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2012-12-17

RTP



Hoje deparei-me com algo que considero um pouco surreal.

No final do Zoom África, programa informativo da RTP dedicado ao continente africano, em especial aos países lusófonos, ao efectuarem a revista de imprensa diária, ao focarem a página "online" do Jornal de Angola,

deparamo-nos com esta notícia em grande destaque no ecrã - um grande título: "PORTUGAL PARAÍSO DE PEDÓFILOS" (algo quase impossível de fugir no enquadramento de imagem).
Face a isto, o que aconteceu é que a "pivot" simplesmente ignorou esse grande destaque (quase constrangida, tentando de forma inglória fugir a tal chamada de atenção), dando relevância a outras notícias que estavam em rodapé.

Claro que não vou discutir critérios de escolha ou de qualidade informativa da própria estação.
Mas tendo em conta todo o contexto que a empresa vive, sendo um orgão informativo público que aparentemente irá ser alienado, havendo uma intenção já firmada de aquisição (de parte?!?) da RTP por um grupo luso-angolano baseado numa (obscura) off-shore no Panamá.
Tendo em conta os sucessivos editoriais bem baixos que pessoalmente qualificaria de "ressabiados" (feitos quase sempre numa lógica de "vendetta"), não me surpreende que o título desta notícia esteja ao nível de um pasquim qualquer, o que obviamente aceito e não é a razão pela qual escrevo aqui.

Irrita-me muito mais esta espécie de auto-censura por parte da RTP, no que interpreto como uma tentativa em não querer causar qualquer tipo de fricção com um possível comprador - que segundo e crê, tem boas relações com o Estado angolano, do qual o Jornal de Angola é o órgão oficial.

Fazendo novamente a ressalva que a RTP é soberana no seu critério jornalístico, não deixo de comentar que a mesma, se enveredar por um caminho onde tenta fugir a focos de clara fricção com futuros compradores, ao persistir nesta espécie de auto-censura, presta um muito mau serviço ao país. Para além de suscitar dúvida sobre a independência do seu serviço informativo. Espero sinceramente que não tenha sido este o caso.

Já agora sobre a notícia em questão. À parte de considerações na matéria em questão, acho engraçado quando o Jornal de Angola, se "arvora" em paladino da luta contra a desigualdade.

Eis excertos da notícia.

"(...)Desde 2008 que milhares de crianças são abusadas na maior das impunidades, o que faz de Portugal um verdadeiro paraíso para os pedófilos(...)A crise em Portugal atirou com centenas de milhares de famílias para a pobreza extrema. O país é hoje o mais desigual da União Europeia. As medidas de protecção à infância não funcionam ou simplesmente são ignoradas pelos poderes públicos. Por isso aumentam diariamente os casos de abusos sexuais e maus-tratos de menores."

(in Jornal de Angola)

2012-07-13

o problema não é a relva.



"o problema não é a relva. são as ervas daninhas que se tornaram tão frequentes que já são moda."

ler texto completo aqui

2012-04-11

the independent diplomat














Is the top-down diplomacy the best way of solving world major problems?
Carne Ross, with his personal experience, explains why he doesn't agree with that premise.

Read also this article (link)

the author has also written "The Leaderless Revolution: how ordinary people will take power and change politics in the 21st century." available here

2012-01-27

Jogar ao faz de conta.

make believe game @ friendly atheist



Artigo 41.º
Liberdade de consciência, de religião e de culto
(...)
4. As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.
(...)



Sem negar a herança cultural e a preponderância que a Igreja Católica tem na sociedade portuguesa, não é o nosso país um que à semelhança de tantos outros na Europa Ocidental, se auto-define como laico e não confessional?

Assim sendo, se há que cortar feriados - medida que na verdade é terá uma eficácia e uma vantagens económica algo dúbia - o lógico seria cortar alguns do feriados de índole confessional que existem no calendário. Pensei eu. Mas não.

Porquê manter feriados religiosos como o dia da Assunção, o dia do Corpo de Deus ou o dia de Nossa Senhora da Conceição? Designações que ditas desta forma nem são perceptíveis pela maioria dos cidadãos, isto se não associar o 15 de Agosto, uma 5ªfeira normalmente em Junho ou o 8 de Dezembro - o que indicia o quão irrelevantes eles significam nos dias de hoje.

Mas o pior nem é esta situação.

Ponderarem a retirada do feriado da implantação da República e o feriado onde se comemora a Restauração da independência nacional, duas datas emblemáticas e estruturantes do próprio conceito de nacionalidade e do próprio regime em si é a pedra de toque que faltava em todo este processo.

Quando o próprio regime não estima nem cuida da sua própria memória e do seu passado, isso transparece um sinal nada abonatório, que em última instância faz pressupor que o seu futuro não será nada risonho.

Olhando à actual situação, já nada me surpreende.

the winner take all politics


America's increasing inequality just happened naturally or it's been politically engineered during the last thirty years?

The evidence is hard to dispute. Those in the very top - 1% society whealthiest - have been better and better with an increase of 256% in income gains comparing with 1970's statistics for the same group. In oposition the other groups grew much slower - only an average of only 10 to 20%. Many times with the complacency of the government.

The same is true in Portugal, the most unequal country in Western Europe, with a government that has adopted policies that only hasten this inequality.

A more egalitarian and democratic world is only possible with a more equality society. Because better social relations are built of this material foundation.


For more information about the subject, i also recommend reading the book "The Spirit Level".

2011-06-26

Rasgo




Intro em Lá maior. Dó menor. Dó menor. Mi menor. Mi menor. Sol menor. Sol menor. Mi maior. Mi maior. Dó maior. Dó maior.

As primeira notas de Danúbio Azul. A música que melhor define a Valsa. Ou melhor. Aquilo que a esmagadora maioria das pessoas associaria a este género musical. Até para mim, um completo leigo na matéria. Gizada do génio de Johann Strauss II. Uma pessoa de rasgo. De vida cheia de acasos e ocasos. Com glória. Com depressões e esgotamentos. De posições políticas bem vincadas. Uma pessoa bem controversa ao seu tempo.

Valsa, a erudita e ritmada valsa. De compasso binário composto. A sublime e muito nobre Valsa. Inspirada em simples danças campestres alemãs e austríacas, que provindo de contextos e meios sociais mais baixos, depressa se tornou objecto de culto entre as elites, em especial na ainda púdica Viena dos séc. XVIII e XIX. Como alguém que sobe a pulso, aqui na hierarquia dos géneros musicais.

Javier Marías, numa frase tantas vezes citada, escreveu uma vez que o "futebol é a recuperação semanal da infância". Nada mais correcto.

Numa das primeiras memórias televisivas que tenho, na saudosa RTP-Madeira, num tempo ainda jurássico com apenas um canal - que começava a meio da tarde - recordo um curto clip de vídeo. De futebol. Em slow motion. Ao som de Danúbio Azul de Strauss. Que passava nos intervalos de jogos e eventos desportivos, porventura colmatando a ausência de publicidade. Memórias de um tempos em que ainda havia espaço para estes escapes, algo que a posterior "eucaliptação" publicitária acabou por asfixiar. Adiante.

Recordo uma imagem de forte contraste e imensa luz. Um enorme relvado. No centro uma enorme sombra, sobre o meio campo, como que um religioso presságio ou profecia, introduzia elementos que nos preparavam para o milagre que iria acontecer. Como pano sonoro de fundo, a valsa de Strauss conferindo o devido sentido épico ao momento.

Convém desde já esclarecer que o termo valsa provém do alemão Walzen, que em tradução livre significa girar ou deslizar. Dar voltas.

Quartos de final do México'86. Estádio Azteca, na capital mexicana. Epicentro de um encontro que se adivinhava quente e destrutivo. Um Argentina vs Inglaterra, tal e qual o forte terramoto ocorrido no México um mês antes. O primeiro encontro entre as selecções dos dois países, desde a disputa sobre as ilhas Malvinas. Ou chamar-se-ao Falkland?




Intro em Héctor Enrique. Um toque na bola. Passa Peter Beardsley com rápido toque para outro pé. Finta de corpo e terceiro toque passando Peter Reid. Quarto toque. Quinto toque. Golpe de anca. Passa "Terry" Butcher ao sexto toque. Sétimo toque. Finta Terry" Fenwick. flexão para direita. Oitavo toque entre "Terry" Butcher e saída de Peter Shilton. Nono toque. Entrada de "Terry" Butcher. Baliza aberta. Golo.

Há 25 anos, amparada e quem sabe, abençoada por uma prévia Mão de Deus, outro momento Justificar completamentesublime foi composto. Uma nova composição musical acabava de ser criada. Chamaram-lhe "O Golo do Século". Pelo maestro Maradona, o pobre miúdo de Vila Fiorito. O inconstante e politicamente incorrecto Maradona. Pessoa capaz do melhor e do pior. Uma pessoa cujo nome equivale quase sempre a controvérsia. Uma pessoa que sempre viveu no limite. Naquele relvado, como de uma pauta musical se tratasse, compõe um sublime momento de arte. Um rasgo de criatividade apenas possível a poucos predestinados. Aos maiores. Como Strauss. Naquele relvado, deslizando e girando por entre adversários, Maradona como que cria a sua própria escala musical entregando uma peça de arte para a posteridade.

A partir daquele momento, Futebol - sim, com F maiúsculo - equivalia àquele golo de Maradona. Fosse ali no gigante estádio Azteca, fosse no pequeno beco junto à minha casa, onde se tentava a muito custo transpor, para aquele bocado de alcatrão e cimento, toda a magia que ocorreu naquele 22 de Junho de 1986.

A partir daquele momento, aquele golo de Maradona, passou a ser algo mais que uma mera obra-prima. Se por um lado, contém todo o génio e talento que apenas está ao alcance de alguns escolhidos, por outro lado, o mesmo irrompe no humano e imperfeito Maradona. Egocêntrico até. Capaz da maior gargalhada. Capaz de verter lágrimas. Como que mostrando que há uma camada interior cheia de criatividade. Em permanente combustão. O chamado rasgo. Algo difícil de encontrar. Que no caso de Maradona se manifestou no Futebol. Daí e por tudo o que representa, ele será o maior.

OK. Temos o quase extraterrestre Messi - que nasceu um ano e dois depois deste feito. O imperturbável e pacato Messi. De quem se desconhece grandes desvairos ou incongruências. Alguém atípico. Sem o "salero" mediático que se exige aos predestinados. Embora ele seja um deles.
Que alimenta e alimenta-se do autêntico Deep Blue futebolístico que é este Barça. Algo que nem o génio do igualmente humano e imperfeito José Mourinho, parece contrariar. Mas para mim e numa típica comparação entre o El Pibe e a La Pulga faltará sempre algo mais. O tal lado imperfeito. Faltará igualmente conseguir comandar a Argentina a algo grande. Até porque aquele Nápoles não é este Barcelona. Ou fazer aquela brutalidade nuns quartos de final de um campeonato do mundo, num jogo com aquela carga emotiva contra a Inglaterra, não é o mesmo que fazer igualmente magia, numa meia final da Taça do Rei contra o Getafe. Aos que não crêem, e citando o maior "que la chupen, y que la sigan chupando". Mas estas são outras conversas que agora não interessam.

Aquele foi igualmente o dia da vingança argentina. Qualquer argentino diria que se justiça divina houvesse, a mesma teria acontecido. Ali naquele relvado. Onde se jogava mais que um simples encontro de futebol, pese os intervenientes negassem isso. Ali, Maradona, assumia o papel de marechal guiando as suas operárias tropas à conquista de um segundo título mundial. Numa equipa orgulhosamente só. Para gaúdio popular de um depauperado país. Um ligeiro e efémero conforto, na altura dura realidade argentina. Mas com toda lisura desportiva possível, sem as trapaças do ocorrido no vergonhoso Argentina'78. Digo possível, porque minutos antes, a mão de Deus fora nas palavras de Robson meramente a mão de um patife. Creio que o termo correcto foi "the hand of a rascal".
Mas por vezes "os fins justificam os meios" diria sem qualquer pejo qualquer Sun Tzu, Maquiavel, Lenine ou mesmo algum Kissinger de pacotilha. A história igualmente encobre estas falhas. Chamam-lhe realidade. E os patifes e as patifarias por vezes são necessárias. Em nome de um bem maior. Algo que é reconhecido, mesmo por idealistas convictos. Adiante.

Gostaria de ter começado estas linhas, escrevendo que tinha presenciado in loco aquele fantástico jogo e em especial aquele momento. Que tinha sido um dos 107.000 espectadores presentes naquela autêntica sagração de um mito.
Mas não.Tomei o primeiro contacto com aquele vídeo alguns anos depois. Mas pese essa distância, passou a estar na minha memória como algo que nunca mais esquecerei. Minha e de outros amigos meus. Companheiros de longas tardes de futebol, que se prolongavam até ao raiar da luz. Todos na ânsia de interpretar aquela pauta e aquela composição feita naquele dia, no estádio Azteca. A tentar imitar o inimitável. A pretender alcançar aquele patamar. Ao dito rasgo criativo. A tentar ser um Strauss. Um predestinado.

Acredito piamente que todos, temos em nós contido este rasgo. Mas a esmagadora maioria das pessoas nunca chega a descobrir ou explorar o mesmo. Imposição da rotina, sempre a rotina dirão alguns. Outros por desconhecimento da área a investir - muitos dedicam-se numa eterna busca, muitas vezes em vão. Outros ainda por pouca capacidade de motivação-barra-trabalho.

Mas esta busca, deve a meu ver, ser permanente. Não por qualquer mania ou fixação na "especialização" - algo que abomino um pouco, mas por uma questão de bem estar que daí se gera. Na alegria que se via na cara de Maradona quando tinha a bola. E já agora na de Messi - que só aí deixa cair a sua máscara de "imperturbável".

A melhor prenda que recebi este Natal foi uma placa com a dita jogada - embora o habitual par de peúgas dado pela minha tia tenha sempre um lugar especial. De uma grande revista chamada "11 Freunde". Onze amigos. Como se uma partitura tratasse. Uma Valsa. Talvez o Danúbio Azul. Que me remete para a minha infância e para aquelas tardes. Como que a recordar que todos nós temos um rasgo escondido dentro nós, à espera de ser explorado.

Poderemos não ser predestinados. Não se pretende isso. Mas essa busca deve ser explorada e incentivada. Método tentativa-erro. O rasgo existe e por vezes merece que seja conhecido. E visto. Seja em que área for. Aquela jogada, naquela quente tarde em Junho de 86 vem precisamente comprovar isso mesmo.

2011-06-17

aganaktismenoi


"(...)This is democracy in action. The views of the unemployed and the university professor are given equal time, discussed with equal vigour and put to the vote for adoption. The outraged have reclaimed the square from commercial activities and transformed it into a real space of public interaction. The usual late-evening TV viewing time has instead become a time for being with others and discussing the common good. If democracy is the power of the "demos", in other words the rule of those who have no particular qualification for ruling, whether of wealth, power or knowledge, this is the closest we have come to democratic practice in recent European history.

Syntagma's highly articulate debates have discredited the banal mantra that most issues of public policy are too technical for ordinary people and must be left to experts. The realisation that the demos has more collective nous than any leader, a constitutive belief of the classical agora, is now returning to Athens. The outraged have shown that parliamentary democracy must be supplemented with its more direct version. It is a timely reminder as the belief in political representation is coming under pressure throughout Europe (...)"

Costas Douzinas in Guardian

Ler artigo completo aqui.


2010-12-22

Invertendo o ângulo



reverse graffiti - retirado daqui


Se continuarmos a olhar a política como o palco de uns tais "eles" - em vez do lugar de um "nós" onde caibam todos -, não há mudança possível.
Sim: seremos cúmplices da crise se sob as desculpas habituais de "eles são todos iguais", "isto não há volta a dar-lhe", "é só cada um por si", acabarmos por encolher os ombros, ficar em casa, não escolher.


Jacinto Lucas Pires
Público 21.12.2010 p.37



2010-09-21

O Síndrome de Estocolmo II



(continuação)


Tony Judt, eminente historiador recentemente falecido em Agosto passado, no seu último livro "Ill Fares the Land" [a ser editado em português pela Editora 70 no último trimestre do ano - em inglês já disponível no país] tentava alertar precisamente para esta questão, sugerindo uma defesa radical da social-democracia e do estado previdência por parte das novas gerações. Para o mesmo, ideias de pertença em comunidade e a existência de mecanismos de solidariedade, sustentáculo baluarte do modelo social europeu e indutores de maior igualdade em termos societais, tinham sido progressivamente destituídos por uma crescente individualização que acabou por gerar uma maior desigualdade, redundando numa maior sensação de insegurança e medo. Com isso, quebrou-se um ciclo virtuoso que o mundo ocidental viveu até meados da década de 70.

Obviamente, Judt defende um modelo mais igualitário, sem que no entanto belisque a liberdade individual [apoiando-se largamente em muitos estudos efectuados em países da OCDE sobre igualdade do livro "The Spirit Level - Why Equality is Better for Everyone" de Richard Wilkinson e Kate Pickett]. Mas a ideia de Estado enquanto actor central da vida colectiva, intervencionista, mas nada totalitário, à semelhança do New Deal ou do sistema alemão, é algo que o autor assume como necessário. Para o mesmo, em contextos de maior depressão económica, o Estado pode constituir a última membrana de protecção para o indivíduo.


Daí a necessidade de identificar as causas que levaram a esta erosão. Daí a necessidade de recuperar argumentos que rebatam uma visão estritamente economicista da sociedade. Daí a necessidade de recuperar um certo argumentário que se julgava perdido para contrapor ao discurso imperante nos últimos anos. Judt e a sua geração, acabam por ter sido os grande beneficiários de todos estes ganhos, sendo igualmente legítimo referir que muito provavelmente a minha geração, será a primeira que viverá tendencialmente pior que os seus pais.


Hoje em dia, todos estes conceitos têm sido postos em causa. A forte desregulação de mercados e a crescente erosão do poder dos Estados face a outras entidades económicas, é deveras real e em parte explica toda esta situação.



Face à falência dos sistemas de previdência, olhando às condições e premissas sobre os quais foram criados, urge incentivar uma rápida reflexão sobre o caminho a seguir, procurando preservar as boas valências do mesmo. Ainda que os sistemas sejam diferentes de país para país - devido a contextos histórico sócio-culturais, o debate acaba por ser o mesmo seja na Suécia, seja em França onde as greves ocorrem - com reivindicações que muito provavelmente não farão sentido- seja no nosso país, onde em minha opinião um projecto de revisão constitucional desvirtua o princípio de igualdade e livres condições de acesso a bens para a devida realização pessoal, que o Estado deveria facultar. É verdade que o nosso estado previdência não é perfeito, não está isento de falhas, nem é de longe sustentável. Mas foram inegáveis as suas conquistas. Assim como faz todo o sentido, num dos países mais desiguais da Europa Ocidental, repensar o mesmo.

Ainda que tendencialmente torça o nariz às propostas apresentadas - que supostamente não "acabarão" com o Estado Previdência, mas na prática todos já estão a ver que levarão a um consequente sub-investimento no sector público, em prol do sector privado, e aqui é uma questão ética: aos privados, por muito boa vontade que possuam, movem-se por uma questão de lucro; ao Estado deve mover a prossecução e defesa do interesse público e dos seus cidadãos - saúdo ainda assim o levantar da questão. Isto porque obriga que o outro lado possa recuperar o seu argumentário. E obriga a um repensar de um modelo que é neste momento manifestamente insustentável nestes moldes.



[publicado em simultâneo no blogprojecto10]


O Síndrome de Estocolmo I


foto: Márcio Barcelos (aka bob)


O Síndrome de Estocolmo é o nome dado a um estado psicológico particular desenvolvido por pessoas que são vítimas de raptos, manifestando-se normalmente por uma simpatia ou tentativas da vítima em se identificar com o raptor.

Tendo estado no poder na Suécia em 65 anos, nos últimos 78 anos, os sociais democratas sofreram uma segunda derrota consecutiva pela primeira vez desde a década de 30. Tido frequentemente pela esquerda como o país modelo do Estado Providência, a derrota da coligação que integrava os sociais-democratas, tidos como os guardiãs deste modelo, suscitou várias reacções e interrogações dos mais variados quadrantes, havendo quem já indique que este é meramente um indício do fim de uma era, vislumbrando alguns o fim do chamado Modelo Social Europeu.

Baseando o modelo numa elevada carga fiscal, sustentando um sistema proactivo com serviços públicos de excelência que acompanham o cidadão durante toda a sua vida [o chamado "from cradle to grave"], este país, através da acção em espacial do antigo primeiro ministro Olaf Palme, combinou este sistema com uma economia de mercado bem liberalizada.

Poderia efectuar uma contextualização histórica mais extensa, afinal de contas, todo este processo foi gradual e a própria criação e maturação do modelo assentou na adopção precoce de medidas de previdência, algo aceite por ambos os lados do espectro político, assim como a existência de uma estreita relação entre uma forte sindicalização da população e a adopção de vias dialogantes com o poder vigente, redundando num modelo societal com altos níveis de solidariedade e senso de comunidade, mas importa reter que neste momento a Suécia é o país do mundo com a maior taxa de população que é possuidora de acções - cerca de 25%. Mais, se adicionarmos a propriedade de algum fundo de investimento ou de pensões, esta taxa dispara para os 80% da população.

Daí que o título deste texto - que retirei do editorial desta segunda feira no Guardian - faça todo o sentido. Num modelo altamente protector, mas dispendioso, e com uma economia de mercado altamente liberalizada, a população sueca, que pelos padrões acima pode-se considerar abastada, acabou por ficar com pulsões mais individualistas e Torbjörn Nilsson, jornalista do semanário sueco Fokus, num artigo antes das eleições, prevendo uma vitória do bloco de centro-direita, questiona-se se "será que o conceito de ética no trabalho [tão afecto ao modelo anglo-saxónico] se sobrepôs ao da igualdade solidária?".

Esta poderia ser uma leitura algo simplista - afinal de contas há mais factores que ajudam a explicar a derrota dos sociais-democratas suecos, entre os quais um primeiro mandato do bloco de centro-direita que pouco ou nada mudou o modelo social vigente, quer a capitalização do descontentamento de franjas da população face ao desemprego crescente, num país onde 14% da população é imigrante, explicando assim a rápida subida da extrema-direita dos Democratas da Suécia - mas levanta-nos uma série de questões, que remetem-nos em alturas de crise, para o questionar da própria sustentabilidade económica de sistemas solidários de previdência como os europeus - que entre si já são algo díspares, isto numa altura em que as condições demográficas e económicas que os proporcionaram se alteraram radicalmente. Que reformulações e adaptações possíveis sem que se perca este vínculo comunitário?


(continua)


[publicado em simultâneo no blogprojecto10]



2010-06-24

Os putos já estão condenados.


"These kid's don't known they're working class; they won't known that until they leave school and realize that that the dreams they've nurtered throught childhood can't come true."


The Spirit Level - Why Equality is Better for Everyone (Wilkinson & Pickett) Penguin Books pp.117


Ironia como num raio de 200 metros numa das zonas de maior expansão imobiliária de Lisboa, temos um dos colégios mais selectos do país - segundo consta, a lista de admissão é praticamente impenetrável - temos uma escola pública num bairro degradado, com parcas condições para não dizer deploráveis, e no meio, entre as duas numa mera distância de menos de 100 metros, temos com um antigo armazém degradado que serve de abrigo a toxicodependentes que ali livremente se deslocam e pernoitam, havendo pouca ajuda disponível (pelo menos a nível visível) para reabilitá-los. Isto acontece em plena Lisboa (não vou nomear o sítio), mas poderia acontecer em qualquer parte do país.

Estive hoje na tal escola do bairro carenciado, pese toda a disponibilidade e boa vontade evidenciada pelos auxiliares e membros de ATL, ao olhar para aquelas crianças e ao ver aos seus pais, a primeira ideia que me ocorreu foi precisamente o título que pontua este texto.

O contexto social, a disponibilidade financeira dos pais, o grau de confiança existente na comunidade onde a criança interage e os estímulos que a mesma recebe, são tudo factores que influem no desenvolvimento das crianças, tendo um real impacto nas sua vidas adultas.

Sociedade altamente desiguais como a nossa, apenas estimulam e agravam estas disparidades, contruíndo uma abstracção de sociedade onde uma parte vive numa espécie de redoma de vidro longe de todas as adversidades, dentro dos seus condomínios e uma outra parte vive em quase estado de sítio, em contextos onde a confiança e segurança não abundam, repercutindo-se isso numa espécie de ciclo vicioso que afecta todos os aspectos da vida, afectando e quebrando os naturais e solidários laços que uma saudável sociedade deve possuir.

Um pensamento a ter em conta, quando num contexto de crise, são propagados argumentos populistas e demagógicos, como cortes em programas estatais no campo da assistência e na correcção de assimetrias existentes, numa pura lógica economicista sem olhar aos efeitos que tal medidas faria.

O ataque às consequência e não às causas, como p.e. os argumentos securitária e autoritários muitas vezes implicam, é outra característica da opção por lógicas suicidas a curto-prazo que nada farão se o problema não for abordado na sua raiz e numa lógica a longo-prazo.

Até porque as consequências advindas de uma sociedade mais desigual, não só afectaram os estratos mais baixos dessa mesma comunidade, como afectaram todos os outros, diminuindo a qualidade de vida, tornando menos solidária e confiante toda a sociedade (mais desconfiada e menos altruísta) e tornando em última instância, mais onerosa para o Estado a manutenção de certas operações vistas como essenciais (segurança, custos com saúde, etc.).

A redução desta disparidades, deveria ser assim vista como prioridade máxima.

Assim de repente, depois deste texto e sabendo-se as terríveis disparidades no nosso país - assim como a lógica adoptada, afinal de contas não constituirá assim tão grande ironia a existência destas contradições num curto raio de espaço. Isso é algo que uma grande parte da nossa classe dirigente ainda não se deu conta. Fazia bem saírem da redoma de vidro de vez em quando.



2010-06-23

os limites de RP

imagem daqui


"Há 522 anos, Bartolomeu Dias conseguiu, pela primeira vez, ultrapassar o Cabo das Tormentas, demonstrando que era possível ultrapassar o extremo Sul de África por mar, apesar de muitas tempestades e perigos.
O nome foi mudado para Cabo da Boa Esperança e é esta esperança que hoje, quase sete séculos depois, vocês vão continuar a alimentar. Na mesma cidade, apesar de todas as dificuldades e perigos, contra ventos e marés, vocês conseguirão manter bem vivo o sonho português, conseguirão dobrar todas as tormentas. E eu estarei aqui, tão longe e tão perto, a torcer, a vibrar e a festejar com vocês.
Hoje, todo o Mundo perceberá quem são os guerreiros nacionais."

Jornal A Bola, 22-06-10 pp.10


Esta é uma suposta nota de incentivo enviada por Nani aos seus colegas antes do jogo com Coreia do Norte, lida hoje n'A Bola. Depois de ter lido numa entrevista - feita por email com o Público - onde entre muitas coisas, Cristiano Ronaldo compreendia o aumento de impostos por parte do Governo, não era contra o casamento homossexual ou verificar que o mesmo tem uma concepção igualitária da sociedade, tendo todos os cidadãos os mesmos direitos e deveres, eis Nani a nos brindar, com todos os seus conhecimentos de história, uma interessante e erudita nota de motivação aos seus colegas.

Confesso que tenho muito apreço pelas capacidades dos jogadores em causa e certamente nada invalida que os jogadores em causa não possam ter tais pensamentos, mas olhando ao escrito, alguém acredita que tenham sido os mesmos a redigir tais respostas ou notas? É que as demonstrações públicas dos mesmos foram no sentido contrário - vide a futilidade e deserto de opiniões, como o mostrado em programas [intragáveis] como os Incríveis.

Nada invalida que possa haver alguém com dois dedos de testa [quero vivamente acreditar que existe], debaixo do habitual protótipo: jogador com a beldade da semana, carro de alta cilindrada, a roupa parola da moda, as experiências capilares e a irreverente tatuagem. Mas também é certo que numa era onde a informação circula a nível cada vez mais rápido e profundo, onde os jogadores estão cada vez mais expostos, há limites para o RP e para a assessoria de imagem. É que em última instância, a própria imagem do jogador acaba por sair lesada.

2010-04-09

A descoloração revolucionária


imagem galeria Zé Dos Bois@Bairro Alto, Lisboa


Depois da falência e cisão entre os principais intervenientes da revolução laranja na Ucrânia, dos tiques nada democráticos mostrados pelos vencedores da revolução rosa na Geórgia, uma súbita anomia e anarquia acontece no Quirguistão* depondo a elite instituída pela revolução túlipa em 2005.

Recorde-se que todas estas revoluções foram assim designadas, numa óptica de não violência, como movimentos que espalhariam e trariam liberdade, democratização e efectiva luta contra a corrupção e nepotismos existentes, na senda do acontecido em 1989 com a revolução de veludo, na antiga Checoslováquia.

Ainda que fosse fácil prever este desfecho, olhando ao contexto vizinho onde o país se insere, com a deposição da elite estabelecida pela anterior revolução - devido aos mesmos motivos - pode-se questionar se não houve uma súbita descoloração democrática que afligiu a zona. Mas fará sentido pensarmos em democracia nos moldes ocidentais, quando os valores histórico-culturais do país e na zona tendencialmente os negam? Será a democracia liberal - ou seja que pressupõe um respeito mínimo pelas minorias e oposições - um valor essencialmente ocidental ou fará sentido considerá-lo um valor universal como muitas vezes assim o é retratado? Fará e trará o intrincado mosaico geopolítico alguma estabilidade à zona?


* Curiosamente o nome Quirguistão significa 40 tribos (na sua bandeira o sol representado tem 40 raios), unificadas por Manas na luta contra os calmucos, cuja história é contada no épico de Manas, o poema tradicional quirguize que data do séc. XV e tem mais de 500.000 versos. Dadas as inúmeras facções e grupos étnicos existentes no país - embora a influência turca seja imensa - acaba por ser um interessante paralelismo face à actual situação vivida.

2010-03-05

num elogio (d)à Loucura



"(...)Alberto João Jardim disse ainda que defendeu a realização deste congresso por achar "que é preciso o PSD esclarecer muita coisa sobre a sua natureza: é um partido de esquerda, de centro ou de direita? Temos de esclarecer, para mim é de centro. É uma social democracia de tendência socialista, como as nórdicas, ou é de tendência de centro de raiz mais social cristã baseada no personalismo da doutrina social de Igreja católica? Federalista europeu ou de primado nacional? Quer a regionalização do continente ou não? Aceita maior autonomia para Açores e Madeira? Admite rever a Constituição ou quer ser situacionista? Estas questões têm de ser discutidas dentro do PSD, porque a confusão que vai dentro do partido sob o ponto de vista doutrinário é total”.

in público.pt

Num dos raros momentos de concordância (dado o meu distanciamento ideológico), torna-se engraçado constatar que Jardim, muitas vezes catalogado (e com razão) de desbocado e inconsequente pelos seus próprios pares partidários, acaba por ser dos poucos que diz que há muito era visível: mais que discutir líderes, sem uma definição ideológica, o PSD nunca poderá almejar vir a ser uma verdadeira alternativa, prolongando o habitual paradigma de alternância (já algo gasto e decadente olhando às recentes notícias surgidas nos media, algo que começa a transparecer para o público - basta olhar a notícias recentes ou ler as conclusões recente estudo de André Freire, José Manuel Viegas e Filipa Seiceira - corporizado num livro recentemente lançado, que adquiri ontem) , ficando o dito partido refém que o outro partido de poder caia em desgraça. Apenas sugere razão a quem indica que em Portugal, não se ganham eleições. O outro lado é que as perde.


2010-01-13

Nove Círculos, Três Vales, Dez Fossos e Quatro Esferas.



"O Haiti “está mesmo a precisar de ajuda”, disse o embaixador dos Estados Unidos naquele país à CNN, depois do sismo de magnitude 7.0 na escala de Richter, seguido de duas réplicas (5.9 e 5.5), que esta terça-feira abalou um dos mais pobres países do mundo. O epicentro foi a 15 quilómetros da capital, Port-au-Prince, às 17h12 (22h12 em Lisboa) (...)"

in publico.pt

A título de comparação, a bomba atómica detonada em Nagasaki em Agosto de 1945, ainda que detonada no ar, teve um impacto semelhante a um sismo de 5.0 na escala de Richter, provocando os impactos que se sabe.

Este atingiu 7.0 nessa mesma escala (que vai de 0 a 9 - embora já se admita intensidades maiores), tendo um epicentro a apenas 15 km da capital Port-au-Prince, capital do Haiti, o país mais pobre das Américas e um dos mais pobres do mundo. Uma república que desde o seu início em 1804, tem estado constantemente envolta em instabilidade social e política.

Segundo as últimas notícias, poucos edifícios foram poupados, tendo inclusivé o Palácio Presidencial sido gravemente atingido, assim como outros edifícios primordiais.

Se a situação do país antes desta catástrofe, já mostrava era preocupante, estando totalmente dependente de ajuda externa, com todos os sintomas de um Estado Falhado - a nossa desbobinadora Marta Andrade (Black) poderia explicar isso bem melhor que eu, dado que este foi o seu objecto de estudo durante o seu mestrado, tendo estado no terreno - não encontro melhor alegoria para descrever a situação que recordar o Inferno de Dante Alighieri.


imagens via twitter


2010-01-07

Enquanto nós por cá...



imagem retirada daqui (autoria James Cauty)

"Barack Obama nomeou uma transexual de 48 anos para um cargo público de relevo. A opção está a ser aplaudida pelas organizações de defesa dos direitos dos homossexuais e transexuais(...)"

in Jornal de Notícias


Muitas vezes pequenos gestos podem enviar grandes mensagens à sociedade. Numa matéria exclusica da esfera pública - o casamento em causa é o civil, é engraçado verificar que o que move a maioria dos defensores do não, são razões de foro espiritual/confessional.

Mais que o simples conceito de casamento - aliás muito lato e em constante evolução, o que está aqui é uma questão de acabar com uma descriminação sobre uma minoria. E o Estado, numa sociedade laica como a nossa, como máximo zelador pelo bem comum, deve e pode dar o exemplo. Tal como Barack acabou de o fazer nos EUA.


2009-12-29

Brinquinho do Alberto vs Harpa de Nero



imagem D*Face



in publico.pt


Já agora, se porventura não fosse incómodo, que tal procurar um modelo alternativo de desenvolvimento e governação?

Olhando ao recente Orçamento da Região Autónoma da Madeira para 2010, onde mais uma vez as despesas afectas a infraestruturas nada sustentáveis [e na maior parte das vezes com claros propósitos eleitoralistas - nem falo da parte das receitas extraordinárias previstas], são uma parte de leão do mesmo, não sei até que ponto as consequências futuras da prossecução desta autêntica política suicida, não hipotecarão o futuro das gerações vindouras.

O círculo aparenta estar a apertar-se [recorde-se exemplo de notícia da entrega de escolas e equipamentos de saúde como garantias bancárias para conseguir empréstimos para pagar despesas correntes] e as claras insuficiências deste modelo são cada vez mais notórias. Já aqui escrevi que em política, o comum eleitor tende a não ter uma perspectiva a médio-longo prazo, recompensando politicamente muito a existência de obra, ou seja algo em termos palpáveis e visíveis - como o são betão e cimento. Os alertas para as consequências do arrastar deste tipo de modelo, já há muito eram conhecidos [existem estudos efectuados para o GR desde o início da década por parte de consultores], pelo que apenas se pode deduzir que apenas os ganhos políticos e a lógica da auto perpetuação política apenas estarão a justificar a insistência neste modelo.

Tendo em conta isto e prevendo-se o pior, já aqui dei conta que será engraçado saber como será retratado e relembrado este período, pelos próprios madeirenses daqui a 10 anos.

Já agora e em jeito de conclusão, não resisto a arriscar uma profecia qual Nostradamus. Não passarão muitos anos até introduzirem portagens na Via Litoral. Já esteve mais longe.

2009-12-27

O "teste para a democracia"



imagem daqui

"Eleitores do Uzbequistão começaram a votar para eleger o Parlamento, naquilo que o Presidente Islam Karimov considerou "um teste para a democracia" desta antiga república soviética, independente desde 1991.

As mesas de voto abriram às 06:00 locais (01:00 de Lisboa) e mais de 17 milhões de eleitores poderão votar até às 20:00 locais nos 506 candidatos que se afirmam todos defensores da política do governo, na disputa dos 150 lugares no Parlamento.

Segundo a lei uzbeque, 15 lugares estão reservados aos deputados do Movimento Ecológico do Uzbequistão, criado em 2008 e integrado por militantes pró-governamentais."

in DN



Eis mais uma estranha concepção de democracia, isto sob o prisma ocidental, indicada por uma pessoa do antigo aparelho soviético que desde a independência do Uzbequistão em 1991, se tem perpetuado no poder com votações com mais de 90%, quer passando por limitações constitucionais de dois mandatos - 5 anos cada [já agora, diga-se de passagem que é uma prática comum nesta parte do globo e os déspotas vizinhos até conseguem votações mais "retumbantes"].

Isto num país situado no chamado crescente turco, em plena Ásia Central, rico em recursos naturais como ouro e urânio - economia essencialmente recolectora, com especial incidência em culturas intensivas insustentáveis como o algodão (vide desastre ecológico do mar Aral) - recortado e tendo vastas extensões de deserto, com apenas 10% de terra arável.

Fora dos radares mediáticos, eis mais um pequeno exemplo do que acontece num país que figura nos tops de países mais repressivos para com imprensa, liberdade de associação, liberdade religiosa, com constantes violações de direitos humanos, mas que por circunstâncias geopolíticas - apoio na guerra ao Afeganistão e concessão de bases aéreas para apoio de acções militares na região - é tolerado pela comunidade ocidental, fechando assim olhos à grande repressão exercida sobre a população. Uma sociedade onde mais de 45% vive com menos de 2 dólares por dia e onde o Islão radical é uma real ameaça [em parte por via de todas estas circunstâncias] devido a crescimento da corrente wahabita do Islão - fortemente financiada pela Arábia Saudita, em contraponto a uma tradição endógena mais pacífica, mística e menos radical, mais característica da região como a corrente sufista [recordo e recomendo a leitura de "Jihad - Ascensão do Islão Militante na Ásia Central" de Ahmed Rashid para melhor percepção da profundidade das mudanças].

Feito este pequeno retrato, a notícia ilustra um bom exemplo no extremo, de certa "normalidade democrática" muitas vezes prevalecente em sociedades gravemente desiguais, onde a riqueza está concentrada nas mãos de uma pequena elite que insiste em se perpetuar no poder e onde as básicas noções de protecção de opiniões divergentes simplesmente não são consideradas ou tidas em conta em prol de um suposto unamismo agregador. Faz-vos lembrar algo?

2009-11-17

A política da Terra Queimada






"Aperta-se o cerco à freguesia de Gaula. Depois da sede da Junta de Freguesia de Gaula ter mudado de instalações dez dias após as eleições autárquicas que colocou o movimento de cidadãos 'Juntos pelo Povo' (JPP) na presidência da Junta de Freguesia local, agora é o Governo Regional que decide cancelar duas obras que estavam previstas para Gaula(...)"

in DN-Madeira


Pese as devidas diferenças, a fazer lembrar o bloqueio de Berlim. A política da terra queimada no seu melhor.






2009-11-16

Os tortuosos caminhos de uma Vendetta







JPP (José Pacheco Pereira), concorde-se ou não , tem reconhecidamente um estilo muito próprio transparecendo muita combatividade e frontalidade na defesa dos seus argumentos. Recentemente passou a dispor de um espaço de opinião na Sic-Notícias - Ponto Contra Ponto - descrito pelo próprio sítio da SIC como "(...)Um programa de opinião sobre aquilo que nos faz ter opinião: a comunicação social. Os media, os jornais, as rádios, os blogues, os livros, a televisão(...)", capitalizando ainda mais a sua já extensa presença mediática.

Ontem, pese os propósitos do programa - sendo de louvar a intenção de dar uma outra perspectiva face à constante uniformização dos conteúdos informativos, foi evidente registar a "vendetta" pessoal que JPP fez, onde num programa de 14 minutos, dedicou o primeiro terço do programa a rebater as críticas e acusações apontadas pelos diversos meios à sua autêntica cruzada. Aliás, é visível que por muito nobres sejam os seus propósitos - pelo menos apregoa os mesmos dessa maneira, JPP acaba por usar o espaço não para essa intenção inicial, mas meramente como extensão para replicar as suas ideias e argumentos e ataques políticos [aliás visíveis noutros canais de exposição de JPP e que lhe granjeiam tantos ódios].

JPP acaba por sim por reproduzir tudo aquilo que critica. A satisfação com que finalizou o programa antevendo semanas interessantes para a comunicação social e a natural relação daí deduzida com todo o "elán" mediático existente nesta altura, é claramente indiciadora disso. Por outro lado, a sua constante presença em diversos meios e em tudo o que é debates, [com grande repercussão mediática] acaba paradoxalmente e em última instância por levar a uma uniformização de opinião, algo que JPP indica querer reverter.

É pena. Esperava um programa que reflectisse sobre o estado da comunicação social e não se limitasse a apontar de um patamar fictício de superioridade moral as falhas, induzindo uma agenda escondida.
Chego à conclusão que talvez isso não seja possível.