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2013-11-14

Tributo a Camus


"Everything I know about morality and the obligations of men, I owe it to football"
Albert Camus




Há precisamente um século atrás, a 7 de Novembo de 1913, nascia na Algéria o autor desta frase.
Outrora um razoável guarda redes das camadas jovens do Racing Universitaire d’Alger – isto em idos da década de 30 – o bem conhecido Albert Camus tornou-se com a idade num excelente ensaísta, dramaturgo, filósofo, romancista, escritor, editor, tutor…Enfim um Katsouranis das letras.
Alguém que ganhou um Nobel da Literatura dado pela Academia Sueca.
Mas não embandeiremos muito o arco. Do país do IKEA era de esperar algo semelhante, isto duma instituição que um dia foi capaz de dar o prémio [muito bem atribuído] a um serralheiro-mecânico nascido na Golegã.

Mas regressemos a Albert Camus.

Alguém cujos escritos versaram muito sobre o absurdo. Politicamente alguém muito engajado. Primeiramente na forma de um socialismo científico que mais tarde desagua num pós anarquismo idealista, isto sem nunca se ter aprisionado pelo debate ideológico.
Amarrado ou condicionado por quer que seja.

Fosse no papel activo na emancipação contra a ocupação francesa do Magrebe. Fosse durante a Segunda Grande Guerra, militando na Resistência contra a ocupação nazi. Ou fosse ainda na sua resignação da UNESCO em 53, após a aceitação da Espanha de Franco na ONU, regime cuja violação sistemática dos direitos humanos era por si fortemente criticada.
Alguém de coluna idónea, fiel a valores e conceitos como o amor ao próximo, ética, pacifismo, justiça ou o humanismo.
Que rejeitava qualquer tipo de totalitarismo não interessa a proveniência ou tendências de pensamento único. Alguém com opinião. E mais importante, sem receio de a usar como a sua vida o comprova.
Ainda assim, alguém muito terra-a-terra, em muito devido às suas origens e às suas vivências de todo o seu percurso de vida.

Nesta altura, até pela temática, admito este texto pode parecer estranho a muitos dos que nos lêem.
Mas Camus era alguém que mantinha com o futebol uma dialéctica muito interessante. Vendo no mesmo uma analogia da sociedade e da vida em geral.
Algo que compartilho.
Daí esta minha homenagem. Daí este meu texto.

De homenagem a alguém que numa vez ao aterrar no Brasil para uma conferência universitária, fez o inusitado pedido de ir logo ver um jogo de futebol, isto numa época em que ao intelectual era difícil assumir – quanto mais aos outros reconhecer – a sua faceta de adepto de um desporto ou actividade conotada com as massas incultas, como era na altura considerado o jogo que tanto amamos.
O homem que uma vez na resposta a uma questão, disse que entre futebol e o teatro, escolheria sem dúvida o futebol. Sem desprimor para o primeiro.
Mas agradava-lhe o carácter popular e simples do segundo. Sem máscaras.


Camus no Racing Universitaire d'Alger
Pegando na citação inicial, Camus referiu uma vez numa entrevista à France Football, que tudo o que tinha aprendido na vida acerca de moral e as obrigações de um homem devia ao futebol.

De facto, se bem que à primeira vista esta frase possa parecer redutora, quem partilhou um balneário percebe o que Camus quereria dizer.
A camaradagem, a integração do individual no colectivo, o "fair play", a prossecução de um objectivo comum no meio de díspares personalidades, são tudo aspectos intrínsecos ao “beautiful game”. E porque não dizê-lo, também a uma sociedade.

E Camus ainda por cima era um guarda-redes.

Uma posição que poderá ser algo ingrata.

Em putos, há sempre a tendência para usarmos a posição para a qual são despejados aqueles que são desprovidos de algum jeito para jogar na frente. Ou que são gordos. E normalmente o gordo vai à baliza.

Mas à parte disto e não querendo despertar algum recalcamento contido em quem lê este texto, num outro contexto, se imaginarmos o onze que entra em campo como um grupo de heróis da Marvel, os guarda-redes serão os grande candidatos a serem os vilões incompreendidos [de repente tento esquecer-me que o Roberto poderá apenas ser a minha mais recente Nemésis...].

Isto porque tentam a todo o custo impedir o clímax do futebol ou seja o golo.

Na esmagadora maioria das vezes apenas são notados nestas alturas. E no coração dos adeptos passam rapidamente de bestas a bestiais à distância de uma luva. Ou de um golpe de asa. Daí a necessidade de grande concentração para tão específica posição. Que muitas vezes gera o inverso em termos de reconhecimento pelo seu esforço.

E todos sabemos que existe a tendência para haver sempre um bode-expiatório.

Jonathan Wilson, autor de um (bom) livro chamado “The Outsider: A History of the Goalkeeper“, estabelecendo um paralelismo óbvio, indica que em todas as sociedades, até os mais influentes fazedores de opinião arranjaram ou arranjam um bode-expiatório: Marx culpava o sistema capitalista. Freud culpava o impulso sexual. E Darwin a religião.
Por cá Vasco Pulido Valente culpa todo o mundo (e ele próprio quando se olha ao espelho).
Os futebolistas por seu turno culpam o guarda-redes.

Galeano escreveu sobre eles que podem ser chamados de porteiros ou guardiães, mas poderiam chamar-lhes de mártires ou penitentes, não crescendo mais relva no espaço em que pisam, condenados que estão a observar o jogo de longe.
Este autor vai até mais longe e indica que carregando nas costas o número um, são os primeiro a receber e os primeiro a pagar. Os guarda-redes terão sempre culpa e mesmo que não a tenham, arcarão sempre com a mesma.

Daí serem quase como que “outsiders”. Corpos estranhos num jogo tão belo. Alguém que destoa duma harmonia tão própria.

Mas talvez por actuar em tão específica posição, Camus tenha aprendido a observar toda esta dinâmica e harmonia de uma posição privilegiada, ou seja de trás, algo muito difícil aos restantes intervenientes em campo.

Talvez por isso tivesse tido a postura e a conduta que sempre o caracterizou. Alguém que politicamente (e transcrevendo uma publicação recente de Vitor Belanciano no Facebook sobre Camus) “não caiu na armadilha em que a maior parte das pessoas caem: ‘se não estás ao meu lado, estás contra mim’(…) tendo a lucidez de não cair na armadilha de escolher entre o imperialismo de um ou de outros, tentando superar as clivagens políticas tradicionais.”

Ou seja, um verdadeiro espírito livre. Fiel mais que tudo à sua conduta e aos seus princípios.

Algo inerente a alguém a quem é permitido não se reger por sistemas tácticos rígidos. Que tem os seus próprios posicionamentos específicos em campo. Os seus próprios ritos e rituais. Porque o guarda-redes acaba por ser a última barreira de segurança, de quem tudo pode depender, ainda que esteja na mais desprotegida das posições.

Paradoxo não é?

Mas ao mesmo tempo esta será aquela posição que permitirá mais solidão e introspecção pessoal aos seus ocupantes.
Daí não ser descabido ter havido nomes como o já referido Camus mas também Karol Wojtyla ou mesmo Vladimir Nabokov, tudo personalidade reconhecidas pela sua vincada independência em tão ingrata posição de campo, isto quando praticantes da modalidade.

Talvez estarei a extrapolar um pouco e certamente não espero nenhum vulto extraordinário para além dos feitos desportivos de um comum guarda-redes – digamos de um Rui Patrício (nem sequer uma entrevista interessante, quando mais algo…).

Mas olhando ao exemplo particular de Camus, gosto de pensar que o futebol, enquanto pequeno microcosmos representativo da sociedade poderá porventura despertar e incentivar nos seus intervenientes e naqueles que o rodeiam e seguem, ainda que em pequena escala, este tipo de sentimentos.
Mesmo se na maioria das vezes o futebol seja o domínio do irracional.

Mas muitas vezes a vida ensina-nos que não podemos ser iguais a mais um jogador de campo.
Por vezes temos de assumir a posição de guarda-redes.
Por muito difícil e confuso que isso possa parecer.


(texto próprio publicado no FootyElegance por altura do centenário do nascimento de Albert Camus - 07-11-2013)




2013-02-28

109.


 


 "Parabéns a todos por termos a doença mais bonita do mundo."
 
 
 
 
 
 

2013-02-22

30

 (artwork by Greg Gossel)



Ageing is inevitable

....but growing up is optional!









2012-10-01



Eric Hobsbawn, um dos mais influentes historiadores do último século, morreu esta manhã, em Londres. 
Hobsbawm escreveu várias obras que o tornaram uma referência mundial, entre as quais se destacam quatro livros marcantes sobre a História europeia de 1789 a 1991 – “A Era das Revoluções” (1962), "A Era do Capital" (1975), "A Era do Império" (1987) e "A Era dos Extremos" (1994). A sua autobiografia, “Tempos Interessantes: Uma Vida no Século XX”, foi publicada em 2002.

Hobsbawm era igualmente um grande apreciador de jazz. Escreveu durante cerca de 10 anos, uma coluna mensal no New Statesman, assinando com o nome Francis Newton, um trompetista (igualmente comunista como ele) que tocou "Strange Fruit" de Billie Holiday. 

No dia mundial da música, fica aqui a pequena homenagem.



2012-02-22

apanhando o 29. na velha carcaça.

foto roubada daqui




às 18.10 apanho o vinte e nove.
numa curta viagem de 365 dias até apanhar o trinta.

2012-01-27

Jogar ao faz de conta.

make believe game @ friendly atheist



Artigo 41.º
Liberdade de consciência, de religião e de culto
(...)
4. As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.
(...)



Sem negar a herança cultural e a preponderância que a Igreja Católica tem na sociedade portuguesa, não é o nosso país um que à semelhança de tantos outros na Europa Ocidental, se auto-define como laico e não confessional?

Assim sendo, se há que cortar feriados - medida que na verdade é terá uma eficácia e uma vantagens económica algo dúbia - o lógico seria cortar alguns do feriados de índole confessional que existem no calendário. Pensei eu. Mas não.

Porquê manter feriados religiosos como o dia da Assunção, o dia do Corpo de Deus ou o dia de Nossa Senhora da Conceição? Designações que ditas desta forma nem são perceptíveis pela maioria dos cidadãos, isto se não associar o 15 de Agosto, uma 5ªfeira normalmente em Junho ou o 8 de Dezembro - o que indicia o quão irrelevantes eles significam nos dias de hoje.

Mas o pior nem é esta situação.

Ponderarem a retirada do feriado da implantação da República e o feriado onde se comemora a Restauração da independência nacional, duas datas emblemáticas e estruturantes do próprio conceito de nacionalidade e do próprio regime em si é a pedra de toque que faltava em todo este processo.

Quando o próprio regime não estima nem cuida da sua própria memória e do seu passado, isso transparece um sinal nada abonatório, que em última instância faz pressupor que o seu futuro não será nada risonho.

Olhando à actual situação, já nada me surpreende.

2012-01-25

2011-06-26

Rasgo




Intro em Lá maior. Dó menor. Dó menor. Mi menor. Mi menor. Sol menor. Sol menor. Mi maior. Mi maior. Dó maior. Dó maior.

As primeira notas de Danúbio Azul. A música que melhor define a Valsa. Ou melhor. Aquilo que a esmagadora maioria das pessoas associaria a este género musical. Até para mim, um completo leigo na matéria. Gizada do génio de Johann Strauss II. Uma pessoa de rasgo. De vida cheia de acasos e ocasos. Com glória. Com depressões e esgotamentos. De posições políticas bem vincadas. Uma pessoa bem controversa ao seu tempo.

Valsa, a erudita e ritmada valsa. De compasso binário composto. A sublime e muito nobre Valsa. Inspirada em simples danças campestres alemãs e austríacas, que provindo de contextos e meios sociais mais baixos, depressa se tornou objecto de culto entre as elites, em especial na ainda púdica Viena dos séc. XVIII e XIX. Como alguém que sobe a pulso, aqui na hierarquia dos géneros musicais.

Javier Marías, numa frase tantas vezes citada, escreveu uma vez que o "futebol é a recuperação semanal da infância". Nada mais correcto.

Numa das primeiras memórias televisivas que tenho, na saudosa RTP-Madeira, num tempo ainda jurássico com apenas um canal - que começava a meio da tarde - recordo um curto clip de vídeo. De futebol. Em slow motion. Ao som de Danúbio Azul de Strauss. Que passava nos intervalos de jogos e eventos desportivos, porventura colmatando a ausência de publicidade. Memórias de um tempos em que ainda havia espaço para estes escapes, algo que a posterior "eucaliptação" publicitária acabou por asfixiar. Adiante.

Recordo uma imagem de forte contraste e imensa luz. Um enorme relvado. No centro uma enorme sombra, sobre o meio campo, como que um religioso presságio ou profecia, introduzia elementos que nos preparavam para o milagre que iria acontecer. Como pano sonoro de fundo, a valsa de Strauss conferindo o devido sentido épico ao momento.

Convém desde já esclarecer que o termo valsa provém do alemão Walzen, que em tradução livre significa girar ou deslizar. Dar voltas.

Quartos de final do México'86. Estádio Azteca, na capital mexicana. Epicentro de um encontro que se adivinhava quente e destrutivo. Um Argentina vs Inglaterra, tal e qual o forte terramoto ocorrido no México um mês antes. O primeiro encontro entre as selecções dos dois países, desde a disputa sobre as ilhas Malvinas. Ou chamar-se-ao Falkland?




Intro em Héctor Enrique. Um toque na bola. Passa Peter Beardsley com rápido toque para outro pé. Finta de corpo e terceiro toque passando Peter Reid. Quarto toque. Quinto toque. Golpe de anca. Passa "Terry" Butcher ao sexto toque. Sétimo toque. Finta Terry" Fenwick. flexão para direita. Oitavo toque entre "Terry" Butcher e saída de Peter Shilton. Nono toque. Entrada de "Terry" Butcher. Baliza aberta. Golo.

Há 25 anos, amparada e quem sabe, abençoada por uma prévia Mão de Deus, outro momento Justificar completamentesublime foi composto. Uma nova composição musical acabava de ser criada. Chamaram-lhe "O Golo do Século". Pelo maestro Maradona, o pobre miúdo de Vila Fiorito. O inconstante e politicamente incorrecto Maradona. Pessoa capaz do melhor e do pior. Uma pessoa cujo nome equivale quase sempre a controvérsia. Uma pessoa que sempre viveu no limite. Naquele relvado, como de uma pauta musical se tratasse, compõe um sublime momento de arte. Um rasgo de criatividade apenas possível a poucos predestinados. Aos maiores. Como Strauss. Naquele relvado, deslizando e girando por entre adversários, Maradona como que cria a sua própria escala musical entregando uma peça de arte para a posteridade.

A partir daquele momento, Futebol - sim, com F maiúsculo - equivalia àquele golo de Maradona. Fosse ali no gigante estádio Azteca, fosse no pequeno beco junto à minha casa, onde se tentava a muito custo transpor, para aquele bocado de alcatrão e cimento, toda a magia que ocorreu naquele 22 de Junho de 1986.

A partir daquele momento, aquele golo de Maradona, passou a ser algo mais que uma mera obra-prima. Se por um lado, contém todo o génio e talento que apenas está ao alcance de alguns escolhidos, por outro lado, o mesmo irrompe no humano e imperfeito Maradona. Egocêntrico até. Capaz da maior gargalhada. Capaz de verter lágrimas. Como que mostrando que há uma camada interior cheia de criatividade. Em permanente combustão. O chamado rasgo. Algo difícil de encontrar. Que no caso de Maradona se manifestou no Futebol. Daí e por tudo o que representa, ele será o maior.

OK. Temos o quase extraterrestre Messi - que nasceu um ano e dois depois deste feito. O imperturbável e pacato Messi. De quem se desconhece grandes desvairos ou incongruências. Alguém atípico. Sem o "salero" mediático que se exige aos predestinados. Embora ele seja um deles.
Que alimenta e alimenta-se do autêntico Deep Blue futebolístico que é este Barça. Algo que nem o génio do igualmente humano e imperfeito José Mourinho, parece contrariar. Mas para mim e numa típica comparação entre o El Pibe e a La Pulga faltará sempre algo mais. O tal lado imperfeito. Faltará igualmente conseguir comandar a Argentina a algo grande. Até porque aquele Nápoles não é este Barcelona. Ou fazer aquela brutalidade nuns quartos de final de um campeonato do mundo, num jogo com aquela carga emotiva contra a Inglaterra, não é o mesmo que fazer igualmente magia, numa meia final da Taça do Rei contra o Getafe. Aos que não crêem, e citando o maior "que la chupen, y que la sigan chupando". Mas estas são outras conversas que agora não interessam.

Aquele foi igualmente o dia da vingança argentina. Qualquer argentino diria que se justiça divina houvesse, a mesma teria acontecido. Ali naquele relvado. Onde se jogava mais que um simples encontro de futebol, pese os intervenientes negassem isso. Ali, Maradona, assumia o papel de marechal guiando as suas operárias tropas à conquista de um segundo título mundial. Numa equipa orgulhosamente só. Para gaúdio popular de um depauperado país. Um ligeiro e efémero conforto, na altura dura realidade argentina. Mas com toda lisura desportiva possível, sem as trapaças do ocorrido no vergonhoso Argentina'78. Digo possível, porque minutos antes, a mão de Deus fora nas palavras de Robson meramente a mão de um patife. Creio que o termo correcto foi "the hand of a rascal".
Mas por vezes "os fins justificam os meios" diria sem qualquer pejo qualquer Sun Tzu, Maquiavel, Lenine ou mesmo algum Kissinger de pacotilha. A história igualmente encobre estas falhas. Chamam-lhe realidade. E os patifes e as patifarias por vezes são necessárias. Em nome de um bem maior. Algo que é reconhecido, mesmo por idealistas convictos. Adiante.

Gostaria de ter começado estas linhas, escrevendo que tinha presenciado in loco aquele fantástico jogo e em especial aquele momento. Que tinha sido um dos 107.000 espectadores presentes naquela autêntica sagração de um mito.
Mas não.Tomei o primeiro contacto com aquele vídeo alguns anos depois. Mas pese essa distância, passou a estar na minha memória como algo que nunca mais esquecerei. Minha e de outros amigos meus. Companheiros de longas tardes de futebol, que se prolongavam até ao raiar da luz. Todos na ânsia de interpretar aquela pauta e aquela composição feita naquele dia, no estádio Azteca. A tentar imitar o inimitável. A pretender alcançar aquele patamar. Ao dito rasgo criativo. A tentar ser um Strauss. Um predestinado.

Acredito piamente que todos, temos em nós contido este rasgo. Mas a esmagadora maioria das pessoas nunca chega a descobrir ou explorar o mesmo. Imposição da rotina, sempre a rotina dirão alguns. Outros por desconhecimento da área a investir - muitos dedicam-se numa eterna busca, muitas vezes em vão. Outros ainda por pouca capacidade de motivação-barra-trabalho.

Mas esta busca, deve a meu ver, ser permanente. Não por qualquer mania ou fixação na "especialização" - algo que abomino um pouco, mas por uma questão de bem estar que daí se gera. Na alegria que se via na cara de Maradona quando tinha a bola. E já agora na de Messi - que só aí deixa cair a sua máscara de "imperturbável".

A melhor prenda que recebi este Natal foi uma placa com a dita jogada - embora o habitual par de peúgas dado pela minha tia tenha sempre um lugar especial. De uma grande revista chamada "11 Freunde". Onze amigos. Como se uma partitura tratasse. Uma Valsa. Talvez o Danúbio Azul. Que me remete para a minha infância e para aquelas tardes. Como que a recordar que todos nós temos um rasgo escondido dentro nós, à espera de ser explorado.

Poderemos não ser predestinados. Não se pretende isso. Mas essa busca deve ser explorada e incentivada. Método tentativa-erro. O rasgo existe e por vezes merece que seja conhecido. E visto. Seja em que área for. Aquela jogada, naquela quente tarde em Junho de 86 vem precisamente comprovar isso mesmo.

2011-06-18

no âmago de um 18-06.

Li algures, perdido por entre folhas e cadernos dispersos, num sítio que agora não me ocorre, o relato escrito de alguém que observava um gato.
Sim, um simples gato. Mas não um de qualquer estirpe ou comum casta. Esquivo, com o seu andar petulante como a generalidade dos felinos, este era um gato que ao invés dos seus companheiros, transparecia que nunca iria abdicar da sua liberdade pelo conforto.

Lá se encontrava ele, altivo, sob o sol abrasador, na sua jinga que tanto era sexy como arrogante, que sobre um zinco escaldante se bambaleava, como se aquele anexo inacabado e claustrofóbico de um qualquer bairro social da periferia, fosse os largos e arejados Campos Elísios ou a sempre vibrante e cosmopolita 5ª Avenida nova-iorquina.

Indiferente aos apelos do seu dono, o gato mantinha-se impávido e sereno. O dono, outrora uma pessoa outrora vibrante e cheia de vitalidade, sempre orgulhosa de ter nascido no dia 18-06 - não me perguntem porquê, pois nem o dono sabia essa resposta - agora, com a sua voz rouca, porventura a denunciar um cansaço e um desespero próprios de quem cada vez mais acreditava menos ser possível fazer poker no jogo da vida, clamava em vão pelo gato. Este mantinha-se no seu forte, na sua autêntica torre de marfim, vincando assim toda a sua independência e mostrando assim não ter quaisquer laços atados a ninguém ou a algo. Como que marcando uma posição ou statement.

Uma liberdade que esse observador secretamente desejava, ainda que conscientemente pudesse nem ter essa percepção. Ter a oportunidade de ser aquele gato, naquele zinco, naquela hora, transportando-se assim para todo aquele imaginário de liberdade e independência. Uma fuga da habitual e monótona rotina - sempre a rotina - que, como invariavelmente acontece, muitas vezes nos acaba por induzir e prender até um ponto de quase-sufoco. A generalidade das pessoas, nem se dá conta de toda esta maquinação, tão embrenhadas que estão nessas mesmas rotinas. Mas este alguém felizmente estava. E se as rotinas são muitas vezes precisas, não é à toa que com igual importância, as rupturas são necessárias. Serão assim o intervalo entre as rotinas. Como autênticos escapes. Ponto final. Muda parágrafo.

Imaginemos que o dono do gato, tinha igualmente um cão. Que como todos os canídeos era fiel e leal. Até ao tutano. Ainda que diferentes, os mais variados laços juntavam cão e gato, como que completando-se numa estranha e talvez contranatura sinergia - pelo menos aos olhos de alguns - qual yin yang. Ou neste caso como Oddie e Garfield.

Se esse alguém olhasse o cão, certamente o catalogaria de de sisudo e obtuso. Afinal de contas era reactivo. Quase pedindo desculpa por qualquer latido solto fora contexto. Um ser que respondia aos estímulos do agora frágil dono, não ousando sequer o enfrentar, ainda que secretamente por vezes assim o desejasse. Por uma questão de respeito.

Mas acreditemos, por momentos, que esta visão estava toldada pelo sufoco sentido por esse observador. Afinal de contas o cão, também teria o seu lado rebelde. Solto, como um cão na pradaria - não confundir com um cão da pradaria que na realidade é um roedor. Que se esconde em túneis. Este pelo contrário, preferia enfrentar as coisas de frente. E admirava acima de tudo frontalidade. Ainda que tendo postura diferente do gato, acabava por ser em tudo muito semelhante a este, ao mesmo tempo que o admirava, buscando inspiração neste, numa estranha e porventura disfuncional relação pupilo-mestre - isso sim nada saudável.

Mas àquela distância, comparado com o vibrante e atrevido gato, o cão na sua fidelidade e lealdade inquestionáveis, parecia um mórmon no meio de um Mardi Gras. Um Luís Filipe num plantel do Benfica. Algo tão mais ou menos. Sem o "salero" necessário. Sem a atitude sexy que sempre se quer e deseja - ainda que muitas vezes seja meramente uma miragem e uma projecção do que realmente almejávamos ser. Um ser que realmente poderia dar asas à sua imaginação. Como o observador desejava.

Compliquemos ainda mais a história. Nova linha narrativa na história - uma mais. Imaginemos que o dito dono morria. Pese tão parecidos, o elo de relação entre o gato e cão desaparecia. Após uma saída extemporânea do gato, o frágil dono tinha sucumbido.
Mayhem. Terramoto de 1755. Inferno de Dante elevado ao cubo. O mundo caia sobre a cabeça do cão como uma maçã caíra sobre a cabeça de Newton.

A analogia não é inocente. Aliás nada neste texto é. Ou talvez não. Adiante. Tudo tem um sentido. E simplesmente há coisas que porventura tinham de acontecer. Como uma básica lei da vida. Como a lei da gravidade que de tão óbvia nem a questionamos. Pese para mim seja positivo a existência de sentido crítico a leis dadas como imutáveis.

O cão numa primeira fase tudo tinha lutado para que o gato ficasse junto de si. Mas as coisas já não estariam destinadas a tal. Faltava a ligação. Ainda que céptico a esoterismos relacionados com predefinições de destino, o cão no seu interior sabia que o desejo de liberdade do gato era mais forte. E admirava e respeitava imenso isso. Assim como toda a frontalidade como a situação se desenrolou.
Como previsto, o gato esse seguiu o seu caminho. Corajoso, fez uma escolha que poucos fariam. Para gáudio do cão, que mesmo sentido, no interior não deixava de invejar a coragem e confiança mostrada. Preferiu o desconhecido ao conhecido.

O cão esse, às tantas vagabundeou um pouco por aí, como antes já o tinha feito, ele que fora recolhido pelo dono. Nada a que já não estivesse acostumado antes de conhecer o gato. Sempre tivera uma queda para o drama. Algo que a relação agora desfeita o tinha ajudado a minorar. Urgia corrigir novo desequilíbrio. Algo que um L Casei Imunitass chamado tempo iria provavelmente curar e repor. Como um lastro que após uma tormenta, ajuda lentamente a estabilizar um barco - algo que provavelmente ainda não estará realizado.

No entanto, o cão sabia que a ligação era especial. E sabia que mesmo na sua aparente deriva libertária, o gato estaria sempre ali para ele, assim como ele mesmo estaria ali para o gato. Não era à toa que gostava tanto do gato.

Algo imperceptível para a esmagadora maioria dos outros, fossem eles gatos, cães, canários, ratos, papagaios ou peixes. Era algo que apenas ele e o gato sabiam que existia. Algo que estaria sempre personificado no dia 18-06.

Regressemos ao observador-escritor de onde retirei a história inicial. Não sei que sentido daria a esta história. Aliás, não sei se sequer se revê em algum destes papéis, ele que naquela altura, naquele local, quereria ser o gato. Mas pressupondo que sim, espero que tenha conseguido sair do sufoco e que tenha abandonado as rotinas que às tantas o aprisionavam. Segundo o meu gato, prevendo que seja como o mesmo, com certeza conseguirá chegar e alcançar tudo aquilo que se propõe. Terá as qualidades inatas para tal. Não é à toa que era especial o gato. Assim como certamente terá sempre um cão, que estará sempre a velar por si. Poderá estar mais ou menos atormentado (por razões que às tantas nem se deverão ao gato), mas estará sempre a zelar pelo dito gato. Mesmo sabendo que o tempo não pode voltar atrás - na esmagadora maioria das vezes o mais acertado e sensato. Tal como a lei da gravidade que quase nunca é questionada.

Mas esse 18-06 existe e permanece. O cão agradece essa recordação, pois representa muito mais que que uma simples ligação. Chega assim ao âmago da data em questão. Assim como certamente gosta de pensar que do outro lado, o gato também sentirá o mesmo.

2011-06-10

2010-10-10

Nos ecrãs no próximo dia 15.

PROJECTO10 #19 from PROJECTO10 on Vimeo.


Feito a partir de fotografias de Joshua Benoliel para a revista Ilustração Portugueza. Fonte: revistaantigaportuguesa.blogspot.com/​

A música é uma versão de Air, Suite No. 3 in D major, BWV 1068 (Air on the G String) de Johann Sebastian Bach.



2010-06-21



by Pedro Vieira "roubado" daqui



2010-06-07

Pop goes the world!

GOSSIP - POP GOES THE WORLD from V Magazine on Vimeo.



Porque hoje foi dado um passo efectivo no reconhecimento de direitos e igualdades, deixo-vos o excelente e colorido vídeo de Gossip, banda que estará no próximo Alive'10.



2010-04-09

“Stealing things is a glorious occupation, particularly in the art world.”


imagem D*Face



“A goatee-bearded art lecturer said: ‘It is better to be a flamboyant failure than any kind of benign success.’ For me, those words define punk rock.” (Malcolm Mclaren ao Guardian em Agosto passado)


Morreu ontem Malcom McLaren aos 64 anos vítima de cancro.
Provocador controverso e visionário artista ou por outro lado mero empresário manipulador que tentou tirar partido da contracultura que emergiu da década de 60 e 70, aproveitando o choque para instituir novas tendências?
Porventura a resposta certa andará algures entre estes dois conceitos, mas o seu legado é inatacável.
Considerando-se a si próprio como um artista sem portfolio, moldou e deu forma ao que convencionamos chamar Punk nas mais variadas formas, fosse através da música sendo empresário dos Sex Pistols ou no campo da moda abalando os cânones estabelecidos através do da moda pelo traço da sua então companheira Vivienne Westwood. Fiel a si próprio, nos últimos anos, ameaçou concorrer a Mayor de Londres. Uma das suas propostas? Distribuir gratuitamente álcool nas bibliotecas londrinas...



2009-12-18

Alguém imagina os últimos 20 anos sem eles?




20 anos depois do primeiro episódio e já como verdadeiros representantes da cultura pop, a família amarela ainda continua aí a dar cartas nos ecrãs com a mesma irreverência.

Pese a pouca idade na altura, segui e registei o impacto inicial que esta família disfuncional de Springfield provocou quando chegou ao nosso país. Da altura, ainda guardo uma caderneta de cromos dos ditos - na única colecção que realmente fiz para além de colecções de competições futebolísticas.

O segredo do tremendo sucesso desta série, foi o carácter disfuncional e os traços exacerbados revelados por cada um dos personagens, algo que ao mesmo tempo, acaba por ser uma tremenda caricatura da própria sociedade americana. Concordo que hoje em dia estejam um pouco mais institucionalizados, mas em meu entender, souberam se adaptar bem às transições operadas, conservando as qualidades que me fizeram ver e ainda captam a minha atenção para a série sempre que é possível.



2009-11-12

até à Rua Sésamo!




E BUM! De repente já passaram 20 anos [40 da edição original americana]. Na altura, uma verdadeira pedrada no charco nos programas educationais infantis no nosso país. Um programa que foi visto por [e provavelmente influenciou] toda uma geração. Quem não se recorda deste genérico*?



*já com a presença do nosso desbobinador Tiago (aos 42s.), provavelmente já a prever voos futuros. O que confirma a tese que o desbobina é pior que o clube de Bilderberg [ehe]

"From Stettin in the Baltic to Trieste in the Adriatic, an iron curtain has descended across the Continent."








Nada mais corporizou tão fielmente esta divisão como a edificação do Muro do Berlim. Embora só tenha sido erguido em 1961, em plena fase quente da guerra fria, como resposta para suster a enorme saída e migração de alemães da então RDA para a então RFA [as restantes fronteiras terrestres tinham sido fechadas quase uma década antes], a sua queda foi um marco, dado que representou o fim de uma era e ao mesmo tempo permitiu a reunificação alemã ancorada num aprofundamento da integração europeia.
Na altura e face à queda de um bloco e face à supremacia ideológica do outro lado, muitos ousaram vaticinar o Fim da História [como em tantas outras ocasiões],mas a devida distância histórica viria a provar que tal vatícinio estava completamente errado. Aliás o próprio 11 de Setembro demonstrou isso mesmo.

Ainda assim, nada retira importância a este marco, que ao fim ao cabo foi uma vitória não de uma doutrina mas da liberdade. Conforme o João bem escreveu "os jovens berlinenses de vinte anos são hoje filhos de uma Alemanha e uma Berlim diferente. O que é hoje uma referência da Europa e da juventude continua a ter marcas subconscientes do que se viveu ali."

As implicações que a queda do muro produziu foram imensas. Porventura o Gueorgui [old shatterhand] tendo vivido do outro lado da cortina, bem melhor poderia explicar as alterações produzidas - mormente no dia a dia. Eu, na inocência dos meus 6 anos, vendo toda a animação dos meus irmãos mais velhos naquele longuíquo dia de 9 de Novembro de 1989, guardei na memória imagens de uma imensa turba de ambos os lados a derrubar partes do muro celebrando com tal feito com imensos sorrisos e satisfação.

Porventura pode parecer pretencioso, mas a realidade é que fiquei com a sensação que estava a assistir a história a ser feita. O que se comprovou ter vindo a ser verdade.

2009-10-29

Por Toutatis...




...Chegaram aos 50 anos! A par de Lucky Luke, das séries que mais gozo me deu ler (sempre gostei da escola franco-belga). Criados por Uderzo e Goscinny surgiram na revista Pilote a 29 de Outubro de 1959, estando neste momento traduzidos em 83 línguas e 29 dialectos. O paralelismo estabelecido com certas situações históricas (lembro-me do Grande Fosso e a questão do muro de Berlim) e os estereótipos criados são simplesmente geniais e ficarão para para todo o sempre.

O tempo é de festa ( sem o bardo) e honra aos já cinquentões irredutíveis gauleses que ousam resistir ao invasor. E que com a ajuda da poção sempre assim farão. A não ser que o céu um dia lhe caia em cima.


imagem: Visão Júnior