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2013-08-31

Footy Tunes #3 - Mais que um simples jogo.


Mais que um simples jogo.
Aires Gouveia



15 de Dezembro de 2001.

Antigo Estádio da Luz. 

Recém-chegado à capital, com 18 anos ainda frescos, finalmente assistia ao vivo ao meu primeiro derby. 
Por sinal o último disputado naquele estádio ainda completo - antes do início das demolições que ocorreriam no dia seguinte e decepariam parte da estrutura da velha catedral, numa Luz efervescente a rebentar pelas costuras.
Aquele Benfica-Sporting do mergulho do Jardel.

Recordo com exactidão todos os momentos que rodearam esse acontecimento.
Desde a compra de bilhetes na "cadonga" por um preço muito acima do normal, à energia electrizante que rodeou a entrada no estádio, o estar emparedado a saltar num sector com muitas mais pessoas que o permitido, o acreditar numa vitória indo da emoção do 2-0 à desilusão do 2-2 final, num jogo com tudo desde expulsões a penaltis, o sentimento de revolta no final, a chuva de pedras entre grupos de adeptos no túnel sobre a 2ª Circular ou o ficar à espera da saída do autocarro do Sporting para mostrar um cachecol do AC Milan - equipa que os tinha eliminado da Europa uns dias antes, e sentir que tinha ganho o dia ao ver que o Hugo Viana tinha respondido a tal gesto com um manguito (pese o excerto de porrada que apanhei no final da noite por estar no sítio errado, à hora errada, provavelmente com as cores erradas...).

Bem vindos ao domínio do irracional. 
Ao domínio da paixão. Exacerbada. 
Do jogo no qual, não obstante a classificação à altura, não haverá favoritos à partida. Porque é o Derby. Isso mesmo, escrito com letra maiúscula.
O clássico dos clássicos. 
E tendo como breve amostra muitas mesas de matraquilhos em bares por esse país fora, o jogo que mais paixões suscita em Portugal.

Eis o Derby da Capital. Da Segunda Circular. O Derby Eterno.

Tal como Caim e Abel, como dois irmãos fratricidas, nado e criados na mesma cidade, porém de origens bem distintas, o choque entre dois emblemas obrigados a coexistir e a partilhar um espaço em comum, 
Se bem que ambos terão no entanto a noção, de que um não existiria ou teria a mesma grandeza se não existisse o outro. Como um Yin e o Yang.
Um confronto que faz perceber o verdadeiro significado da palavra rivalidade, um embate sem tréguas, despertando paixões não só na capital, como mexendo efectivamente com todo o país e além-fronteiras.
Pese o domínio do futebol indígena tenha há muito rumado a Norte.

A história deste jogo remonta muito atrás. À própria origem dos clubes. Tal como todos os grandes clássicos, há sempre um catalisador para toda esta rivalidade. 

O primeiro derby disputou-se há mais de 100 anos, mais precisamente a 1 de Dezembro de 1907. No Campo da Quinta Nova, em Carcavelos, casa emprestada então do Sport Lisboa - que um ano mais tarde se fundaria com o Grupo Sport Benfica, formando o actual Sport Lisboa e Benfica.

O recém-formado Sporting Clube de Portugal apresentou em campo oito jogadores que haviam abandonado o Sport Lisboa, "aliciados" ou "em busca" (ler conforme cor clubística mais adequada) "por" ou "de" melhores condições oferecidas pelo primeiro. Bastou um campo próprio, existência de balneários e sanitários.

Para compor o ramalhete, um dos fundadores do Sport Lisboa, Cândido Rosa Rodrigues (um dos irmãos Catatau"), agora com outras cores, foi o marcador do primeiro tento da vitória do Sporting, selada na sequência de um auto-golo infeliz marcado por Cosme Damião (grande impulsionador do Benfica durante o primeiro quarto de século de vida - ainda hoje é o treinador com mais épocas ao leme das águias com um total de 18 anos seguidos), perfazendo o resultado final da de 1-2 - Corga marcaria o tento de honra do Sport Lisboa.
Isto sem antes e na sequência de uma forte chuva, o Sporting ter interrompido o jogo e se ter retirado, apenas retornando sob a ameaça feita pelo árbitro da partida de que poderia vir a perder o jogo caso não revertesse essa sua decisão de abandono. 

Duzentos e oitenta e nove jogos oficiais depois e neste sábado teremos mais um embate entre as duas equipas.
O 290º desafio.
O saldo regista 127 triunfos para as águias, 104 dos leões e 58 igualdades. Em termos de golos marcados, nova vantagem do Benfica com 493 golos marcados contra 448 golos do adversário. 

Números que alimentam este choque de titãs que atravessou décadas. 

Uma partida com um confronto cultural e identitário bem definido. De um lado um clube de matriz bem popular e transversal mais conotado com as classes baixas. Do outro um clube mais aristocrático ligado aos sectores mais abastados da sociedade.
Ainda hoje em dia, pese as bases de apoio sejam bem mais transversais e misturadas, esta segmentação encontra-se enraizada no ADN do ideário popular. 

Um jogo que cresceu para além do conceito de simples jogo. Que criou mitos e lendas em volta do mesmo, alimentando-se e retro-alimentando-se de tais conceitos desde aquela tarde invernosa de Dezembro em 1907.

Numa vez li uma descrição interessante que ilustra bem o porquê deste jogo ser tão especial. 
Um "Benfica-Sporting" ou um "Sporting-Benfica" nunca são meramente um "Benfica-Sporting" ou um "Sporting-Benfica". 
Serão sempre "aquele". 
Tal como foi "aquele" do mergulho do Jardel.
"Aquele" da cabeçada de Luisão. 
"Aquele" do brinco do Baptista. 
"Aquele" dos sete a um.
"Aquele" em que o Scott Minto até marcou!
"Aquele" do "petardo" do Geovanni.
"Aquele" (triste) do very-light.
"Aquele" do beijo de Sabry.
"Aquele" do golaço do Lima (e da barbaridade de São Gaitán). 
"Aquele" do hat-trick do João Pinto. 

Já vi e presenciei muitos derbys quer ao vivo, quer via televisão. Mas recordo com especial carinho este último que referi. 
"Aquele" do menino de ouro.

Em Maio de 1994, então com 11 anos, no meu rochedo natal, passei o jogo todo estoicamente colado à frente de um televisor com um (agora velhinho) cachecol erguido ao alto que um amigo lisboeta da minha irmã mais velha me tinha oferecido no Natal anterior. 
Levantei-o após o primeiro golo do Sporting e após o 3-6 final acreditava que a minha acção tinha sido razão para tão desnivelado resultado - isto frente a um dos melhores Sporting que tive memória de ver.
Tinha assistido a magia pura. Tinha realmente impelido os “meus” para a vitória.
Na idade de todos os sonhos. Na idade em que ainda acalentava estar um dia lá dentro do relvado. 
Tinha assistido ao adicionar de mais um episódio mágico ao já extenso rol de mitos e lendas que se criaram nos confrontos entre estas duas equipas. 

Muitos dos meus companheiros que aqui escrevem poderão estar a discordar em muitos destas linhas que aqui vos escrevo. Não os censuro.
Reconheço que um Porto-Benfica tem sido nos últimos anos muito forte em termos de animosidade. E para muitos dos benfiquistas que estão fora de Lisboa (e são imensos), esse será porventura o jogo que mais mexe com os mesmos. E concordo que haverá certamente muitas histórias e o sentimento com que o jogo é vivido é igualmente especial.
Eu próprio terei as minhas histórias.

Mas vivendo na capital (pese orgulhoso das minhas raízes insulares), tomando a mesma como a "minha" cidade de facto (a minha “Grande Alface”) é inegável que a carga que se sente com este derby é muito maior. Pelo menos para os adeptos dos dois clubes em causa.
Porque o espaço de onde descendem os dois clubes é comum. Porque temos que "levar com eles". E também "eles" existem em grande número. Porque o "outro" faz inegavelmente parte do microcosmos desta grande cidade.
Porque há uma electricidade especial no ar.
Um “je ne sais quois”.
Porque a uma semana anterior a um derby cheia de bazófia de ambos os lados, a fronteira entre uma semana seguinte cheia de moral ou de depressão no emprego, no tasco ou na rua a cruzar-se com o vizinho, poderá estar à distância de uma vitória ou de uma derrota.

E isto só se depreende talvez depois de vivermos em Lisboa. De sentirmos "in loco" um derby. Em estádios que distam geograficamente a menos de 3.000 metros. Seja na nossa casa. E ainda em maior escala fora de casa. Onde “dá pica”. Num sentimento primário de sobrevivência. Onde o "nós contra eles" é mais que válido. Onde todos os impropérios são mais que requeridos. 
Se bem que isto é válido e comum, em maior ou menor escala, para todos os outros derbys e clássicos que existem.

Alguém externo ao fenómeno tende a percepcionar o futebol como um simples jogo. Como um fenómeno de massas que mexe com paixões, mas que ao fim ao cabo, nada mais é que um jogo. 

Nada mais errado. Há jogos envoltos numa aura que ultrapassam tudo isso. Porque ao fim ao cabo são mais que um simples jogo. E um derby é isso mesmo.
Muito mais que um simples jogo.

E mesmo quase 20 anos depois, sou capaz de sair do estádio com um sorriso pueril de lés a lés. Com a mesma crença daquela tarde Maio. Ou aquela satisfação irracional daquela noite de Dezembro. Acreditando que com o meu apoio levei a equipa à vitória. Ou que não os deixei de os confortar com esses mesmos cânticos na derrota. Uma completa irracionalidade. 

Rezam as escrituras que Deus (e para que não haja dúvidas, não estou a falar de ninguém na tríade Eusébio, Rui Costa ou Aimar) na sequência da morte de Abel por Caim deixou neste último uma marca física. Para que fosse visível a todos a sua imperfeição.

O futebol moderno foi concebido pelos seus criadores como um jogo de "gentlemen" para "gentlemen" onde o respeito pelo adversário imperaria acima de tudo. 

Talvez o derby sirva para mostrar que até o futebol tem a sua marca de Caim.
E muita da beleza do mesmo advém disso.



(publicado em footyelegance.com - projecto que transpira paixão pelo jogo mais lindo, e que muito apraz ter sido convidada a colaborar. sempre acompanhado de uma lista musical apropriada. ver restantes textos em footyelegance.com/author/aires/)


2010-07-06

Sporting: entre a Disney e a Sidra



by Mark Velasquez roubada daqui



O Branca de Neve e o anão ou a maçã podre em via de fermentação.



2009-01-26

Myth Buster

Que nas últimas duas décadas, o futebol indígena tenha sido invadido por jogadores não nacionais [muitos de duvidosa qualidade], isso não constitui novidade para ninguém. Agora que a par disso, sejamos o 5ºexportador de jogadores a nível mundial, é algo que olhando à dimensão populacional do nosso país, não deixa de ser surpreendente [mas que acaba por assentar no grande êxodo e "boom" que houve nos últimos 5/6 anos de jogadores de equipas medianas para campeonatos emergentes como o cipriota, grego, romeno, búlgaro ou russo só para nomear alguns]. Aliás, dado que estas colocações são proactivas [ou seja o jogador e empresário é que procuraram colocação], estes dados podem revelar um indício preocupante, sabendo-se as dificuldades de tesouraria de muitos clubes portugueses.

Saiu hoje um estudo da Universidade de Nêuchatel em conjunto com o Professional Football Players Observatory (PFPO), na qual estes e muitos outros dados são verificados, por comparação com os mais diferentes campeonatos europeus [consultar estudo por aqui].

Destaco outro dado importante, que deverá constituir um sinal de alarme, numa indústria que goste-se ou não, é das maiores fontes de receitas do nosso país: somos a segunda liga atrás da inglesa com maior número de estrangeiros, sendo que em contraste, estamos nos antípodas desta na quantidade destes que são internacionais pelo seu país [que pode ler-se como indício de falta de qualidade ou também reflexo do facto da esmagadora maioria dos estrangeiros presentes no nosso campeonato provir do Brasil (cerca de 137 !?!) - que é uma forte selecção].

Sabendo-se que este recrutamento começa cada vez mais cedo, observamos que o nosso país, dispondo de um campo de recrutamento diminuto em relação a outras potências da modalidade, esta afluência acaba por ser algo nociva dado que cria-se assim mais uma barreira para a formação e afirmação de valores nacionais.

Mas este estudo não se esgota neste campo. Deu também para desmitificar umas ideias feitas. Como o Marítimo ser das equipas portuguesas com mais estrangeiros.
Nada mais errado. O Belenenses com cerca de 72% do plantel, o Benfica com 70,4%, a Naval com 69,9%, o Braga com 66,9%, o Porto com 65,4%, o Nacional com 64% e o Vitória de Setúbal com 63,6% são os clubes em Portugal com mais estrangeiros no plantel [que diga-se de passagem nada me incomoda desde haja bom senso e qualidade]. E esta tendência no Marítimo já não é de agora, pese os comentários e a falácia que é muitas vezes repetida por comentadores ou adeptos contrários.

Derrubando outro mito, o Sporting não é o clube com médias de idades mais jovem no campeonato português. Esse lugar está reservado ao Nacional, que surpreendentemente consegue estar no grupo de equipas mais jovens de toda a Europa - 24ª equipa mais jovem [muito devido à política de contratações desta época], tendo uma média de idades de 23,2 anos [muito semelhante à do Arsenal]. Isto tem mais ênfase quando se verifica que a liga portuguesa é a 7ª liga europeia com maior média de idades [Trofense e Rio Ave são a 11ª e a 14ª equipas mais velhas do conjunto dos campeonatos, numa tabela liderada pelo Milan, bem secundado pelo vizinho citadino Inter].

Sporting destaca-se isso sim, como a segunda equipa mais baixa da Europa, com uma média de 177,88 cm - não será alheio a presença do hobbit Moutinho [ehe] ou o facto de Portugal ter a liga com a média mais baixa do continente europeu com 180,20 cm.

2007-06-01

o dilema...

"Acho que é impossível neste momento regressar ao Sporting"

"Por diversas situações sempre foi difícil o meu regresso como jogador profissional ao clube onde me formei. Não foi possível que isso acontecesse ou pela minha carreira no estrangeiro ou por nunca ter tido a disponibilidade de regressar ao clube que é do meu coração. Nem também por nunca ter havido uma proposta para isso acontecer."

"Sou um jogador desempregado. O meu pensamento, como já afirmei diversas vezes, era ter jogado mais quatro/cinco meses pelo acordo que tinha feito com a equipa árabe, mas não foi viável derivado ao incumprimento de várias situações por parte desse clube."

"Depois disso tinha pensado em retirar-me do futebol, mas tenho sentido o carinho e o afecto de toda a gente em Itália a pedir-me para continuar mais uma ano."

Profissional ou "Pesetero"

...olhando ao seu amigo Rui, a resposta é mais que óbvia...

2007-05-20

Depois do 13 de Maio, haverá o 20 de Maio?

Numa situação inédita, temos a menos de duas horas um final de campeonato muito emocionante, estando em aberto várias lutas e posições, estando a questão do título a ser discutida pelos designados 3 grandes...
Lutas em aberto pelo título, Europa, 4ºlugar e a fuga à descida, trazem a este domingo futebolístico uma aura especial...apenas o meu Marítimo (numa época para esquecer) e o Boavista terão a classificação definida, espreitando este último clube a Intertoto caso a União de Leiria vá à Uefa...

Quanto ao título, conseguirá o Porto de Jesualdo suster a baixa de forma que vem demonstrando frente a um debilitado Aves que luta para não descer?
Conseguirá o Sporting, em caso de derrota ou empate do Porto, vencer o Belém e sagrar-se campeão com a sua jovem equipa?
Em mês de aparições e milagres, Haverá ainda esperança para o Benfica (necessita "apenas" de uma derrota do porto e que o sporting não ganhe ao Belenenses)?

Uma coisa é certa...haverá festejos e lágrimas...

Uma boa jornada para todos (neste blog existem diferentes sensibilidades futebolísticas que hoje estarão em choque umas com as outras), mas se me permitem...
...tenho na alma a chama imensa...