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2011-07-30

"libertem-se! libertem-se!"

o teatro liberta-se do palco e das regras. é - quase sempre - assim com o'Bando. são muitas personagens e acção. e acção. e acção. a música é ofegante, empolgante e ansiosa. a peça, um quadro vivo.
no pino do verão o cenário é 3d e o público - pouco habituado a estas coisas, e que decididamente ainda não é o das comédias do minho - liberta-se dos seus hábitos e costumes mais enraizados. participa, ouve eugénio de andrade, escuta música pouco convencional e pensa... sobre este cenário. que já lhe foi mais familiar e de repente se tornou tão frio e desconhecido. e não é da nortada nem da falta da manta.
e depois há o incauto velho da vila, que se surpreende quando a montanha se ilumina. e há o cão inesperado que rouba risos à plateia e luz aos actores. jerusalém? há o verso de eugénio. provocantemente poético. e há um palco múltiplo a exigir o melhor do greenway que cada um traz consigo.e hoje trememos de susto com o sol sustenido da lírica ou desejamos calorosamente a fartura gulosa. e acabamos vendo mais do que se vê naquele escuro. e não é da lanterna.
o som cresce. intensifica. no pó solto daqueles pés irrequietos, ali, bem no alto do castelo, vejo: "um israelita e um palestino juntos" e sei que não é chromeo, nem "o julgamento dos povos emancipados" feitos diabretes. é a natureza morta feita retrato de cor, som e palavra. é eugénio de andrade por joão brites ou a realidade islandesa que podia ser nossa. é a liberdade numa noite de fim de julho. e não fico sentado. e não é da falta do banco.
no pino do verão é isto. assim. é assim todos os anos. é assim para todos. é assim como que um pedido: "libertem-se".

pino do verão 2010

2011-07-22

isto não é da "troika"

passado
um terço dos deputados tinha assento em empresas do estado, propondo posteriormente leis que as favoreciam. os gestores portugueses são dos menos qualificados na OCDE. os gestores que apresentaram gestões evidentemente danosas nunca foram responsabilizados pelas suas acções. portugal gasta em educação mais do que a média europeia e apresenta os piores resultados.a economia paralela encontra-se em crescendo. o «povo» habitou-se facilmente aos direitos adquiridos mas nunca aos deveres necessários. o «povo» aceitou ser chamado «povo», apesar da evidente estratificação que isso significa.
o passado é o nosso presente.


presente
o governo baixou as indemnizações em caso de despedimento. o governo vai cortar até 50% nos subsídios de natal (mesmo para os que não o recebem). o governo quer aumentar 15% nas tarifas de bordo e passes sociais dos transportes.o governo desiste das golden shares. o governo fecha as escolas que achava que não deviam fechar há três meses. o governo prepara-se para alienar património a preço de revenda. o governo privatizará apenas os organismos que dão lucro. o governo nomeia toda uma nova administração para a CGD (de profunda confiança política) e mantém em funções o anterior presidente. o governo não cobra nenhum imposto especial sobre a banca. o governo... 
o presente arruína o nosso futuro.

futuro
ser ou não ser pessimista? a europa está em crise. faltam figuras de referência. faltam valores. falta europeístas. e, contudo, nunca fomos tão europeus como hoje. os jovens viajam, estudam, trabalham por toda a europa. acreditam nela. e os políticos? a política que temos é o triste resultado de um jogo que perdemos por falta de comparência. os «maus» apenas ganharam porque ninguém vai a jogo. todos os jovens descem a avenida da liberdade, fazem acampamentos e são contras as provas globais da nossa vida, mas nunca fazem política. a nobre política perdeu-se, e apenas sobram os reles interesseiros das juventudes partidárias. e compensa? claro. nem que tenham que passar pela presidência d'os belenenses para fazer tempo.
e hoje vejo que não houve passado. foram muitos anos de ditadura. demasiados. mas ninguém saiu deles. os portugueses continuaram presos à ditadura, nem que seja a da posse, a do querer mais, a do sonho de ter um trabalho para a vida, casar, comprar casa, ter 2,1 filhos. todos provincianos. como salazar quereria. e muitos dos jovens, aqueles que são dos mais qualificados que portugal já teve, continuam a querer o mesmo. o mesmo que os pais: um trabalho das 9 às 5 e um fim de semana no colombo.
o caminho não é a rua. nem a revolução. nem mesmo a falência de países, partidos ou sistemas económicos. uma das soluções passa pela acção de todos: nas eleições, nos orçamentos participativos, no apoio ao próximo, quer seja colega ou estranho. e passa por menos cigarros, cafés e pausas para conversar. chega de conversa. é hora de trabalhar a 100%. de confiar. de acreditar. e, ao mesmo tempo, julgar nos órgãos competentes os que falharam; de políticos, a gestores, de serventes a policias ou juízes. sem sangue. sem guerra. nem violência. é hora, portugal. e a  nossa acção não pode depender do que vai ser o pior governo desde o 25 de abril. o ultraliberalismo económico vai atingir níveis nunca antes vistos. porquê? porque vai ser possível comprar mais por menos. porque em portugal há bons produtos. porque é possível fazer dinheiro com portugal. e todos o sabem.

tudo isto é apenas mais um desabafo. daqueles que surgem da revolta de quem não atira a primeira pedra. eu sei que nada vai mudar amanhã. sei que vão continuar a despedir ou diminuir ordenados por email, vão dispensar os assistentes, os empregados mais frágeis, sem perceber que não são aqueles 450 ou 600 euros que dão cabo da empresa. que as empresas são é muitas vezes mal geridas. não me custa ver um mexia a ganhar muito se ele for mesmo bom. porque também pagará impostos sobre esse valor. mas custa ver o empresário que ganha o "ordenado mínimo", e o que mata um pais é a distribuição injusta e desequilibrada das injustiças e esforços. a banca tem que pagar. os maus gestores, médicos ou advogados têm que pagar. os bons têm que ser premiados. isto é apenas mais um desabafo. eu sei que nada vai mudar...
porque o futuro não chegará amanhã.

nota: publicado inicialmente no "nem vale a pena dizer mais nada"

2010-04-03

marco ou areia?


a adoração das marcas by D*Face

"O iPad pode vir a ser tão revolucionário que um dia vamos olhar para trás para o seu lançamento, como um Alexander Graham Bell a falar com Watson", escrevia ontem Howard Kurtz no "Washington Post". "Ou não", acrescentava depois, com uma ponta de ironia(....)".

É hoje lançado o novo gadget da Apple. O iPad, como todos os produtos da marca da maçã, vem rotulado de "next big thing" que revolucionará e ditará as tendências para os próximos anos, envolto claro está, numa imensa campanha de marketing e apoiando-se na ansiedade e na espera da cada vez crescente horda de fãs da marca - muitos dos quais, imbuídos de uma aparente cegueira, não se importarão de gastar € em mais um gadget.

Não querendo suscitar uma fútil guerra - estilo PC e MAC - pessoalmente aparenta-me que este produto, pese toda a expectativa, aparenta-me ser um bluff isto tendo em conta todas as características messiânicas que lhe apontavam. O facto de não ser "multitasking" ou seja, não vir a permitir a realização de várias tarefas ao mesmo tempo é um grande handicap.

Por outro lado, não dispor de câmara e de outras funcionalidades é também lesivo face ao preço dado. Custará sempre mais que um normal Netbook - nicho de mercado que a Apple pretende cobrir. Aceito e acredito nos "macbelievers", que, qual proselitistas me indicam maravilhas acerca dos produtos da marca. Reconheço o melhor design e não tenho dúvidas no melhor desempenho audiovisual e gráfico do produto. Compreendo ainda que a posse dos próprios produtos, possam gerar e facultar a (falsa) noção de pertença a uma comunidade, numa espécie rebuscada de nacionalismo versão 2.0. Como se uma religião se tratasse.

Voltando ao produto, o preço aparenta-me ser excessivo. Assim como o conceito não é propriamente novo - a roupagem sim. E custa-me ver tanta alienação à volta de um produto, que antes mesmo de ser lançado já é um elevado a patamares estratosféricos - vide as previsões de vendas e o "buzz" provocado pelos crentes.

Isso leva-me a concluir que aparentemente areia possa estar a ser atirada à cara do cliente.

Mas como não quero influenciar negativamente ninguém, recupero aqui um texto do guru Paulo Querido sobre o assunto, onde se traça um breve guia do produto.

2009-02-13

"Os olhos do mundo e a fortuna" - Review


Sábado, dia 7.

22h, Espaço Kabuki - Centro de Arte Contemporânea, sito aos Anjos. Ainda ofegantes [enganamo-nos na rua], chegamos à entrada que à primeira vista parece uma simples garagem, mas rapidamente revela nas paredes uma exposição de Alexander Arshansky - pintor russo radicado nos EUA que viveu no último ano em Portugal, sendo esta a temática desta exposição [quadros ver aqui]. Leigo na matéria, observo o jogo alegre de cores, o especial fascínio do artista por olhos, a anarquia que impera nas suas telas, assim como as influências [dizem os entendidos] de Picasso, Magritte e Boch. Gosto do que vejo - e desde já fica a minha recomendação para um programa grátis [a não ser que queiram comprar alguma tela...], em exposição até ao próximo dia 18 de Abril.

No entanto o objectivo da vinda [e do post] não é este. Aproveitando a dica deixada anteriormente pelo Pedro, ele próprio, eu e outras duas desbobinadoras [creil e ...], vamos assistir à peça "Os olhos do mundo e a fortuna" de Jonh Herbert.

Escrita no início da década de 60, estreada em 67, esta peça cómico-dramática [em parte autobiográfica] foca o ambiente de um reformatório juvenil masculino. É considerada pioneira, dado que foi das primeiras a abordar seu complexos a temática da homossexualidade, quer despindo certos preconceitos associados a esta, quer abordando o contexto dos reformatórios/prisões. Esteve na origem da constituição da Fortune Society, ONG de reinserção social de ex-reclusos.

Decorrendo num único cenário [a cela], revela-nos a história de um pacífico e ingénuo jovem condenado por delito menor [Smitty] que durante a peça se transformará num insensível e manipulador líder. No processo irá interagir com Rocky [o gabarolas e durão], com Queenie [abertamente homossexual, manipula o sistema em seu proveito], com Mona [sujeito passivo e sensível, é o típico elemento desenquadrado do meio onde está] e com Cara de Anjo [guarda corrupto que se encontra à beira da reforma].

Imbuída de um certo espírito "Actors Studio" [muito em voga em NY na década de 60], trata-se de um excelente texto [adaptada ao contexto português numa tradução efectuada por José Henrique Neto - faz de guarda], com uma excelente interpretação de todo o elenco - o já referido José Henrique Neto, João Vicente, José Redondo, Luís Redondo e Tomás Alves [grupo 3-sete-3] - bem acessorados na produção técnica pela Cena de Eventos [agrupamento a que pertence o desbobinador Pedro Costa - sonoplasta da peça em questão].

Importa realçar que esta peça já esteve em exibição no Teatro Mirita Casimiro (TEC), o Teatro da Trindade e o Espaço Karnart (onde foi escolha da semana da revista Time Out), notando-se um perfeito domínio do texto em questão.
Tanto que nem se deu pelo tempo a passar, fluíndo a peça rapidamente, ajudando em muito as passagens cómicas que a peça possui, sem no entanto deixar de se desviar da mensagem e apelo à reflexão que a mesma se propõe fazer.

Inserida num ciclo "Transgressão e Exclusão” - em conjunto com "O Beijo da Mulher Aranha" de M. Puig (1976), outra peça a apresentar dia 15 do corrente, num debate no mesmo espaço com actores e encenador - fica aqui expresso um interessante e diferente programa para dia 13 (hoje) e 14 de Fevereiro, com a recomendação positiva do Desbobina [pelo menos a avaliar pelas reacções de todos]. O texto e a perfomance valem a pena e é de aproveitar estas duas últimas exibições!

Às 22h no Espaço Kabuki - Rua Newton 10B - Metro Anjos.

Podem reservar bilhetes ou esclarecer alguma dúvida através dos seguintes números: 96.4464855 96.6864730

2009-01-16

Embuste

Creio que é a melhor palavra que tenho para caracterizar a entrevista que Alberto João Jardim concedeu na passada segunda, no novo programa de Mário Crespo.
E digo isto, face às honras publicitárias prévias que o programa teve.
Olhando ao referido, de repente assistia-se à elevação de Mário Crespo - curiosamente alguém que ultimamente ora é conotado com o partido do poder [vide crónica de sábado do jornal Público do crítico Eduardo Cintra Torres], ora é conotado com o partido social democrata [já foi convidado para sessões da universidade da JSD, como vi escrito em muitos blogues] - a um patamar semelhante à escala portuguesa de um Larry King ou de um Dan Rather no seu "60 Minutes"!

Tinha para comigo, que Crespo era um jornalista que se preparava bem para este tipo de entrevista e olhando que do outro lado estaria o meu conterrâneo Alberto João Jardim (AJJ), resolvi ver o dito programa.

Há que referir que a escolha não é inocente. AJJ, além de por vezes ser politicamente incorrecto e não ter decoro em dizer o que lhe vai na alma, tinha recentemente dado um prazo de clarificação a Manuela Ferreira Leite, a impopular - olhando às mais recentes sondagens - líder dos sociais democratas, deixando a percepção entrelinhas que uma possível candidatura à liderança nacional poderia ser possível. Considerando-se a actual situação do maior partido da oposição a nível nacional e tendo em conta que com este entrevistado, as declarações bombásticas poderiam aparecer do nada, nada melhor que este entrevistado como chamariz de audiências, podendo ainda Crespo vir a demonstrar que a fama que recaía sobre si não era descabida.

Nada mais falso. Creio que a grande supresa desta entrevista, foi o carácter quase amador com que o jornalista preparou a mesma. Bem sei que o ênfase dado à mesma incidia sobre a questão da liderança nacional do PSD - e a necessidade de conseguir uma disponibilidade de AJJ para a mesma, mas reduzir toda uma entrevista a este tema, passando depois para aquestão da revisão constitucional, passando por cima de quase toda a temática regional - à excepção da Lei das Finanças Regionais, denota uma falta de preparação de bradar aos céus.

Depois, sabendo-se que todo o entrevistado gosta de ter um certo controlo sobre a entrevista e o rumo que a mesma está a ter, Crespo ingenuamente deixou-se guiar, esgotada a temática acerca da liderança do PSD nacional, por AJJ de uma forma que transformou o programa num palanque autêntico, não dispondo de armas - por aparente falta de preparação - para efectuar perguntas interessantes que obrigassem AJJ a ter que rebater.

Não se pense que AJJ saiu bem na foto. Mesmo sabendo que no rectângulo, não dispõe do capital de apoio que tem na ilha - muito longe disso, enfim consequência de guerrilhas passadas - AJJ tinha aqui uma oportunidade para se "imacular" transmitindo assim uma imagem de opção credível para o resto do país.

Bem sei que o "timming" político não é considerado o melhor e neste momento, a liderança do PSD não deverá ser um dos cargos partidários mais apetecidos do país, mas o facto de deixar vincado que apenas avança sem oposição, apenas ajuda a consolidar a imagem de homem autoritário, que no rectângulo têm de si. Isto para não falar, nas forças de bloqueio que no interior do partido, o têm impedido de avançar (!?!) - enfim o habitual inimigo invisível.

Os portugueses por norma, devido à baixa confiança da sua sociedade, gostam de lideranças fortes com o seu q.b. de determinação - vide o elogio dado a Sócrates no início do seu mandato. No entanto, os 48 anos de ditadura ainda estão frescos na memória e a veiculação e insistência apenas nesse aspecto - a roçar o autoritarismo - ainda para mais com todo o historial de dislates de AJJ, nada de positivo traz.

Digo isto, porque AJJ demonstrou nesta entrevista, ser uma pessoa avessa à diversidade e à discussão ideológica dentro do partido - esquecendo-se que nada é imutável e que a adaptação a novos paradigmas é imperativa - não considerando avançar contra mais candidatos. Ou seja, esperando que haja consenso à sua volta e que a eleição seja apenas uma mera formalidade.

Politicamente, o PSD, partido com uma imensa vocação de poder, atravessa uma enorme crise, e isto em parte porque o PS ocupou parte do seu espaço natural ao centro. Aceito que provavelmente uma liderança forte, seria necessária para voltar a unir o partido - que para além de reunir diferentes sensibilidades, umas em contradição com outras como AJJ bem indicou, carece de uma certa fundamentação e adequação ideológica, ao contrário do que acontece com o PS.

No entanto, esta união, nunca pode acontecer assim, num quadro de mera aclamação. Terá imperativamente de haver uma clarificação ideológica do que é este PSD e para tal terá que haver debate e discussão, o que pode não se coadunar com os calendários eleitorais vizinhos, nem com os interesses pessoais de muitas facções no partido - entre as quais o PSD-M.

Outro facto que ressalvou desta entrevista, foi a (demais conhecida) veia populista de AJJ. Nem falo pela postura de apelar directamente portugueses, falando com desdém da restante classe política, estabelecendo assim uma ligação de simpatia - explorando um sentimento comum ao português médio.
Falo da sua insistência na mudança, por referendo, de regras contidas na Lei Geral do país. Diz que não entende o porquê de estas não serem passíveis de mudança. Creio que não é necessário explicar a diferença entre a democracia representativa e a directa - Benjamin Constant no início do séc. XIX faz uma excelente analogia entre " A Liberdade dos Antigos comparada com a dos Modernos". Nem explicar o fim trágico que a República de Weimar teve e o autêntico plebiscito que levou Hitler ao poder. Ou demonstrar como o argumento da Lei das Finanças Regionais e o apelo ao voto de protesto contra Lisboa, inquinou e afastou qualquer tentativa de discussão de programa de governo (desconheci se o PSD-M apresentou algum), afinal o que estava em jogo nas regionais de 2007.

A maneira como passou por cima da questão do endividamento das Sociedades de Desenvolvimento, dizendo-se adepto de uma escola orçamentista que preconiza o investimento criando condições para o retorno, sem que Crespo fizesse alguma contraposição indicando os flops por demais conhecidos, foi a meu ver caricato. Ou o desconhecimento do nome Passos Coelho.

No fundo, a aparente sentimento de atrapalhação que Crespo muitas vezes demonstrou aliado à sua falta de preparação - e nisso creio que os madeirenses tiveram muito mais noção disso que os restantes portugueses, dado que a entrevista teve um enfoque muito nacional - acaba por condicionar muito esta entrevista.

Ainda que AJJ apontasse algumas falhas que até eu e muitos que não sendo necessariamente da sua área política, apontam - a excessiva dependência dos partidos (a questão da partidocracia), a necessidade de renovação de quadros, a necessidade de redefinição ideológica do maior partido da oposição (e um dos dois partidos de poder em Portugal) com a constituição de uma verdadeira alternativa diferente, não considerei que esta entrevista trouxesse nada de novo.

Para Crespo esta foi uma saída em falso e terá que corrigir muitos aspectos para a próxima. Calculo que aos olhos da opinião pública nacional, a sua prestação não tenha sido assim tão má, mas conhecendo-se a realidade madeirense, mesmo descontando que o ênfase da entrevista teria que ser nacional, não se pode reduzir a preparação a um ou dois aspectos, descurando muitos outros - que para azar do entrevistador, pelo decorrer da entrevista, até faziam sentido ser muito mais explorados.

Para AJJ, para além de ter deixado vincado que não é alternativa sem largo apoio, ter deixado vincado que a participação e debate não são primordiais em relação ao "ganhar eleições" - nem que para isso se sacrifique um dos pilares da cultura democrática, ter eleito Sócrates como inimigo público nº1 - numa obsessão que daria azo a um outro longo "post", acaba por repetir os mesmos argumentos já algo gastos que tem vindo sempre a proferir. Prova foi que o único facto novo que poderia ter algum impacto - a afirmação de que estaria disponível para líder nacional do PSD, porventura o "leitmotiv" de toda a entrevista - ao não ser proferido e sendo inclusivé negado, fez com que a repercussão da mesma nos meios nacionais fosse meramente residual.

Sabendo que o discurso habitual já não "cola" e quando todas estas incidências se conjugam, face à expectativa criada, creio que fica justificada a minha escolha de título, ao fim ao cabo o sentimento que prevaleceu no fim, face às prévias expectativas criadas pelo programa.

2008-12-04

Less Than Jake

Passada sexta, dia 28. No pequeno teatrinho da Sociedade União Musical Paredense, junto à saída da estação da Parede. Noite chuvosa, provavelmente a augurar um mau espectáculo. Puro engano. Sala cheia. Velha guarda juntamente com a nova geração. Simplesmente para ver uma das melhores bandas ska-punk (de 3ªgeração) e provavelmente uma daquelas que mais terá influenciado muito o estilo nas últimas décadas a par de Mighty Mighty Bosstones, Mad Caddies ou Catch 22.

Tenho de referir que Less Than Jake não será certamente uma daquelas bandas que qualquer leitor facilmente identificará. A mim e pessoalmente, apenas os conheci com a minha entrada na faculdade, dado que são uma banda que fora dos grandes centros urbanos, não tem a devida divulgação. Mas rapidamente tornaram-se uma das minhas bandas favoritas. Pessoalmente e fazendo referência ao álbum Borders & Frontiers, é daqueles que me lembram imenso o Verão e as grandes viagem de carro por esse Portugal fora (fosse para a costa alentejana, fosse para a costa da zona Oeste).

Focando temas mundanos de uma forma descontraída, com imensa capacidade de gozar de si próprios e criando melodias simples, directas e positivas, começaram por ser uma simples banda punk formada em Gainsville, Florida em 1992, mas que rapidamente acabam fruto da elevada rotatividade da banda no seu início por se transformar numa banda de ska-punk com a entrada de trompetistas e tocadores de trombones.
Less Than Jake são uma banda que pese a sua diminuta difusão, arrastam atrás de si uma enorme legião de fãs. E isso reflectiu-se imenso no concerto [aliás bem aberto por uns interessantes Fita Cola com o seu punk seguro, assim como precedidos de dos animais de palco californianos Guttermouth, numa actuação que até deu para flexões em palco por parte de alguém do público, para danças de uma jovem rapariga com direito a beijo no final ao vocalista, tudo pontuado pelas piadas sarcásticas do vocalista - que exibia um estilo muito Johnny Rotten].

Até deu para o nosso Carregador de Piano fazer stage diving e andar a surfar pela plateia (ehe). Tocaram imensas músicas dos álbuns antigos, "moshpit" activo mas numa onda positiva [como é norma no género], "circle mosh", muito "stage diving", muito "crowd surfing", (incluindo um velhote que insistia em subir sempre ao palco - vide aqui) muita interacção com o palco, muito suor, muitos saltos, corridas em palco, muita cerveja pelo ar.... Enfim um verdadeiro concerto de ska-punk à moda de Less Than Jake (vide aqui vídeo de Look What Happened).
Highly recommended! Com a chancela do Desbobina!

Fica aqui o último vídeo da banda, numa altura em que se nota uma certa mudança de postura face aos temas tratados nas suas letras...ainda assim, uma boa malha a fazer lembrar os bons velhos tempos!

2008-10-27

6=0 HOMEOSTÉTICA


Documentário sobre o movimento Homeostética, que surgiu em Lisboa nos anos 80 e foi constituído pelos artistas Fernando Brito, Ivo, Pedro Portugal, Pedro Proença, Manuel João Vieira e Xana. Utilizando o humor como estratégia de demarcação crítica, a Homeostética manteve sempre uma posição marginal de fortes influências Dadaistas e desenvolveu uma intensa produção que resultou em exposições, textos, manifestos, filmes, concertos e outras performances colectivas. Discretos nas suas realizações e desprezando olimpicamente a sua própria glorificação, os homeostéticos perderam em visibilidade externa o que vieram a ganhar em modo de existência. Para eles o sentido da vida encontrava-se na criação artística e a criação artística, por sua vez, permitia-lhes inventar novas possibilidades de vida.

in doclisboa.org

Tendo recebido uma menção especial na edição deste DocLisboa que ontem finalizou, este excelente documentário realizado por Bruno de Almeida em parceria com 2: - que tive a oportunidade de ver na passada sexta 24 de Outubro e no qual deixo o respectivo trailer - retrata a história e evolução do movimento Homeostético. Englobando o mediático Manuel João Vieira - quem não se recorda da sua memorável caminhada presidencial de 2000 (na qual participaram dois ilustres membros deste espaço), este grupo de jovens artistas realizando uma profusão de trabalhos nas mais variadas áreas - a criação dos míticos Ena Pá 2000 é apenas um exemplo disso mesmo - usou o humor para criticar a pequenez do país e do meio artístico português. Completamente adversos a qualquer tipo de reconhecimento, fosse pessoal, fosse por parte da elite intelectual da época - sendo muitas vezes vistos de lado - em 2004 Serralves dedicou-lhes a devida homenagem através de uma exposição comemorativa.

Assentes numa sucessão de códigos próprios ligados à própria herança cultural do país, não deixo de pensar que se Monty Phyton conseguiram o sucesso e projecção que tiveram pelo surrealismo e absurdo dos seus "sketches" na altura em que apareceram ou Seinfeld teorizando sobre o nada numa série homónima no início de 90's, este movimento olhando às suas produções e à multidisciplinariedade da sua produção artística e ao contexto vivido no país, caso estivéssemos noutro país, o movimento poderia ter tido uma outra projecção ou reconhecimento.

Fica dada nova dica. Vale a pena. Porque uma gaja boa, é porque não é boa à toa!*

*sábias palavras homeostéticas

2008-02-22

Macacos do Ártico


Numa cerimónia pontuada pelo ressurgimento de um dos meus maiores pesadelos de pré-adolescência [eu não me esqueço as tormentas que passei quando ouvia aquele som polido, teenager, meloso e merdoso da janela da minha vizinha - o Bob sabe o que estou a falar], falo obviamente do prémio ganho pela versão recauchutada dos Take That com o single "Shine", louve-se ao menos a consistência qualitativa dos 4 rapazinhos de Sheffield e o seu justo reconhecimento [embora nisto de prémios, isso seja algo relativo].

Pese possam ser criticados por lançar músicas em catadupa [Camilo Castelo Branco também recebeu a mesma crítica no seu tempo], a realidade é que Artic Monkeys conseguiram o feito de repetir os prémios de 2007 de melhor banda assim como o melhor álbum brit do ano, feito nunca conseguindo nas anteriores 31 edições do certame. Será que esta consistência é para durar? Da minha parte espero que sim...