
Hoje à noite irei para a minha ilha natal. Entre as naturais saudades de familiares e amigos, ou a natural ligação que todo o ilhéu tem à sua terra (ainda que muitos o neguem esta existe), há sempre uma dúvida - comum a muitos aqui neste espaço - que me assalta sempre que vou: que alterações físicas encontrarei no espaço quando chegar lá?
Esta pergunta não é em vão. Lembro-me de há poucos anos, sempre que regressava (e ao contrário de muitos só ia em alturas ditas "essenciais") encontrava sempre grandes alterações. Reduzindo a análise à minha zona, era sintomático a quantidade de prédios, casas e apartamentos construídos. O aparecimento de estruturas em tudo o que era espaço, inclusivé por cima de pequenos cursos de água...Esta explosão de betão, em conjunto com o assassinato (autêntico genocídio ambiental em algumas zonas) perpetuado em algumas zonas da costa madeirense (ajuda não ter POOC definido), sempre me pareceram erradas e excessivas, isto olhando ao frágil ecossistema existente.
O estudo é um pouco longo e resumi-lo aqui de forma exaustiva e minuciosa, poria em causa o seu alcance [deixo à vossa consideração lê-lo dado que é interessante e ajuda a explicar e a confirmar certas premissas que são muito veiculadas, mas quase nunca são validadas]. No entanto deixo umas ideias e conclusões que me farão ir ao cerne de uma questão - a persistência neste modelo de desenvolvimento.
Refira-se que o investigador começa por expôr os três paradigmas de percepção ambiental existentes: Dominant Western Paradigm (DWW) - uma visão muito antropocêntrica, centrada no domínio do Homem sobre a natureza, na percepção de um mundo vasto com possibilidades ilimitadas, onde o Homem pode pôr e dispor, considerando este que a história da humanidade é uma história de progresso: para cada problema há uma solução e o progresso ultrapassará isso. Muito comum até inícios da década de 70. Acrescento que este paradigma acaba por estar muito associado ao mito do economicismo - percepção e redução do desenvolvimento à lógica meramente económica, muito em voga nesta altura.
O segundo paradigma existente é o Human Exemptionalism Paradigm (HEP). É mais uma vez um visão antropocêntrica, focando-se nas interacções entre os homens e as diferentes culturas, considerando o ambiente biofísico algo irrelevante para o contexto das interacções humanas, sendo que a acumulação de conhecimento técnico e social acaba por fazer ultrapassar os problemas e desigualdades existentes. Muitas vezes associado ao primeiro paradigma, acaba por vingar nas décadas de 70 e 80, como resposta ao aparecimento de um terceiro paradigma.
Este -
New Ecological Paradigm (NEP) - assenta numa matriz completamente diferente dos outros dois. Têm uma visão já ecocêntrica do Homem ou seja, este tem de interagir com todo o meio envolvente. Há uma noção claras dos limites da natureza, havendo um cuidado por preservar a simbiose existente - a inventidade e criatividade podem ultrapassar certos aspectos, mas as consequências disso poderão ser bem nefastas. Decorrem daqui as noção de sustentabilidade (tão em voga em tudo o que é mensagem e discursos nos dias que correm), ganhando esta visão muitos adeptos a partir da década de 70, havendo um reconhecimento para a pertinência do problema e para as consequências advindas para a as gerações vindouras, no célebre relatório Brundtland
"Our Common Future" - com a celébre definição de desenvolvimento sustentável - que preenche as nossas necessidades, salvaguardando as necessidades das gerações futuras (havendo depois muitas modificações consoante os objectivos de cada um - em 1994 a a cimeira de Davos citou uma noção de sustentabilidade muito própria, salvaguardando na básica as prácticas insustentáveis dos países presentes...)
Como já aqui disse, os ilhéus, devido às contigências naturais e limitadas em termos de espaço e grande exposição à força dos elementos, têm uma grande sensibilidade para as limitações da Natureza. Este estudo [baseado em entrevistas de um inquérito que versava várias áreas] vem comprovar isso mesmo, sendo esta preocupação transversal aos demais extractos sociais ou habilitações literárias dos inquiridos. Friso este último aspecto, porque é aqui que se revela a grande fractura na sociedade madeirense. Nota-se que a esmagadora maioria das pessoas inquiridas que não possuía habilitações escolares ou possuía apenas o nível básico ou de ciclo (até ao 9º ano), tinha uma visão muito utilitarista da Natureza, muito coincidente com o paradigma DPP (o primeiro que referi). Pelo contrário, quem possuía habilitações ao nível do secundário ou superior, possuía um grande pendor NEP - com uma visão muito preocupada com a acção humana sobre a natureza.
Curiosamente, ou tal vez não, tal fracção não era tão visível ao nível de extractos sociais, como uma primeira abordagem poderia supor.
Sabendo-se o baixo nível cultural e escolar da generalidade da população, assim como as graves deficiências existentes na Madeira a nível de sistema de ensino [ao que parece, somos das regiões do país com maiores taxas de reprovação e taxas de absentismo escolar] e a manutenção de um modelo económico (esgotado na minha opinião) centrado na construção [basta ver o ORAM 2009], é fácil descortinar o porquê de propostas algo surreais como a do Rabaçal ou a criação de não sei quantas praias de areia branca, poderem vir a colher no futuro algum entusiasmo por parte de certos sectores da população. Aliás, a aposta em cimento em detrimento de educação e inovação, acaba por criar um ciclo vicioso.
Já aqui escrevi que a generalidade das pessoas, olha a política com uma perspectiva de muito curto-prazo, de satisfação das suas necessidades pessoais. A cultura da fraternidade e a perspectiva e sentido cívico a longo prazo, são difíceis, quando não há as ferramentas nem o estímulo intelectual para se obter tal.
Parece-me a velha história das audiências televisivas. Face à degradação de conteúdos, os canais defendem-se que é isto que a maioria dos telespectadores quer. E caímos assim num ciclo vicioso, sem que haja a tentativa (que é trabalhosa e apenas recompensatória a médio-longo prazo) de elevação de conteúdos. A lógica imediata e insustentável é a que prevalece.
Transpondo para a temática em discussão, compreende-se assim o porquê da manutenção da política do betão. Esta é a mais segura e fiável para a manutenção e perpetuação no poder, para além de manter alimentados alguns interesses que sustentam todo este status quo. E pior é quando aliado a isto, a elite governativa aparenta ter uma visão muito utilitária e imediata sobre o uso do espaço.
Só assim se explica certas declarações efectuadas.
A mudança radical de modelo de desenvolvimento - imperativa e necessária face a muitos atropelos que têm vindo a ser feitos - tem de se processar rapidamente, sob pena de virmos a pagar futuramente [bem mais perto do que se crê] uma elevada factura, seja ambiental, seja social, seja económica...
Foto: flirck
*e não é que vim a descobrir através da foto existente no CIES que o conheço...dos tempos de jogador [petiz] de bola no mítico JAC!