade de apelo ao interior. e deixar que os electrões e neutrões chocassem, esperando que daí resultasse o impulso que finalmente necessitava.

a "buzica" de areia não o sabe, mas a sua presença tinha mexido com o interior do Crusoé em questão. efeito acendalha, despertando forças interiores, que até aí ele não sabia que existiam. ou melhor, que não se recordava. tinha estado seco durante muito tempo. porventura inibido.

mas fiel à sua personalidade, esta "buzica" de areia não se remeteu a um papel passivo.
também ela continha dentro dentro de si forças que a empurraram para fora das mãos do Crusoé.
ou terá sido a passividade e inabilidade natural deste último que provocou tal separação?

o certo é que esta caiu na massa impessoal do imenso banco de areia. e ainda que se destacando dos restantes, ao algo pitosga Crusoé, à distância que estava, custava-lhe encontrar a mesma.

obviamente que a uma formosa e peculiar pequena forma, seria bem fácil fazer-se destacar naquela aparente e homogénea massa de areia.

teorizo então que porventura não quereria ser encontrada por uma pessoa que mesmo contendo algumas qualidades que apreciava - pelo menos nos breves momentos que esteve em contacto com a mesma - soava-lhe instável e tão pouco crente em si.
e todos sabemos que ninguém quer ter ao seu lado alguém com falta de confiança própria.

por outro lado e para ser justo, deduzo que o calejado e extenuado Crusoé, ainda que ciente que por vezes valeria a pena arriscar, não quereria ocupar indevidamente o lugar de outra pessoa, de outro naufrago que viesse a desembocar naquela praia.
e é bem verdade que todos nós, a dada altura, nos sentimos perdidos.
mas na realidade, notamos que uns acabam por ser mais centrados que outros. reagindo assim de forma diferente. às tantas devido às tais forças interiores que já aqui falei. e pese o conforto e segurança, porventura o Crusoé tinha ainda assim medo de falhar.

mas assim esperaria que outra pessoa aparecesse e estimasse como devido, aquele pequeno, formoso e calmante grão de areia, a que carinhosamente tinha designado de "buzica".
ainda que no seu íntimo, imagino que quisesse ser ele o escolhido. como que a apelar a uma reactividade quando esta era uma época de proactividade.

lamento, mas não sei o final desta história. aliás, creio que há vários finais possíveis, mas o indesmentível é que aquela ligação e conexão existiu ou existe. gosto de pensar que como um ying e como um yang. estando juntos ou não.

igualmente indesmentível, é que por estranho que pareça, aquele pequeno e simples grão de areia, marcou para sempre aquele homem. como que a mostrar que, por vezes, existem pequenas coisas às quais nada damos importância ou de quem nada esperamos, mas que de repente podem deixar a sua marca indelével. como uma assinatura em tinta chinesa.

mostrando que no nosso interior há algo mais que vazio. estas colisões só têm é de ser direccionadas. ainda que num equilíbrio digno de um trapezista sem rede a 40 m de altura. só com este equilíbrio, só com esta conjugação de camadas, é possível exponencial todo o seu potencial.

e naquela praia, naquele dia, para aquele homem, a "buzica" de areia foi capaz de almejar tal desiderato.

2011-07-30

Braçada


imagem roubada daqui




O regular e calmo espelho de água tinha sido bruscamente interrompido.
Como um partir de corda de um violino a meio de uma sinfonia, numa qualquer orquestra clássica, desafinando uma perfeita harmonia.
As gotas e respingos de água ainda tomavam o sentido ascendente numa rápida vertigem, sem sequer tomarem em consideração, que depressa
inverteriam o percurso, como se levassem à letra o sentido de Carpe Diem, aqui numa lógica de completa ausência de futuro.

Por entre a espuma ainda esbranquiçada, ele emergia lentamente à tona, sentindo que não mais poderia voltar a pisar terra firme. Pelo menos naquele momento.

Estava no oceano. Que ao contrário dos idílicos postais e cenários paradisíacos por demais conhecidos, soava-lhe um pouco escuro e mesmo frio. Porventura seria do impacto, pensou ele, ainda antes de dar a primeira braçada.

Teria preferido sair graciosamente de terra, gizando um belo mortal com dupla pirueta encorpada à retaguarda, nota 9 como raras vezes visto nos Jogos Olímpicos, algo inúmeras e frustradas vezes - e desconhecendo um verbo para "tentar a tentativa" - tentado por si, durante a sua vivência. Algo que em si despertava uma sensação de bem estar, diria quase pueril. Aquele sorriso maroto ao emergir das águas. De rato do calhau. Aquela sensação de bem estar tão difícil de descrever.

Ao invés, aquela mesma espuma esbranquiçada denunciava isso sim, uma anomia, induzindo o caos no que antes aparentava ser harmonioso.

Pequeno parênteses. Caos provém etimologicamente do do grego "χάος" ou "khaos". Mais que significar a completa desordem e confusão, Caos teria sido a primeira divindade a aparecer no Universo, a origem de primária de todos os elementos. Como uma espécie de vácuo primordial. Contrapondo a Eros, a outra força primária, mais aprimorada, geradora do princípio da vida por meio de união dos elementos, Caos equivaleria a algo mais primitivo, significando algo como corte. Cisão. Separação. Ponto parágrafo. Retornemos à história.

O vermelhão das suas costas mostrava que o impacto desta mudança tinha sido intenso e duro. O lençol de água em seu redor rapidamente agitava-se parecendo provocar, sob forma de ondas, pequenas réplicas de choque, que definhavam lentamente à medida que cada vez se afastavam dele. Como uma ruptura feita num oceano de rotina. Desenhando pequenos círculos em seu redor.

Ele não deixou de pensar nisso quando finalmente deu a primeira e lenta braçada. Como um começar de novo.

Nunca fora um nadador excepcional em águas abertas e desconhecidas. Aliás, a sua postura típica era almejar o gracioso e pueril mergulho e rapidamente voltar a terra, num perpétuo movimento, sem nunca ter que se preocupar em enfrentar o dito desconhecido.

Como um perfeito alienígena, estava em território desconhecido, algo desconfortável por não poder voltar a porto seguro.

Com uma maior cadência temporal e tentando imprimir uma certa lógica mecanicista ao exercício, deu a segunda braçada.

"Afinal até não é mau" pensou ele, tentando por esta via aplacar o receio que tinha do desconhecido, ao mesmo tempo que tentava estimular e fazer emergir o desejo de curiosidade que a situação igualmente produzia.

2011-06-18

no âmago de um 18-06.

Li algures, perdido por entre folhas e cadernos dispersos, num sítio que agora não me ocorre, o relato escrito de alguém que observava um gato.
Sim, um simples gato. Mas não um de qualquer estirpe ou comum casta. Esquivo, com o seu andar petulante como a generalidade dos felinos, este era um gato que ao invés dos seus companheiros, transparecia que nunca iria abdicar da sua liberdade pelo conforto.

Lá se encontrava ele, altivo, sob o sol abrasador, na sua jinga que tanto era sexy como arrogante, que sobre um zinco escaldante se bambaleava, como se aquele anexo inacabado e claustrofóbico de um qualquer bairro social da periferia, fosse os largos e arejados Campos Elísios ou a sempre vibrante e cosmopolita 5ª Avenida nova-iorquina.

Indiferente aos apelos do seu dono, o gato mantinha-se impávido e sereno. O dono, outrora uma pessoa outrora vibrante e cheia de vitalidade, sempre orgulhosa de ter nascido no dia 18-06 - não me perguntem porquê, pois nem o dono sabia essa resposta - agora, com a sua voz rouca, porventura a denunciar um cansaço e um desespero próprios de quem cada vez mais acreditava menos ser possível fazer poker no jogo da vida, clamava em vão pelo gato. Este mantinha-se no seu forte, na sua autêntica torre de marfim, vincando assim toda a sua independência e mostrando assim não ter quaisquer laços atados a ninguém ou a algo. Como que marcando uma posição ou statement.

Uma liberdade que esse observador secretamente desejava, ainda que conscientemente pudesse nem ter essa percepção. Ter a oportunidade de ser aquele gato, naquele zinco, naquela hora, transportando-se assim para todo aquele imaginário de liberdade e independência. Uma fuga da habitual e monótona rotina - sempre a rotina - que, como invariavelmente acontece, muitas vezes nos acaba por induzir e prender até um ponto de quase-sufoco. A generalidade das pessoas, nem se dá conta de toda esta maquinação, tão embrenhadas que estão nessas mesmas rotinas. Mas este alguém felizmente estava. E se as rotinas são muitas vezes precisas, não é à toa que com igual importância, as rupturas são necessárias. Serão assim o intervalo entre as rotinas. Como autênticos escapes. Ponto final. Muda parágrafo.

Imaginemos que o dono do gato, tinha igualmente um cão. Que como todos os canídeos era fiel e leal. Até ao tutano. Ainda que diferentes, os mais variados laços juntavam cão e gato, como que completando-se numa estranha e talvez contranatura sinergia - pelo menos aos olhos de alguns - qual yin yang. Ou neste caso como Oddie e Garfield.

Se esse alguém olhasse o cão, certamente o catalogaria de de sisudo e obtuso. Afinal de contas era reactivo. Quase pedindo desculpa por qualquer latido solto fora contexto. Um ser que respondia aos estímulos do agora frágil dono, não ousando sequer o enfrentar, ainda que secretamente por vezes assim o desejasse. Por uma questão de respeito.

Mas acreditemos, por momentos, que esta visão estava toldada pelo sufoco sentido por esse observador. Afinal de contas o cão, também teria o seu lado rebelde. Solto, como um cão na pradaria - não confundir com um cão da pradaria que na realidade é um roedor. Que se esconde em túneis. Este pelo contrário, preferia enfrentar as coisas de frente. E admirava acima de tudo frontalidade. Ainda que tendo postura diferente do gato, acabava por ser em tudo muito semelhante a este, ao mesmo tempo que o admirava, buscando inspiração neste, numa estranha e porventura disfuncional relação pupilo-mestre - isso sim nada saudável.

Mas àquela distância, comparado com o vibrante e atrevido gato, o cão na sua fidelidade e lealdade inquestionáveis, parecia um mórmon no meio de um Mardi Gras. Um Luís Filipe num plantel do Benfica. Algo tão mais ou menos. Sem o "salero" necessário. Sem a atitude sexy que sempre se quer e deseja - ainda que muitas vezes seja meramente uma miragem e uma projecção do que realmente almejávamos ser. Um ser que realmente poderia dar asas à sua imaginação. Como o observador desejava.

Compliquemos ainda mais a história. Nova linha narrativa na história - uma mais. Imaginemos que o dito dono morria. Pese tão parecidos, o elo de relação entre o gato e cão desaparecia. Após uma saída extemporânea do gato, o frágil dono tinha sucumbido.
Mayhem. Terramoto de 1755. Inferno de Dante elevado ao cubo. O mundo caia sobre a cabeça do cão como uma maçã caíra sobre a cabeça de Newton.

A analogia não é inocente. Aliás nada neste texto é. Ou talvez não. Adiante. Tudo tem um sentido. E simplesmente há coisas que porventura tinham de acontecer. Como uma básica lei da vida. Como a lei da gravidade que de tão óbvia nem a questionamos. Pese para mim seja positivo a existência de sentido crítico a leis dadas como imutáveis.

O cão numa primeira fase tudo tinha lutado para que o gato ficasse junto de si. Mas as coisas já não estariam destinadas a tal. Faltava a ligação. Ainda que céptico a esoterismos relacionados com predefinições de destino, o cão no seu interior sabia que o desejo de liberdade do gato era mais forte. E admirava e respeitava imenso isso. Assim como toda a frontalidade como a situação se desenrolou.
Como previsto, o gato esse seguiu o seu caminho. Corajoso, fez uma escolha que poucos fariam. Para gáudio do cão, que mesmo sentido, no interior não deixava de invejar a coragem e confiança mostrada. Preferiu o desconhecido ao conhecido.

O cão esse, às tantas vagabundeou um pouco por aí, como antes já o tinha feito, ele que fora recolhido pelo dono. Nada a que já não estivesse acostumado antes de conhecer o gato. Sempre tivera uma queda para o drama. Algo que a relação agora desfeita o tinha ajudado a minorar. Urgia corrigir novo desequilíbrio. Algo que um L Casei Imunitass chamado tempo iria provavelmente curar e repor. Como um lastro que após uma tormenta, ajuda lentamente a estabilizar um barco - algo que provavelmente ainda não estará realizado.

No entanto, o cão sabia que a ligação era especial. E sabia que mesmo na sua aparente deriva libertária, o gato estaria sempre ali para ele, assim como ele mesmo estaria ali para o gato. Não era à toa que gostava tanto do gato.

Algo imperceptível para a esmagadora maioria dos outros, fossem eles gatos, cães, canários, ratos, papagaios ou peixes. Era algo que apenas ele e o gato sabiam que existia. Algo que estaria sempre personificado no dia 18-06.

Regressemos ao observador-escritor de onde retirei a história inicial. Não sei que sentido daria a esta história. Aliás, não sei se sequer se revê em algum destes papéis, ele que naquela altura, naquele local, quereria ser o gato. Mas pressupondo que sim, espero que tenha conseguido sair do sufoco e que tenha abandonado as rotinas que às tantas o aprisionavam. Segundo o meu gato, prevendo que seja como o mesmo, com certeza conseguirá chegar e alcançar tudo aquilo que se propõe. Terá as qualidades inatas para tal. Não é à toa que era especial o gato. Assim como certamente terá sempre um cão, que estará sempre a velar por si. Poderá estar mais ou menos atormentado (por razões que às tantas nem se deverão ao gato), mas estará sempre a zelar pelo dito gato. Mesmo sabendo que o tempo não pode voltar atrás - na esmagadora maioria das vezes o mais acertado e sensato. Tal como a lei da gravidade que quase nunca é questionada.

Mas esse 18-06 existe e permanece. O cão agradece essa recordação, pois representa muito mais que que uma simples ligação. Chega assim ao âmago da data em questão. Assim como certamente gosta de pensar que do outro lado, o gato também sentirá o mesmo.