2009-04-30

antecipando o dia...mas não é como o natal? ;)

"No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas..."

Eugénio de Andrade

2009-04-23

Desbobina em Mute

Da Capital do Móvel...

Link: Nacional 2-3 Paços de Ferreira



...[por um dia] os reis da Madeira!

(momento irracional do post) Eu já estive no Jamor por duas vezes. E vocês?

2009-04-18

It's Politics, Stupid!

"Não vou ser candidato"
"Ao fim de 10 anos de trabalho no Parlamento Europeu, não faz muito sentido que quem foi na última eleição em quinto, seja agora oitavo"
"Não aceito a lei da paridade como justificação. Não é suficiente para atribuir ao PSD-Madeira esse lugar"
Sérgio Marques dixit


"(...)"Já está resolvido. O candidato ao Parlamento Europeu, no mesmo 8º lugar, é o senhor dr. Nuno Teixeira".
"Não quer um, vai outro. A única pessoa importante neste partido sou eu".
"Não, ele disse-me agora antes de começar a Comissão Política. Não aceita, também não peço nada a ninguém. Surpreendeu-me pela maneira de ser dele (Sérgio Marques). Não o julgava capaz disto"(...)"

AJJ dixit


A surpreendente recusa de Sérgio Marques de integrar as listas do PSD às europeias em 8ºlugar [nas últimas eleições foi eleito em 5º], depois de ter sabido via Comunicação Social que era este o lugar que lhe era destinado, conforme tem sido aventado nos órgãos de comunicação sociais e na blogosfera madeirense, merece uma leitura algo mais profunda do que à primeira vista possa parecer.

Sérgio Marques é reconhecidamente, e num puro exercício de sondagem sem qualquer tipo de rigor científico, um dos nomes laranjas cujo trabalho e capacidade de iniciativa não é posta em causa dentro das hostes laranjas regionais, tendo o eleitorado opositor geralmente uma uma boa imagem da sua prestação política.

O facto de estar há 2 mandatos exilado na Europa, logo longe quer da vida política regional, quer do desgaste de imagem que a mesma produz, aliado à boa publicitação do seu trabalho - é dos deputados laranjas que mais investe nesta área, em especial na área das novas tecnologias - dos primeiros a estar na blogosfera, usa redes sociais para contactar eleitores [Facebook no caso], etc. - faz com que a imagem tida dele seja em geral positiva, não havendo grandes máculas sobre a sua imagem.

Numa primeira leitura simplista, face às palavras caústicas de Alberto João Jardim confrontado com a recusa, poderíamos considerar que Sérgio Marques tenha assinado a sua certidão de óbito político, pelo menos no seio do PSD-M, devido à "heresia"de ter ousado enfrentar o líder. Uma pessoa menos atenta à vida política na Madeira, pode achar que estou a exagerar, mas convém recordar que Jardim nunca foi grande adepto de debate interno ou de muitos desvios à ortodoxia da sua palavra.

Por outro lado, outra leitura possível, poderá indiciar esta recusa como uma simples tomada de posição por parte do deputado, que não tendo satisfeito as suas ambições, resolveu tomar uma atitude de força no calor do momento.

Há no entanto diversas nuances que me fazem explorar um outro prisma. Sérgio Marques, como qualquer político, tem as suas ambições e era público [em entrevista recente] que veria com bons olhos a ideia de poder no período pós-Jardim. Por outro lado, temos de considerar o facto de o poder e a alternância do mesmo, ser motivado, pelo menos em Portugal, não por uma vitória da oposição, mas sim pela erosão governativa do partido no poder. Tendo em mente estas duas premissas, num exercício de pura especulação, poderíamos ser levados a pensar que os factos que nortearam esta abrupta decisão poderiam ter mente uma estratégia com horizontes mais latos.

Isto porque com esta decisão e a aparente proscrição (a nível regional), o mais engraçado nesta situação é o facto de Sérgio Marques poder vir a obter a médio-longo prazo enormes ganhos políticos com esta medida, beneficiando com isso o PSD-M. Confusos?

Num cenário de liderança pós-Jardim, Sérgio Marques com esta recusa e pelo facto de perante os olhos da opinião pública, ter afrontado Jardim, pode constituir para o partido uma possível alternativa ou alternativa de reserva, isto quando o jardinismo (ou o que restar dele) deixar de ser a matriz agregadora do partido ou o eleitorado madeirense já não ser sensível ao peculiar estilo de retórica e mensagem.

Em termos de calculismo político, esta poderia ser considerada uma manobra arriscada - sabendo-se que o manancial de apoio do jardinismo é bem grande, a gratidão dos madeirenses é (irracionalmente e inexplicavelmente) devota e o aproveitar da sua imagem e memória, que após a sua retirada serão concerteza explorados e darão votos ao partido laranja pelo menos durante algum tempo.
Mas dado que nada é eterno, quando a alternância estiver na eminência, Marques estaria salvaguardado, aparecendo aos olhos do eleitorado laranja, como uma opção recta e imaculada (vinda fora do sistema), que soube se manter à parte, seja do possível lavar de roupa que previsivelmente se seguirá no interior do partido (e que já aparentemente já decorre - os indícios são muitos), seja das conotações menos claras com o período jardinista.
Marques funcionaria assim como o às de trunfo, num cenário de iminente alternância num contexto eleitoral difícil.

Claro que esta análise tem muitos "ses" e face ao publicamente propalado, não creio que tenha havido este tipo de visão política a longo prazo - estão escritas muitas determinantes não controláveis. Aliás, as próprias ambições a curto-prazo do candidato, ficariam algo lesadas, podendo a sua imagem pública ser afectada (como deverá previsivelmente ficar).
No entanto, não deixa de ser engraçado como uma medida que aparentemente é uma mera tomada de força, poderia no entanto se revestir de uma medida com extrema astúcia e argúcia. Será a análise assim tão descabida e fictional?

2009-04-17

Espelho meu...


"(...)"É uma lei nazificante, de iniciativa fascista e que pretende calar a imprensa de vários quadrantes políticos e não apenas o ‘Jornal da Madeira’", referiu à chegada ao Aeroporto Internacional da Madeira.
Para João Jardim, "é uma lei que é um braço de ferro do ministro nazificante com a liberdade de imprensa em Portugal".

"Isto ainda vai dar muita luta mas há uma coisa que vos garanto. O ‘Jornal da Madeira’ vai sair nem que a gente vá todos presos", disse.

"A autonomia chegou a um momento que precisa de mártires para dar os saltos seguintes e, eu, aos 66 anos já não me divirto muito cá fora, já posso ser preso político, já posso fazer o papel de mártir"(...)"

in público.pt

As declarações de uma pessoa que sempre prezou pelo pluralismo e pela diversidade de debate e de opiniões. De uma pessoa que era um reconhecido opositor ao anterior regime. Da pessoa que sempre primou pelo respeito à memória da revolução de Abril. Do verdadeiro democrata no sentido liberal do termo (defensor do primado do direito e da defesa das minorias). Do paladino da liberdade que recebeu oficialmente aquele baluarte sul africano dos direitos humanos e defensor máximo da reconciliação entre os povos de diferentes raças e credos chamado Pieter W. Botha...

2009-04-08

um alerta para o planeta

Este conjunto de conferências pretende suscitar uma reflexão aprofundada sobre alguns dos temas determinantes do futuro da humanidade e do nosso planeta. Convidaram-se personalidades que, pela importância das suas contribuições, têm marcado o debate das questões relacionadas com o desenvolvimento sustentável.
Esta iniciativa da Caixa Geral de Depósitos insere-se no programa de sustentabilidade que tem vindo a desenvolver – em que se inclui o Caixa Carbono Zero 2010.
Ambiente, Direitos Humanos, Desenvolvimento Sustentável e a sua ligação à Sociedade da Informação, Cidades pensadas como pólos agregadores para os seus habitantes, são temas de actualidade irrecusável e correspondem a grandes preocupações do mundo actual.

Culturgest

Ontem realizou-se a primeira com António Gonçalves Henriques, Viriato Soromenho Marques e Nuno Lacasta. E além de estarmos perante uma muito boa casa para um tema que em Portugal continua fora do mainstream, a qualidade das intervenções foi excelente. A forma como o painel avançou pelo tema foi muito coerente e abrilhantou ainda mais a conferência. Sinal menos apenas para o moderador.

Primeiramente António Gonçalves Henriques fez uma abordagem inicial do que são alterações climáticas. De seguida Viriato Soromenho Marques, que orador excepcional, avançou com mais dados sobre este assunto e pegou na ideia de como o desenvolvimento sustentável é exequível com a ideia de desenvolvimento económico e redução das dissemetrias sociais. Finalmente Nuno Lacasta, que faz parte da task-force para a discussão do pós-Quioto apresentou as principais ideias e práticas governativas que estão a ser executadas e planeadas na UE.

Nas próximas terças feiras teremos mais conferências dedicadas aos temas dos Direitos Humanos, dia 14; Desenvolvimento Sustentável e Sociedade da Informação, dia 21 e Arquitectura Sustentável, dia 28.

obs: Entrada gratuita e beberete.

2009-04-02

"Plise táke cáre óf your bilóginggs"

sempre me orgulhei da diferença entre um português a falar inglês a comparar com um espanhol (tema especialmente sensivel no meu caso)... mas o metro de lisboa fez-me repensar seriamente o assunto.

2009-03-31

Música do Mundo

Um amigo e colega de doutoramento acabou de lançar o seu primeiro CD.
Aqui fica uma amostra do CD e o endereço do sitio no myspace para quem tiver curiosidade de ouvir mais: http://www.myspace.com/misturapura


Boa Mich! Continua assim.
Bjocas

2009-03-15

Há pouco tempo li algures que um Português integrara a short-list para a orquestra sinfónica Youtube, numa das primeiras coisificações da web 2.0, desta vez na vida real. Entretanto passou já a data de divulgação dos seleccionados mas ainda não consegui perceber se lá conseguimos mais uma daquelas pequenas vitórias de utilidade e motivo de orgulho duvidáveis por que de vez em quando nos vangloriamos de sorriso aberto.
É no entanto pela natureza daquela orquestra que a dita foi aqui evocada. Um projecto musical verdadeiramente transnacional, com base em videos online, pode muito bem ser estandarte do que é a realidade cultural hoje e da mudança de paradigma no que toca à criação e autoria. Muito bem. Não será, porém, o único. E foi este segundo exemplo que me trouxe aqui.

Alguém algures compreendeu o Youtube como uma biblioteca áudio virtualmente infindável e decidiu criar música a partir daquela matéria-prima. O resultado são faixas de música em que todos os elementos são exclusivamente retirados de videos do youtube e editados/montados. Cada faixa tem, naturalmente, uma vertente visual indissociável, composta simplesmente pelos excertos dos videos de onde são retirados os clips (não fosse esta a sua génese).

Este projecto musical verdadeiramente transnacional, com base em videos online, que pode muito bem ser estandarte do que é a realidade cultural hoje e da mudança de paradigma no que toca à criação e autoria chama-se Thru You e está aqui.

Edit: parece que o violinista Tiago Santos sempre entrou para a orquestra do Youtube. Não deveríamos estar a ser um país cheio de fãs incondicionais de violino?

2009-03-10

Digno de um Portugal-Angola...


Recebido por e-mail

Será esta a génese ou o corolário da expressão "Tudo ao molhO e fé em Deus" / versão Jaime Pacheco..? Literalmente molho...

2009-03-09

Estamos parados há demasiado tempo. Tive de chamar as autoridades, numa demonstração gratuita de alguma nostalgia e relativização por distanciamento temporal.

2009-02-18

Quiz XXXII

"Italiana pode engravidar de marido em coma

Pela primeira vez em Itália, uma mulher ganha o direito a ser inseminada com o sémen retirado do marido, depois deste ter entrado em coma irreversível.

Uma italiana de 32 anos será inseminada, dentro de um mês, com o esperma extraído do marido, depois deste ter entrado em coma irreversível devido a um tumor cerebral (...).O caso, que veio a público uma semana após a morte de Eluana Englaro (que faleceu na semana passada depois de ter passado 17 anos em estado de coma), introduz um novo debate bioético na Itália e já motivou críticas por parte da Igreja Católica.

Alguns membros do Vaticano condenam a pretensão do casal, alegando que "um filho deve ser fruto de um acto de amor e não de uma experiência de laboratório". O ginecologista Antinori refuta as acusações da Igreja, dizendo tratar-se de "um acto de vida e de amor".

Além de controverso nas posições tomadas sobre a procriação in vitro e a clonagem humana, o médico italiano tornou-se famoso por ajudar várias mulheres na menopausa a engravidarem.

Em Itália, a lei de reprodução assistida permite o recurso a esta técnica apenas em caso de esterilidade. Situações como a deste casal levantam a questão da ilegalidade. Mas Severino Antinori contraria a tese, afirmando que o procedimento acontece "no limite da lei" e de acordo com uma ordem judicial."

in Expresso

Considero a posição do Vaticano paradoxal e incoerente perante o patrão. Confusos?
Então vejamos, se Maria, segundo as escrituras, concebeu virgem, sem dúvida Deus é o pai e percursor da inseminação artificial...

2009-02-17

darkest side of politics

Este caso do BPN tem posto a nú inúmeros factos e ligações que em nada prestigiam a política ou o regime. Apanhado no meio desta embrulhada toda, surge Dias Loureiro, em tempos homem forte do aparelho laranja e personagem ministeriável em vários governos.

Numa primeira fase negou e contradisse as declarações do vice-presidente do Banco de Portugal. Ouvido em Comissão de Inquérito, negou qualquer conhecimento de envolvimento do BPN [do qual era administrador] em qualquer negócio ilícito. No entanto, documentos tornados públicos este fim de semana, mostram a assinatura do dito autorizando os ditos negócios.


A ideonidade do orgão, do qual faz parte e goza com isso de imunidade, fica assim posta em causa. Se numa primeira fase face às graves acusações, a medida correcta seria o abandono do cargo [ele não pode ser destituído e o sempre zeloso Cavaco chegou mesmo a reiterar confiança no mesmo], face ao agora apurado é óbvio que Dias Loureiro não tem condições nenhumas para continuar no conselho.

Aliás ao manter-se no mesmo, aparenta quer continuar a gozar de imunidade, o que transmite ao país uma imagem de impunidade que não pode ser tolerada num normal estado de direito.


Provedor


Parece que muitos ainda não se aperceberam que uma das medidas necessárias à própria sustentabilidade do futebol indígena passa pelo crescimento de outros clubes fora dos habituais três. O ciclo mediático vicioso em redor dos mesmos [com todos os ganhos que daí podem advir], acaba em última análise por matar quaisquer tentativa sustentada de romper com tal status quo.


O argumento é que o público não quer. Que dizer desta notícia?

Couch Trip

Numa altura em que estão a entrar na sua 20ª temporada, esta aclamada e premiada série de Matt Groening [24 Emmys dizem tudo], aproveitou a passagem para o sistema HD para efectuar um refresh ao seu emblemático genérico.

Alguns elementos foram introduzidos, mas a qualidade mantém-se. O nome dispensa apresentações!

2009-02-16

A propósito da Venezuela, notas sobre o referendo...


"(...)Outro facto que ressalvou desta entrevista, foi a (demais conhecida) veia populista de AJJ. Nem falo pela postura de apelar directamente portugueses, falando com desdém da restante classe política, estabelecendo assim uma ligação de simpatia - explorando um sentimento comum ao português médio.
Falo da sua insistência na mudança, por referendo, de regras contidas na Lei Geral do país. Diz que não entende o porquê de estas não serem passíveis de mudança. Creio que não é necessário explicar a diferença entre a democracia representativa e a directa - Benjamin Constant no início do séc. XIX faz uma excelente analogia entre " A Liberdade dos Antigos comparada com a dos Modernos". Nem explicar o fim trágico que a República de Weimar teve e o autêntico plebiscito que levou Hitler ao poder. Ou demonstrar como o argumento da Lei das Finanças Regionais e o apelo ao voto de protesto contra Lisboa, inquinou e afastou qualquer tentativa de discussão de programa de governo (desconheci se o PSD-M apresentou algum), afinal o que estava em jogo nas regionais de 2007.(...)"

in desbobina [16-01-2009)

Chavéz mais 10 anos. Por cá Alberto João Jardim (AJJ), Mesquita Machado, Fernando Ruas, Valentim Loureiro e outros tantos caciques há bem mais de 20 ou 30 anos...nem me dou ao trabalho de referir a ironia da questão, nem aos similares métodos de captação de votos que são empregues.
Importa sim chamar a atenção para uma ideia defendida por AJJ, aquando da [espécie de] entrevista de Mário Crespo [que escrevi na altura aqui neste espaço - ler excerto em cima]. Queria alterar a constituição de modo a poder referendar príncipios contidos na Constituição da República Portuguesa (CRP). O ocorrido na Venezuela, serve apenas para exemplificar um de malefícios que daí poderiam redundar.

Mas não nos fiquemos por aqui. Permitam-me uma pequena nota antes da reflexão propriamente dita. Leio muitos clamores na imprensa e em comentários, contra este referendo de Chávez, quer criticando a validade do mesmo, quer criticando a insistência por parte do dito líder no assunto [é já uma segunda consulta popular sobre o tema].
Então que dizer do Não irlandês ao Tratado? Não estará em vista um segundo referendo? Não haverão, por parte da Comissão, inúmeros apoios, benesses e clausulas "opting-out" tendo em vista a captação do Sim irlandês? No fundo o princípio não será o mesmo?

Olhando ao escrito, importa antes mais, reflectir sobre o referendo enquanto mecanismo de consulta popular. Tenho para comigo que o mesmo é um poderoso instrumento de averiguação da vontade popular, transportando a decisão de um nível superior para um nível ao alcance real dos cidadãos.
No entanto, há que ter em conta que a aplicação do mesmo tem de respeitar certas premissas.

Em primeiro lugar, sou mais apologista do uso deste em matérias e questões locais ou municipais, isto porque cognitivamente e identitariamente as questões efectuadas estarão á partida ao alcance do eleitor comum [que recorde-se, por norma, apenas possuí um enfoque a curto prazo muito focado na sua perspectiva individual e dos seus que o rodeiam].

Em segundo lugar, as próprias questões que são submetidas a referendo têm de ser bem ponderadas e estruturadas para que possam ser compreendidas pelo eleitor. Isto, porque se este não perceber bem o alcance do que é referendado, corre-se o risco do mesmo poder ser aproveitado por certos sectores damagogicamente, ou ser instrumentalizado para a obtenção de algum fim [daí o cuidado com as perguntas, que paradoxalmente acabam por se tornar inteligíveis para o eleitor comum].

Acredito e aceito plenamente o referendo nacional em matérias de costumes. Acredito que a sua banalização enquanto instrumento de consulta popular em questões locais ou municipais, daria um importante acréscimo à natureza democrática da gestão municipal - para além do óbvio ganho em termos de aproximação eleitor-eleito, quer pelo "empowerment" cívico que se geraria.
Mas olhando ao que escrevi em cima, ao contrário do sr. Jardim, considero negativa a ideia de referendar normas constitucionais [no caso da regionalização torna-se um imperativo constitucional - vide artigos 255º a 262º]. Isto porque os eleitores comuns não iriam entender o alcance do que era proposto a referendo. O risco de instrumentalização e de manietação dos reais alcances do que era proposto seriam enormes, tal como se verificou na Venezuela.

Afinal é humano!


2009-02-14

Mário Crespo: Um ex bom jornalista...

1972, Mário Crespo (à esquerda) e o capitão (agora major) Mário Tomé



Na foto, substitua-se Mário Tomé por Alberto João Jardim -não tenho pachorra para fazer montagens- e essa será porventura a melhor metáfora imagética da entrevista da sic...



A propósito de um post abaixo publicado no desbobina, Mário Crespo assaltou-me o pensamento. O indivíduo está demasiado interveniente políticamente em relação ao que a matriz ética e deontológica do jornalismo o deveria permitir... E fá-lo, por um lado, catapultando ou servindo de rampa para certas figuras, como a abominável e cúmplice entrevista a João Jardim, e por outro lado, atacando inequívocamente Sócrates e os seus pares em artigos de opinião.

Pondo de parte o facto de eu próprio ser um acérrimo crítico de Sócrates e portanto até concordar em muitos pontos do artigo de Crespo, a verdade é que o referido artigo vem pôr a nú o jornalista e, com isso, certas atitudes e falta de profissionalismo recentes têm agora um enquadramento político evidente.

Lembro-me perfeitamente do clima de subserviência e adulação militar com que conduziu (ou melhor, com que foi conduzido) a entrevista a Jardim e, principalmente, aquelas constantes palmadinhas nas costas entre ambos. Agora parece-me evidente que Mário Crespo nada teve de ingénuo ao não colocar as questões verdadeiramente pertinentes na mesa...

2009-02-13

Liberdade de expressão à madeirense


"Artigo 37.º(Liberdade de expressão e informação)

1. Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.
2. O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.
3. As infracções cometidas no exercício destes direitos ficam submetidas aos princípios gerais de direito criminal ou do ilícito de mera ordenação social, sendo a sua apreciação respectivamente da competência dos tribunais judiciais ou de entidade administrativa independente, nos termos da lei.
4. A todas as pessoas, singulares ou colectivas, é assegurado, em condições de igualdade e eficácia, o direito de resposta e de rectificação, bem como o direito a indemnização pelos danos sofridos."


in Constituição da República Portuguesa

Compare-se agora este este direito enunciado na nossa Lei Fundamental, com o pedido de identificação e morada com que foi confrontado um leitor do DN-Madeira e habitual redactor de missivas que saíam no espaço do leitor daquele matutino, após enviar uma outra missiva. À primeira vista e tendo em conta que o respectivo orgão [assim como outros como o Expresso, Visão, Sábado só para dar um exemplo] pede estes dados como questão de salvaguarda [assim é referido em letras minúsculas no fundo da página da secção em questão], nada pressupõe uma ilegalidade.

O problema é que estranhando a situação, efectuou uma ligação telefónica para o dito jornal e questionando o porquê de só agora pedirem os ditos dados [isto após o envio e publicação de muitas cartas], alguém lhe indicou que os mesmo se destinavam a serem compilados num ficheiro, isto porque o ministério público (MP) "tem andado a solicitar os dados de vários autores de cartas de leitor!"

Isto é inconcebível e assume contornos pidescos!. Olhando que por exemplo a anterior carta do senhor em questão visava e criticava a intricada questão do porto do Funchal, não custa adivinhar de quem são as queixas em questão. Bem sei que tem de haver um salvaguardar por parte do órgão de comunicação [afinal de conta a responsabilidade sobre o conteúdo da carta é do autor da mesma], ou a salvaguarda da honra de alguém que possa vir a ser ofendido, mas a compilação de dados das cartas mais "agressivas" e posterior cedência ao MP soa claramente a intimidação [sim, porque creio que o órgão é livre de os ceder ou não]. Isto quando claramente nem existem razões para tal e são motivadas pelo único facto de constituírem críticas ao poder vigente [tomando por exemplo a última carta]. Meus amigos, a isto chama-se prepotência.

Numa terra cujos níveis de intervenção cívica por parte da população deixam muito a desejar, este episódio ocorrido num órgão e espaço que acabava por ser uma espécie de escape da sociedade [para o bem e para o mal], acaba por ser bem representativo do asfixiamento "invisível" existente sobre as opiniões discordantes da maioria.

Juntamente com a calúnia [basta ver os mimos com que muitos são brindados na Assembleia, isto dando um pequeno exemplo] e destruição da reputação [ser objecto de queixa ainda que por difamação não é nada simpático] ou a autêntica "ostracização" económica e social [num contexto pequeno como o nosso], estas pequenas técnicas são demonstrativas do quão rarefeito está o ar político na região. Até quando?

Terminando, olhando ao verificado na assembleia regional - com um regimento que não não promove a efectiva promoção dos direitos minímos da oposição - será que caminharemos para uma interpretação regional muito "sui generis" do artigo com que comecei este texto?

post scriptum: [tendo em mente a contracção do mercado publicitário - obriga a procurar recietas para sobreviver] olhando dúbia negociação ocorrida com o Governo Regional a propósito do JM, o DN-Madeira sai muito mal na fotografia. É pena!