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2010-01-13

Dejá Vu


"Apesar de ser uma obra recente e muito vultuosa, é já notório o abatimento que ocorre no solo junto da muralha que suporta o recém-inaugurado Estádio de Câmara de Lobos. O brutal investimento de 11,5 milhões de euros parece assim afundar-se, embora a situação seja minimizada pelo promotor da obra, o Governo Regional (...)"

in dnoticias.pt



Nova Marina do Lugar de Baixo?

2009-12-29

Brinquinho do Alberto vs Harpa de Nero



imagem D*Face



in publico.pt


Já agora, se porventura não fosse incómodo, que tal procurar um modelo alternativo de desenvolvimento e governação?

Olhando ao recente Orçamento da Região Autónoma da Madeira para 2010, onde mais uma vez as despesas afectas a infraestruturas nada sustentáveis [e na maior parte das vezes com claros propósitos eleitoralistas - nem falo da parte das receitas extraordinárias previstas], são uma parte de leão do mesmo, não sei até que ponto as consequências futuras da prossecução desta autêntica política suicida, não hipotecarão o futuro das gerações vindouras.

O círculo aparenta estar a apertar-se [recorde-se exemplo de notícia da entrega de escolas e equipamentos de saúde como garantias bancárias para conseguir empréstimos para pagar despesas correntes] e as claras insuficiências deste modelo são cada vez mais notórias. Já aqui escrevi que em política, o comum eleitor tende a não ter uma perspectiva a médio-longo prazo, recompensando politicamente muito a existência de obra, ou seja algo em termos palpáveis e visíveis - como o são betão e cimento. Os alertas para as consequências do arrastar deste tipo de modelo, já há muito eram conhecidos [existem estudos efectuados para o GR desde o início da década por parte de consultores], pelo que apenas se pode deduzir que apenas os ganhos políticos e a lógica da auto perpetuação política apenas estarão a justificar a insistência neste modelo.

Tendo em conta isto e prevendo-se o pior, já aqui dei conta que será engraçado saber como será retratado e relembrado este período, pelos próprios madeirenses daqui a 10 anos.

Já agora e em jeito de conclusão, não resisto a arriscar uma profecia qual Nostradamus. Não passarão muitos anos até introduzirem portagens na Via Litoral. Já esteve mais longe.

2009-08-05

Receita


"In these days, we see that a strong welfare state, together with free education and healthcare, has acted as a buffer that stabilises the economy"

Kristin Halvorsen, ministra das finanças norueguesa, citada pelo Guardian, numa peça onde indica a verdadeira receita que permitiu enfrentar positivamente a crise. Ao contrário da cartilha neoliberal que fez nas últimas décadas escola, onde o enfraquecimento do Estado foi uma constante, eis o exemplo [já muito propalado] de como é passível conciliar elevadas deduções e elevados encargos sociais, com elevada competitividade e rápido desempenho económico. Uma questão de cultura? Não só, pese seja prepoderante [comparar os nossos 48 anos de ditadura, tradição de rupturas ou a falsa universalidade e alcance do nosso Estado [exemplo SNS] com a cultura de diálogo, seja entre parceiros sociais, seja político desde sempre imperante nos países nórdicos]. No entanto, note-se que é cada vez mais premente uma efectiva aposta na Educação [ao invés das experiências ocorridas nestes últimos 30 anos], assim como a manutenção da aposta na qualificação da mão de obra disponível.

2009-01-20

Ciclo vicioso


"Porque não se investe mais na educação?

Os países mais desenvolvidos são os que investem em capital humano. Mas o problema de investir na educação é que a sua rentabilidade só surge passados 10, 15 anos. E os governantes aí já não estão lá para ouvir as palmas."

Jorge Rio Cardoso, autor do livro "Ser Bom Aluno, Bora Lá?" in Mundo Universitário [clicar para ler entrevista completa].


Hipoteticamente falando, pelo tempo que já dispõem no cargo, certos governantes já tinham recebido duas salvas de palmas, segundo o enunciado...Digo hipoteticamente, porque concerteza nunca passariam do segundo mandato. A lógica eleitoralista a curto alcance assim prevalece. E a política do betão perpetua-se porque é a que dá mais votos a curto-prazo, pois nunca se compadece com as necessárias alterações a longo-prazo!

post scriptum: Apresentação do livro na Madeira em excerto na RTP-M - clicar aqui.

2008-12-24

Atitudes sociais dos Madeirenses perante o Ambiente


Hoje à noite irei para a minha ilha natal. Entre as naturais saudades de familiares e amigos, ou a natural ligação que todo o ilhéu tem à sua terra (ainda que muitos o neguem esta existe), há sempre uma dúvida - comum a muitos aqui neste espaço - que me assalta sempre que vou: que alterações físicas encontrarei no espaço quando chegar lá?

Esta pergunta não é em vão. Lembro-me de há poucos anos, sempre que regressava (e ao contrário de muitos só ia em alturas ditas "essenciais") encontrava sempre grandes alterações. Reduzindo a análise à minha zona, era sintomático a quantidade de prédios, casas e apartamentos construídos. O aparecimento de estruturas em tudo o que era espaço, inclusivé por cima de pequenos cursos de água...Esta explosão de betão, em conjunto com o assassinato (autêntico genocídio ambiental em algumas zonas) perpetuado em algumas zonas da costa madeirense (ajuda não ter POOC definido), sempre me pareceram erradas e excessivas, isto olhando ao frágil ecossistema existente.

Mas já se perguntaram sobre o porquê de tanta permissividade dos madeirenses para com tal situação. Lembro-me de um estudo que li há alguns meses, de um sociólogo madeirense André Freitas*, que na sua tese de licenciatura, abordou "Desenvolvimento e Mudança Paradigmática na Madeira - Atitudes Sociais sobre o Ambiente", depois publicado na revista Sociologia, Problemas e Práticas [editada pelo CIES-ISCTE, Celta Editora, n.º 54, pp.101-125 - clicar para baixar respectivo pdf] ajuda a explicar em parte o porquê de tanta apetência por cimento - ou a noção que desenvolvimento apenas se consegue com isso.

O estudo é um pouco longo e resumi-lo aqui de forma exaustiva e minuciosa, poria em causa o seu alcance [deixo à vossa consideração lê-lo dado que é interessante e ajuda a explicar e a confirmar certas premissas que são muito veiculadas, mas quase nunca são validadas]. No entanto deixo umas ideias e conclusões que me farão ir ao cerne de uma questão - a persistência neste modelo de desenvolvimento.
Refira-se que o investigador começa por expôr os três paradigmas de percepção ambiental existentes: Dominant Western Paradigm (DWW) - uma visão muito antropocêntrica, centrada no domínio do Homem sobre a natureza, na percepção de um mundo vasto com possibilidades ilimitadas, onde o Homem pode pôr e dispor, considerando este que a história da humanidade é uma história de progresso: para cada problema há uma solução e o progresso ultrapassará isso. Muito comum até inícios da década de 70. Acrescento que este paradigma acaba por estar muito associado ao mito do economicismo - percepção e redução do desenvolvimento à lógica meramente económica, muito em voga nesta altura.

O segundo paradigma existente é o Human Exemptionalism Paradigm (HEP). É mais uma vez um visão antropocêntrica, focando-se nas interacções entre os homens e as diferentes culturas, considerando o ambiente biofísico algo irrelevante para o contexto das interacções humanas, sendo que a acumulação de conhecimento técnico e social acaba por fazer ultrapassar os problemas e desigualdades existentes. Muitas vezes associado ao primeiro paradigma, acaba por vingar nas décadas de 70 e 80, como resposta ao aparecimento de um terceiro paradigma.

Este - New Ecological Paradigm (NEP) - assenta numa matriz completamente diferente dos outros dois. Têm uma visão já ecocêntrica do Homem ou seja, este tem de interagir com todo o meio envolvente. Há uma noção claras dos limites da natureza, havendo um cuidado por preservar a simbiose existente - a inventidade e criatividade podem ultrapassar certos aspectos, mas as consequências disso poderão ser bem nefastas. Decorrem daqui as noção de sustentabilidade (tão em voga em tudo o que é mensagem e discursos nos dias que correm), ganhando esta visão muitos adeptos a partir da década de 70, havendo um reconhecimento para a pertinência do problema e para as consequências advindas para a as gerações vindouras, no célebre relatório Brundtland "Our Common Future" - com a celébre definição de desenvolvimento sustentável - que preenche as nossas necessidades, salvaguardando as necessidades das gerações futuras (havendo depois muitas modificações consoante os objectivos de cada um - em 1994 a a cimeira de Davos citou uma noção de sustentabilidade muito própria, salvaguardando na básica as prácticas insustentáveis dos países presentes...)

Como já aqui disse, os ilhéus, devido às contigências naturais e limitadas em termos de espaço e grande exposição à força dos elementos, têm uma grande sensibilidade para as limitações da Natureza. Este estudo [baseado em entrevistas de um inquérito que versava várias áreas] vem comprovar isso mesmo, sendo esta preocupação transversal aos demais extractos sociais ou habilitações literárias dos inquiridos. Friso este último aspecto, porque é aqui que se revela a grande fractura na sociedade madeirense. Nota-se que a esmagadora maioria das pessoas inquiridas que não possuía habilitações escolares ou possuía apenas o nível básico ou de ciclo (até ao 9º ano), tinha uma visão muito utilitarista da Natureza, muito coincidente com o paradigma DPP (o primeiro que referi). Pelo contrário, quem possuía habilitações ao nível do secundário ou superior, possuía um grande pendor NEP - com uma visão muito preocupada com a acção humana sobre a natureza.

Curiosamente, ou tal vez não, tal fracção não era tão visível ao nível de extractos sociais, como uma primeira abordagem poderia supor.

Sabendo-se o baixo nível cultural e escolar da generalidade da população, assim como as graves deficiências existentes na Madeira a nível de sistema de ensino [ao que parece, somos das regiões do país com maiores taxas de reprovação e taxas de absentismo escolar] e a manutenção de um modelo económico (esgotado na minha opinião) centrado na construção [basta ver o ORAM 2009], é fácil descortinar o porquê de propostas algo surreais como a do Rabaçal ou a criação de não sei quantas praias de areia branca, poderem vir a colher no futuro algum entusiasmo por parte de certos sectores da população. Aliás, a aposta em cimento em detrimento de educação e inovação, acaba por criar um ciclo vicioso.

Já aqui escrevi que a generalidade das pessoas, olha a política com uma perspectiva de muito curto-prazo, de satisfação das suas necessidades pessoais. A cultura da fraternidade e a perspectiva e sentido cívico a longo prazo, são difíceis, quando não há as ferramentas nem o estímulo intelectual para se obter tal.

Parece-me a velha história das audiências televisivas. Face à degradação de conteúdos, os canais defendem-se que é isto que a maioria dos telespectadores quer. E caímos assim num ciclo vicioso, sem que haja a tentativa (que é trabalhosa e apenas recompensatória a médio-longo prazo) de elevação de conteúdos. A lógica imediata e insustentável é a que prevalece.

Transpondo para a temática em discussão, compreende-se assim o porquê da manutenção da política do betão. Esta é a mais segura e fiável para a manutenção e perpetuação no poder, para além de manter alimentados alguns interesses que sustentam todo este status quo. E pior é quando aliado a isto, a elite governativa aparenta ter uma visão muito utilitária e imediata sobre o uso do espaço. Só assim se explica certas declarações efectuadas.

A mudança radical de modelo de desenvolvimento - imperativa e necessária face a muitos atropelos que têm vindo a ser feitos - tem de se processar rapidamente, sob pena de virmos a pagar futuramente [bem mais perto do que se crê] uma elevada factura, seja ambiental, seja social, seja económica...

Foto: flirck

*e não é que vim a descobrir através da foto existente no CIES que o conheço...dos tempos de jogador [petiz] de bola no mítico JAC!