2010-01-05

95 anos

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti - não me respondes
Bejo-te as mãos e o rosto - sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga

1 comentário:

  1. Poema Melancólico a não sei que Mulher

    Dei-te os dias, as horas e os minutos
    Destes anos de vida que passaram;
    Nos meus versos ficaram
    Imagens que são máscaras anónimas
    Do teu rosto proibido;
    A fome insatisfeita que senti
    Era de ti,
    Fome do instinto que não foi ouvido.

    Agora retrocedo, leio os versos,
    Conto as desilusões no rol do coração,
    Recordo o pesadelo dos desejos,
    Olho o deserto humano desolado,
    E pergunto porquê, por que razão
    Nas dunas do teu peito o vento passa
    Sem tropeçar na graça
    Do mais leve sinal da minha mão...

    Miguel Torga

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