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2009-10-30

Uma União de excepções?




A UE aceitou as exigências do governo checo, levantando nova excepção na aplicação da já controversa Carta de Direitos Fundamentais, um documento anexo ao Tratado de Lisboa, á República Checa.

Tendo em conta que já existem diversas excepções negociadas - Reino Unido, Irlanda, Polónia, Dinamarca enumerando meramente algumas - a questão que se levanta é: com a ânsia de atingirmos uma suposta unidade, não estaremos a caminhar para uma autêntica União de excepções?

É que esta decisão, que claramente serve para salvar a face ao eurocéptico presidente checo que assim sai também "vitorioso" perante a sua opinião pública, aparece na senda de outras, onde face a certos percalços que foram aparecendo, efectuaram-se concessões, que em certas alturas desvirtuaram e atrasaram imenso o trilho preconizado - relembremos por exemplo as consequências da cadeira vazia de De Gaulle e as consequências que daí advieram para a então CEE (pensada numa matriz federalista, adquiriu uma componente intergovernamental).

Esta situação vem demonstrar que embora estejamos já num nível muito avançado de integração, a lógica nacional tem ainda imensa preponderância, o que numa Europa (leia-se União) que nos últimos anos registou um crescimento exponencial, pode representar um obstáculo extra, dada a multiplicidade de interesses nacionais divergentes que tornam muito difícil vir a ter um discurso comum.

A aprovação deste tratado [mesmo que muitos não concordem com muita da sua matriz ideológica] é algo que é muito premente e necessário, face à indefinição ainda vivida, numa altura em que as consequências do anterior alargamento ainda se fazem sentir. A governabilidade da União enquanto estrutura e a própria credibilidade enquanto unidade de voz própria no Mundo dependem desta agilização. Mas não deixa de ser um paradoxo, que a mesma esteja a ser conseguida sob um vasto rol de excepcionalidades que são facultadas aos seus Estados-Membros. Não haverá o risco de abertura de nova caixa de Pandora que volte a pôr em risco todo este imenso edifício? Como conter ou compensar os países que já aprovaram o Tratado? Não estará a UE a enviar um mau sinal, persistindo em premiar quem mais entraves põe?

Porventura a beleza desta construção advirá daí, desta capacidade de diálogo e mutação, dirão alguns. Mas não deixam de ser questões que mais cedo ou mais tarde muito provavelmente serão levantadas. As dimensões nacionais existentes certamente não deixarão que isso passe em claro. Parte da resposta passará por uma conveniente pedagogia junto das opiniões públicas. A construção europeia tem de sair dos gabinetes das elites decisoras e tem de descer ao nível do eleitor comum. Este tem de sentir que esta é uma conquista dele. E enquanto este trabalho não for feito, enquanto este trabalho não for sentido como conveniente, muitos destes problemas subsistirão. Essa é a dura realidade.

2009-10-27

Justificar completamente

É notório que desde o 25 de Abril tem havido uma certa cristalização da classe política, isto olhando aos principais intervenientes.

Com a revolução e os respectivos saneamentos ocorridos [algo inerente a todas as revoluções] e a rápida emergência de uma jovem classe de políticos (muitos ainda idealistas) que em condições normais iriam estar em "maturação" durante mais algum tempo, como que se assistiu a um perpetuar de certas figuras durante todo este espaço tempo, dando pouco espaço à renovação de caras e à emergência de novas figuras no panorama político português - se bem que reconheça que esta esteve sempre presente.

Sabendo-se que a construção e consolidação da democracia foi efectuada e gizada num quase monopólio dos partidos políticos - os outros espaços de participação pouca influência tiveram/têm - o carreirismo e a ascensão no aparelho burocrático partidário tornaram-se norma, muito contribuindo para tal noção de cristalização.

Se olharmos para as anteriores legislativas de 2005, notamos que das principais figuras dos 5 partidos mais votados de então, 4 concorreram a estas legislativas.

Por um lado, embora a generalidade da população tenha um discurso que aponta para um certo cansaço da classe política, a verdade é que a pouca memória eleitoral e a constante reinvenção de muitos políticos de cá do burgo, fazem com que aos olhos do eleitorado os mesmos políticos de sempre apareçam com novos discursos e novas roupagens.

Fará quinta feira duas semanas que um novo plenário da Assembleia da República tomou posse. O leitor ao ler esta frase, porventura pensará que falarei dos cerca de 105 novos deputados existentes em relação à anterior legislatura. Em parte estará correcto, mas o que me motiva a escrever estas linhas, foi observar que na maioria dos casos, foram regressos de pessoas que já haviam estado naquela casa ou entanto de pessoas que almejavam conseguir lugares ministeriáveis (o João de Deus Pinheiro foi sintomático).

Se a nível legislativo esta mudança era lenta, então a nível autárquico esta é praticamente nula, criando-se e gerando-se autênticos dinossauros fossilizados em muitos casos há décadas nos seus redutos, algo que a lei de limitação de mandatos veio alterar - algo que obrigará a uma efectiva mudança de presidente em mais de 150 concelhos nas próximas autárquicas.

No entanto, estaria a errar se não apontasse a existência muitas caras novas. E isto porque os sinais de mudança começam a aparecer e lentamente, esta classe política saída da revolução e em seguida das décadas de 80 e 90, começa a dar lugar a outros, abrindo brechas para uma efectiva renovação de caras, o que espero, traga novas formas de aproximação e envolvimento com os eleitores.

post scriptum: É com esse espírito que, concretizando a segunda intenção destas minhas palavras, venho aqui congratular a entrada na Assembleia da ex-colega e amiga de muitos que aqui escrevem [ainda que a grande maioria divirja politicamente da mesma], a nossa cara "camarada" Rita Rato - que tem estado em destaque em muitos meios de comunicação social. Da minha parte e ainda que não concorde com muitas das ideias defendidas e aparte da discussão das mesmas [existem sempre pontos de contacto], apenas desejo as maiores felicidades e desejo que coloque toda a paixão e capacidade de trabalho que lhe são reconhecidas.


2009-10-26

street wisdom



Marcelo reiterou ontem que não tinha ambições de voltar a liderar o PSD. O que é visível ao comum eleitor é que caso houvesse vaga de fundo, a opinião certamente já seria diferente. No entanto, está correcto quando enuncia a existência de uma profunda balcanização no PSD.

Enquanto não houver uma definitiva definição ideológica do partido, o partido não conseguirá fugir ao actual estado. Estará disposto a efectuar os naturais sacrifícios requeridos para tal?



2009-10-14

Rapariga do Brinco Precário




Estima-se em cerca de 900.000 trabalhadores ou seja mais ou menos cerca de 1/5 da força de trabalho activa em Portugal, os possuidores dos muitas vezes terríveis quadrados verdes - os chamados "falsos recibos verdes".

Pese criados a pensar nos chamados trabalhadores independentes que por vias das suas funções não necessitavam de um vínculo permanente a uma dada empresa, no entanto o uso abusivo dos mesmos veio a gerar situações que efectivamente me obrigam a usar o adjectivo pejorativo que usei no primeiro parágrafo.

Tal como muitos sabem [e sentem] aqui neste blog, olhando à difícil situação vivida, num contexto em que o desemprego grassa, convém ter em atenção o alastramento deste fenómeno que tem contribuído e muito para a progressiva precariedade do mercado de trabalho.

Se é verdade que temos uma das legislações laborais mais rígidas da Europa - se bem que avaliadas segundo cânones bem liberais, também é bem verdade que subterfúgios como a existência dos recibos verdes ou a expansão extemporânea de Empresas de Trabalho Temporário (ETT), têm permitido um efectivo controle da taxa de desemprego, tudo à custa do futuro de uma geração [os mais afectados] que assim se vê envolvida numa espécie de volatilidade sem fim, que difere muito da segurança sentida pelos seus pais.

Que danos provocarão o alastramento desta situação? Será que toda esta instabilidade será benéfica para quem agora começa a construir uma vida? Que tipos de danos a nível económico, social e mesmo a nível de plasticidade mental - há imensas correntes que defendem que as vivências e experiências vividas até meados dos 20/30, determinam os valores e princípios defendidos por cada um - decorrerão do efectivo prolongamento e aprofundamento desta precariedade? Não contribuirá esta espécie de "No Man's Land" para o agravar das já de si fortes disparidades sentidas pelo país? Não produzirá toda esta insegurança, um aprofundamento ou aparecimento no futuro de discursos mais radicalizados? Que consequências a nível demográfico [aliás já sentidas] ocorrerão?

Bastará a lógica dos estágios remunerados? Poderemos confiar numa suposta ética social das empresas, quando a maioria do tecido empresarial do país é constituído por PME's tendo imensas dificuldades de tesouraria e possuíndo os empresários na sua generalidade um baixo nível de qualificações? Poderemos confiar num Estado que pese almeje ser universalista - ainda que não tenha meios para tal - incorre nas mesmas práticas? Como alterar toda esta espiral aparentemente descendente, quando os dados à partida já estão desvirtuados, repercutindo-se tais noções para gerações vindouras?

[sobre o tema, debate no próxima sexta na casa do Brasil, a propósito do lançamento do livro "2 anos a FERVEr" - mais info aqui]


2009-10-11

Um passo rumo à UE?


Surpreendentemente a Turquia e a Arménia assinaram um acordo para a normalização de relações, algo que olhando ao diferendo que as opunha representa um grande passo. Recorde-se que na origem do mesmo, estava o genocídio [massacre na versão turca] e deportação em massa de arménios para o deserto sírio durante a ocupação otomana em especial durante o período 1915-17. Enquanto o lado turco sempre negou ou menorizou os acontecimentos, o lado arménio sempre clamou vingança pela morte de quase 1 milhão e meio de compatriotas, algo que gerou imensas tensões, aliás ainda visíveis nas respectivas opiniões públicas.

Mais que o normalizar de foco de tensões, numa zona estratégica em termos energéticos - corredor de passagem de oleodutos e gasodutos, importa ver este acordo sob o prisma turco.

Esta questão, em conjunto com a questão da minoria curda e com a questão cipriota - de apoio à República do Norte do Chipre, representavam grandes empecilhos à uma plena candidatura à UE, algo que recorde-se acontece desde 1999 [embora intenções remontem à década de 60] não gerando grande entusiasmo na maioria das opiniões públicas dos parceiros europeias, devido ao choque civilizacional que poderia acontecer com a entrada de um grande país mulçumano numa comunidade com valores e tradições judaico-cristão.

A parte desta situação, e considerando a título pessoal que esta entrada a mim nada me repugna [aliás já aqui o escrevi], o alcance deste acordo, representa mais um forte sinal que Ancara envia aos parceiros europeus, indicando que está disposta a cumprir o longo caminho que ainda lhe falta fazer.

O pior é que a Europa, a braços com uma grande expansão ocorrida há bem pouco - sentindo ainda efeitos da mesma, numa altura em que a necessidade de reforma e agilidade do edifício é demais evidente, numa altura em que se torna imperativo ter uma posição a uma só voz, procurando assim contornar a sua natural erosão em termos de influência no cenário geopolítico mundial, demonstra nesta matéria uma grande divisão e um manifesto desinteresse face aos esforços efectuados - note-se o desinteresse mostrado por Sarkozy na visita do presidente turco esta semana em Paris.

Ainda que haja diferença cultural, considero positiva a entrada da Turquia pelo sinal que seria dado ao mundo islâmico - o seu percurso laico é quase exemplar e pode constituir um bom ponto de partida para países na zona, quer por outro lado, pela influência que a mesma exerce, seja pela sua imensa diáspora, seja no chamado crescente turco que recorde-se se prolonga até aos confins da Ásia Central - onde Estados fracos saídos da desagregação da ex-URSS, têm sido autênticos viveiros de terroristas.

2009-10-10

O debate e a campanha que gostaria de ter visto.


Condicionadas pelo facto de estar a ocorrer após umas disputadas legislativas e estando os portugueses estafados de tanta campanha, a impressão que fico é que este terceiro acto eleitoral num curto espaço de 4 meses, decorreu no cômputo geral de uma forma muito morna e superficial.

Ainda que pautadas por um estranho ritmo de "final de época", assistiu-se aqui e ali a interessantes discussões, em especial nas principais câmaras do país, lutas obviamente empoladas pelos meios de comunicação nacionais dado o seu mediatismo. Mas ainda assim, creio que mais uma vez desperdiçou-se uma excelente oportunidade para discutir medidas que a ser tomadas representariam muito a médio-longo prazo. Mas tomando em linha de conta que o eleitor vota em função do curto-prazo, que governantes se regem por um calendário eleitoralista, numas eleições de cariz local o que esperar?

Tendo seguido toda a dinâmica de campanha pelos meios de comunicação social com a atenção que um cidadão comum dispensa ao tratamento que é dado a estas acções [sempre condicionado ao tratamento que é dado pela comunicação social], observei no entanto que esta campanha , falhou ainda assim, uma vez mais na discussão do verdadeiro posicionamento do papel das autarquias, como factores de coesão e desenvolvimento, assim como quase não se referiu a necessidade premente de uma profunda reforma administrativa a nível local, antes de se poder pensar em medidas mais ambiciosas como a regionalização.

Portugal, pequeno país muito homogéneo em termos histórico-culturais, é dos países mais centralizados da Europa. Aliás, o facto das nossas fronteiras continentais serem praticamente as mesmas há 800 anos [desde Alcanizes] influí em tal facto.
Por outro lado, há que ter em conta que os concelhos têm muito do seu fundamento nas cartas de foral que foram sendo outorgadas pelo Rei desde a Baixa Idade Média. As freguesias - agrupamentos de cariz ímpar na Europa - descendem por sua vez das sede de paróquia que existiam.

Neste momento, Portugal tem cerca de 308 concelhos que por sua vez têm 4260 freguesias. O problema é que coabitam por vezes dentro do mesmo concelho freguesias como os Olivais com 40.000 habitantes e a freguesia de Mártires que é na prática um quarteirão no Chiado com cerca de 400 habitantes, isto olhando às 53 freguesias de Lisboa.

Parece caricato, mas a última grande reforma ocorrida em Portugal a este nível, aconteceu na instauração do liberalismo, quando Mouzinho da Silveira reduziu o caótico quadro de quase 800 concelhos existentes para bem perto do actual número, assim como introduziu o conceito freguesias - separando-as do poder intemporal da Igreja - ou criou o esqueleto dos, até há bem pouco tempo, actuais distritos.

Curiosamente, devido a esta situação - que fomentou muitas contra-revoltas dos caciques locais - Mouzinho foi obrigado a recorrer ao exílio em Paris. Quase 200 anos depois, a razão teima em manter-se: uma profunda reforma administrativa mexeria com muitas práticas vigentes e com muito clientelismo instaurado com o beneplácito das estruturas partidárias locais.

Portugal, para além do seu profundo centralismo, teima em manter uma estrutura administrativa complexa, porém não dispondo estas estruturas de meios e competências para gizar políticas e actuar em áreas mais próximas do cidadão.
Se compararmos com outros países, notamos que as transferências de meios existentes para o poder local é manifestamente menor que em Espanha ou França. Por outro lado, enquanto os nosso congéneres espanhóis ou franceses possuem um poder local competências para actuar na educação ou na saúde, notamos que em Portugal as competências atribuídas aos nossos concelhos são manifestamente reduzidas e limitadas, não fugindo à lógica do "betão".

Por isso não espanta, que dispondo de parcos recursos e constituindo as receitas advindas do licenciamento e construção, no fundo a principal fonte de receitas que uma autarquia pode arrecadar, que haja tantos atropelos a PDM's ou que muitas vilas e cidades portugueses sejam um verdadeiro caos urbanístico, alimentando os lobbies da construção civil que por sua vez erguem e mantêm no poder caciques que na maioria dos casos se comportam como senhores dos sítios onde governam.

Daí que e tendo em conta que uma efectiva regionalização é necessária, creio que a mesma apenas surtirá efeito, se precedida antes de uma efectiva e profunda reforma administrativa a nível local. Situações como os 89 concelhos de Barcelos - com uma população menor que o Funchal ou o facto de a Rua de S. Bento em Lisboa atravessar 6 freguesias (?!?), são situações que tornam impraticáveis qualquer tipo de tomadas de decisão em conjunto e que demonstram a fragmentação existente.

Urge assim reorganizar o território, dotando no entanto os municípios de outro tipo de competências que actualmente estão na estrita competência do Governo. As freguesias - que deveriam ser reduzidas [ainda que olhando protegendo e promovendo a coesão], pela proximidade existente, deveriam também ver reforçadas competências em especial em matérias mais relacionadas com o dia-a-dia dos cidadãos.

Só assim, o princípio de subsidiaridade seria plenamente cumprido, libertando um já constrangido Estado para a tomada de decisões a um âmbito mais geral e nacional. A poupança de custos e os ganhos em termos de know-how local gerados seriam imensos. E muito provavelmente, o números de caciques alimentados por patos-bravos da construção desceria e muito.

Em suma, penso que surgiria assim uma verdadeira coesão nacional. E o poder local deixaria a sua habitual figura de parente pobre, assumindo uma vocação realmente agregadora e vocacionada para estar ao serviço do cidadão.

2009-10-09

Normalidade democrática

Os sinais eram imensos, mas aparentemente o regime deixou cair de vez a sua verdadeira máscara. Os conceitos de normalidade democrática na Madeira, aparentemente não são os mesmos que os aplicados na restante extensão do território - em conformidade com os princípios geralmente aceites na Europa Ocidental.

Desculpem-me desde já os leitores, por estar a focar novamente a tecla Madeira, mas não consigo calar a revolta face a acontecimentos que perpetuam-se há mais de 30 anos e que ultimamente persistem em aparecer.

O conceito de democracia é ao contrário do que se pensa, uma conceito deveras lato. Na realidade, no estrito sentido da palavra, significa o governo do povo, no que qualificamos de democracia directa, que ao contrário da representativa, os próprios cidadãos decidem os destinos da gestão pública por maioria. A parte de questões de democracia directa ou representativa, queria isso sim focar que a protecção de minorias é um conceito que apenas aparece devidamente estruturadas e defendida com o que se chama democracia liberal de cariz ocidental.

Esta tornou-se a norma vigente e aceite, sendo a mesma igualmente interpretada e aceite de acordo com toda a herança e matriz histórico-social, como o sistema menos imperfeito de governo. Obviamente que a sua interpretação depende das tais nuances e matrizes histórico-culturais que são dissonantes de país para país, mas poderemos mesmo assim identificar como algo que é geralmente interpretado e aceite em toda a Europa Ocidental.

Na região, fruto de muitos constrangimentos histórico-culturais, estas noções são desde sempre desprezadas. Tal como no passado, a protecção e graves desequilíbrios sociais persistem. Tal como no passado, o espírito crítico e a opinião dissonante é abafada e tomada como afronta em prol de uma normatividade agregadora a uma só voz. Poderia teorizar sobre o porquê de todo isto, mas sei que muito provavelmente escreveria páginas e páginas e não é este o meu propósito.

O meu propósito é demonstrar a total solidariedade para quem ousa efectuar oposição ou destoar politicamente num ambiente asfixiado como é o da Madeira. Fazer oposição não é fácil na ilha, aliás como é norma em meios mais pequenos e fechados. Mas fazer oposição quando esta asfixia é tolerada pela maioria da população, votem ou não nos perpetuadores de toda esta situação, isso é realmente de valor. Quando a passividade da população tolera a violação de pequenas liberdades das minorias que noutros pontos são dados adquiridos, assumir uma opinião dissonante pode assumir consequências que podem vir a ter efeitos muito negativos na vida de quem ousa efectuar essa oposição.

Daí este post, que é escrito a título pessoal (dado não poder vincular a opinião de todos os desbobinadores, que felizmente é diferente e variada). Aliado a este elogio, acrescento o meu "mea-culpa" por ser passivo com a situação e apesar de discutir e falar da mesma, nunca ter feito nada realmente para mudar a mesma. Por, apesar de estar longe no "rectângulo", não ter feito mais. Porque estando longe, é mais fácil nos abstrairmos e "esquecermos" o assunto. Por nunca ter dado a cara ou mesmo o nome. Por ler que há quem queira 54-0 por mero tributo ao líder - que se comporta como um semi-deus - e por eu, no meu pequeno contributo e consciente do que tal barbaridade representa, pouco ou nada ter feito. Ou meramente, "mea-culpa" por ao escrever estas linhas, poder estar a assumir um papel moralmente superior sem que haja consequência prática a nível de acções.

Finalizo este longo e (em parte) pessoal texto com uma citação de Edgar Faure: "A arte de governar consiste em satisfazer a maioria da nação sem antagonizar a minoria"

O que eu desejaria simplesmente é que tivesse em conta o contributo da minoria. Era tudo o que pedia. Nada é perpétuo. Mas preocupa-me o alongar da actual situação e os custos que poderão advir daí.

De um madeirense expatriado, mas que mantém a Madeira no coração.
Aires Gouveia (aka il_messajero)

2009-10-02

A Mudança no Público e a CS


José Manuel Fernandes deixou hoje o cargo de director do Jornal Público.

Pode ser que este jornal, que me habituei a considerar como meu - pese o I me tenha cativado nos últimos tempos, volte a patentear a qualidade mas acima de tudo a isenção que desde o início mostrou.

Apenas acrescentar que nada tenho contra a pessoa a questão, mas é um facto que pretendendo o Público ser um orgão isento e imparcial, na verdade o que transparecia para o comum leitor é que o jornal de há uns tempos a esta parte falhava efectivamente neste propósito, a começar especialmente pelo seu director, a quem se pedia um pouco mais de contenção, pese toda a liberdade que dispunha para exprimir as suas ideias nos seus editoriais.

Toda esta temática, levanta muitas outras interessantes questões como: não deveriam os jornais seguir o modelo anglo-saxónico de pronunciamento sobre as suas preferências políticas e ideológicas, especialmente em tempo de eleições? É que se analisarmos bem, nunca será possível alcançar uma verdadeira imparcialidade, dado que os jornalistas transpõem para o papel a notícia, utilizando os seus próprios filtros, algo que advém de toda a vivência vivida, ideais defendidos, etc.
Uma outra questão é a questão da agenda escondida por parte dos grupos empresariais que detém os órgãos de comunicação - algo que é cada vez mais concentrado, havendo uma grande Justificar completamenteinteracção entre os diferentes meios dentro de cada grupo. Não é surpresa para ninguém que a OPA vetada à Sonae pode ter tido influência em todo o clima de perseguição movido ao anterior governo cessante. Ou que outros grupos, igualmente tentam influenciar a opinião pública através dos seus orgãos de comunicação. E aqui a questão do controlo de informação e o soltar da mesma em alturas chave é algo que demonstra o que estou a explicar.

A outra questão que finalmente aqui levanto [aliás já aqui explanada], é a crescente "tablonização" dos meios de comunicação, sentindo-se isso na opção da imagem sobre o conteúdo, na inversão de todo o processo à lógica economicista com redução de custos, avanço galopante da publicidade [a redução do número de tiragens e consequente decréscimo do valor de mercado publicitário a isso obriga no caso dos jornais de papel]. Até que ponto a qualidade de informação é mantida e preservada pelo próprio meio? Deverá apenas o mercado ditar aquilo que quer receber?

2009-09-29

Intervencionismo do Presidente [e o começo das Presidenciais]


Acabo de ouvir Cavaco e a sua tão esperada declaração sobre o caso das escutas.

Confirma-se o que o caso Dias Loureiro já tinha indicado: Cavaco tem um instinto antropológico primário, quase tribal de defesa dos seus correlegionários e homens de confiança, pondo este instinto acima do natural sentido de Estado e isenção que deveria ter.

Isto por sua vez, leva-me a reflectir sobre a gravidade das acusações efectuadas e à tentativa de desculpabilização ensaiada acerca da acção do seu homem de confiança.

Ainda que seja legítimo o PR ter as suas suspeitas - e hoje reafirmou suspeitas e não falhas como muitos partidos estão neste momento a ler - aquilo que esperaria do PR seria exactamente um sentido de isenção e decoro, que não se coadunam com o teor das declarações produzidas. São graves as declarações produzidas, seja as acusações levantadas ao PS, seja a suspeita que o sistema de comunicação de Belém está minado.

Se no que toca ao segundo tópico, a gravidade já era enorme - pelo menos para justificar a declaração - importa olhar à gravidade das acusações tecidas ainda para mais numa altura em que se está a sair de umas legislativas e a confiança entre o PR e o Executivo eleito tem de ser plena e forte.

A intromissão neste autêntico jogo de bastidores e este sujar de mãos por parte de Cavaco - que relembre-se, todo este caso começa com uma dica dada pelo assessor de comunicação do presidente dada para os jornais - acaba por dar razão aqueles que defendiam nas anteriores presidenciais que Cavaco tinha um perfil muito intervencionista e pouco parcial para a isenção que o cargo exigia.

Cavaco deveria averiguar a situação, mas não poderia pelo simbolismo do seu cargo, sem que situação estivesse devidamente comprovada, alimentar publicamente este tipo de suspeitas, algo que já o tinha feito com a capa do Público.

Post scriptum: Apenas acrescentar que a campanha para as presidenciais já começou. E olhando à composição deste parlamento, com o raio de acção presidencial a prever que seja muito mais forte e influente, creio que esta declaração servirá para uma abertura de hostilidades de uma campanha que se espera disputada. Apresente a Esquerda um candidato forte. Palavra a Manuel Alegre?


imagem: Arrastão

2009-09-17

Marketing e a Pessoalização da Campanha




Vi de relance há dois dias, no Fátima Lopes - na SIC - uma pequena demonstração do quão está profissionalizado a comunicação e a maneira de fazer campanha política, havendo o aumento Justificar completamentecrescente da componente cénica da mesma, apelando aos sentimentos dos eleitores, como se de uma marca tratasse.

O irmão de Sócrates, que padeceu até há bem pouco tempo de uma fibrose pulmonar, esteve presente a contar as agruras da sua doença, dos sofrimentos que a sua família passou, assim como a maneira como venceu esta doença.

À partida, uma coisa nada tem a ver com outra e era perfeitamente natural a sua ida ao programa, não estivéssemos em campanha, numa altura em que é clara a intenção de fazer esbater a imagem obstinada e demasiado determinada (muitos chamam autista) que Sócrates gerou nestes últimos 4 anos de mandato.

No entanto, este factor não é exclusivo da campanha do PS e talvez como nunca, temos vindo a verificar que todos os quadrantes estão a usar veículos de comunicação para chegar a públicos diferentes ou usar canais de comunicação e estilos de programas que fogem ao verificado numa comum campanha, tentando assim vincar uma imagem mais terra a terra ou uma imagem genuína ou meramente para os aproximar dos eleitores.

Toda esta personificação em torno dos líderes partidários, levanta por outro lado uma grande questão? Não estaremos a caminhar para uma excessiva pessoalização das legislativas? Não haverá uma enorme personificação e centrar do enfoque nas qualidades do respectivo líder, isto quando nem existe uma candidatura a cargo de primeiro-ministro e os respectivos são meros candidatos a deputados como tantos outros? É que pese o nome seja indicado pelo partido vencedor, o mesmo é aceite pelo Presidente da República que deverá ter em conta a votação obtida assim como a audição de todas as forças envolvidas no processo. Ou seja, não nenhuma obrigatoriedade em terem que ser escolhidos os nomes veiculados.

É óbvio que é perceptível o porquê da existência desta autêntica regra não escrita. E certamente tenho em conta no acto de votação, a credibilidade capacidade do material humano existente. No entanto temo que este excessivo enfoque nas figuras e qualidades dos líderes, desvie a atenção do essencial: os programas e as propostas apresentadas.

Assim como contribua para o reforço e exaltação do papel e capacidade do líder, algo que no nosso país, é bem mais considerado em detrimento da capacidade de gerar consensos e efectuar diálogo. Num caso extremo, tudo se resumiria a apenas ter em conta as qualidades e defeitos do líder, sendo os programas meramente acessórios...

É verdade. Já estivemos bem mais longe disso.


cartoon: daqui

2009-09-09

Revitalização de miradouros no Funchal e a estátua de cera de Cristiano Ronaldo.


Com uma semana de atraso, venho por este meio responder ao desafio proposto pelo BBS, a propósito de uma proposta da candidatura do Partido Socialista à autarquia do Funchal, que sugeria a colocação de uma estátua de cera de Cristiano Ronaldo no miradouro do Pico dos Barcelos, aproveitando assim a capitalização mediática e turística do madeirense mais conhecido em todo o mundo, em prol da sua terra natal.

Confesso que à primeira vista, ouvir esta proposta sem a devida contextualização, provocaria um normal gracejo.

No entanto e a meu ver, há que ter em conta que o alcance da medida é mais vasto. Há efectivamente uma necessidade de recuperar e reabilitar estes espaços que proliferam por todo o magnífico anfiteatro funchalense - afinal de contas o verdadeiro cerne da questão. Mas mais que capitalizar todo o potencial turístico dos mesmos - muitos situados fora dos normais circuitos turísticos da cidade, urge recuperar os mesmos como espaços agregadores de convívio e reunião. Se observarmos bem, a maioria dos mesmos (retirando algumas excepções), situam-se em zonas residenciais desprovidas na esmagadora maioria das vezes de equipamentos e espaços públicos de reunião.

Olhando sob este prisma, urge assim recuperar e adaptar aqueles espaços, tornando os mesmos atractivos. Daí que sob este prisma e a nível teórico, a proposta até acaba por ser interessante, se bem que eu desconheço se a nível técnico a mesma é viável. Se em termos de CR estamos conversados e nem vou acrescentar muito ao já dito (olhando ao já escrito sobre o tema aqui e aqui), importa reter outras oportunidades que a proposta poderia gerar

A criação de espaços anexos de divulgação de actividades tradicionais - mas não numa lógica já muito gasta e arcaica tal como é feita, mas também não resvalando para um estilo "novo-riquista-bacoco" às vezes em voga na ilha - como a instalação de workshops ao vivo sobre tais actividades com posterior espaços de venda, era algo que não era de descurar. Instalações artísticas ao ar livre ou exposições em espaços, seriam igualmente uma boas maneiras de rentabilizar os espaços.

Para além dos evidentes ganhos turísticos, vejo nesta proposta potencial para dinamização de espaços públicos de reunião ou a transformação em espaços plenos para agendamento de actividades de ar livre, isto verificando que se situam em zonas que nada mais têm que o dito equipamento. Estimulando a sociedade civil a ocupar e a estimular tais espaços, seria uma possível via de humanizar e dinamizar esses magníficos espaços, gerando visíveis ganhos positivos quer a nível económico, quer a nível social a nível de identificação com o espaço e integração.

Acrescentando em jeito de remate, que caso esta medida fosse avante, considerava a criação de uma espécie de roteiro de miradouros, interligando as diferentes valências existentes nos mesmos e gerando assim uma alternativa aos circuitos turísticos habituais.

Post Scriptum: para quem acha despropositada a existência da estátua, recordo que Ronaldinho Gaúcho aquando da sua primeira eleição FIFA World Player, teve uma estátua em sua homenagem em Chapecó, em Santa Catarina. [usei o pretérito, porque infelizmente em 2006, quando a canarinha foi eliminada pelos bleus, a mesma foi queimada..]

2009-08-05

Receita


"In these days, we see that a strong welfare state, together with free education and healthcare, has acted as a buffer that stabilises the economy"

Kristin Halvorsen, ministra das finanças norueguesa, citada pelo Guardian, numa peça onde indica a verdadeira receita que permitiu enfrentar positivamente a crise. Ao contrário da cartilha neoliberal que fez nas últimas décadas escola, onde o enfraquecimento do Estado foi uma constante, eis o exemplo [já muito propalado] de como é passível conciliar elevadas deduções e elevados encargos sociais, com elevada competitividade e rápido desempenho económico. Uma questão de cultura? Não só, pese seja prepoderante [comparar os nossos 48 anos de ditadura, tradição de rupturas ou a falsa universalidade e alcance do nosso Estado [exemplo SNS] com a cultura de diálogo, seja entre parceiros sociais, seja político desde sempre imperante nos países nórdicos]. No entanto, note-se que é cada vez mais premente uma efectiva aposta na Educação [ao invés das experiências ocorridas nestes últimos 30 anos], assim como a manutenção da aposta na qualificação da mão de obra disponível.

2009-07-21

correndo o risco de correr uma cometer heresia, mas...


...é só de mim ou o hype mediático à volta de Jacko já enjoa?

Graffiti da Semana@Elevador da Glória



fotografia tirada pelo Fab [irmão do bob] a meu pedido

2009-07-07

Como motivar o eleitor a votar?


"(...)O sistema eleitoral actual dá peso eleitoral mesmo a quem não votou, assumindo que votariam na mesma proporção do que os que de facto votaram. É legitimo dar peso eleitoral artificial a quem de facto não expressou a sua opinião com o voto? Não me parece justo!"

Sobre a elevada abstenção, Duarte Gouveia propõe uma interessante medida para contrariar a cada vez maior prevalência da mesma. Assim, "(...)se o número de lugares no Parlamento Europeu não fosse pré-determinado pela população de cada um dos países (via tratado em vigor), mas sim pós-determinado pelo número de votantes efectivos de cada país nas eleições europeias, votar passava a ser um dever nacional e patriótico(...)", não deixando o Duarte de por em causa a mesma aplicação a nível nacional ou local.

Ou seja, em vez de uma distribuição geográfica de mandatos pré-eleitoral, haveria uma distribuição pós-eleitoral, consoante o número de votantes efectivos.

Isto sem dúvida era a meu ver uma medida interessantíssima, dado que assim conseguiríamos eliminar a desvirtuação efectiva que constituí uma elevada abstenção.

No entanto devo fazer uma ressalva, a propósito da questão que é deixada [ler em cima excerto] e que creio que condiciona muito o proposto: no meu entendimento não deve haver a exclusão de nenhum cidadão, quando o que está em causa é a gestão da vida pública.
Isso geraria exclusão e potenciaria o sentimento de existência de castas - algo muito visível nos primórdios do liberalismo no séc. XIX [e algo que mesmo assim, infelizmente já existe nas condições actuais].
Entendo que não possa ser justo e o mesmo potencializa as desvirtuações que assistimos, mas a equidade de todos perante a lei e o Estado têm de ser mantidos, isto quando sabemos que há vários factores sócio-economico-culturais que podem influir e podem determinar uma maior ou menor apetência para a participação.

No entanto, voltando à exploração do dinamismo preconizado, creio que a inversão de lógica que o Duarte faz [mandatos distribuídos numa base pós eleitoral] é uma maneira curiosa de colocar a questão, obrigando-nos a repensar toda esta questão.

Partindo do princípio que o que enunciei em cima era ultrapassável [a meu ver não é], não sei até que ponto, num país muito centralizado como Portugal, iria haver essa motivação, quando em muitas zonas do país não há esse sentimento de pertença a região [algo que por exemplo os madeirenses têm].
Ou seja, poderia haver imensas desvirtuações entre as regiões, podendo umas estar sub ou sobre-representadas face ao seu real peso eleitoral. E como já referi, por norma cidadãos provindos de um contexto sócio-económico mais elevado por norma tendem a estar mais informados e a participar mais que pessoas de escalões mais baixos da população, por norma excluídos ou abstraidos destas temáticas [ainda que esta conclusão possa ser contestada]. Daí que pesando os prós e contras, creio que um sistema deste tipo acabe na minha óptica por não acrescentar nada ao actual paradigma.

Em sistemas como o belga ou brasileiro de voto obrigatório com penalizações por incumprimento, se estatisticamente a medida resulta (91% de participação belga nas últimas europeias), a meu ver a grande questão prende-se com a qualidade do voto. Não é certo que as pessoas se procurem envolver mais ou informar mais se a questão da obrigatoriedade do dever de voto estiver em causa.

Por outro lado, conforme nota Pedro Magalhães no seu blog, na Grécia o voto é obrigatório mas as sanções por incumprimento são meramente simbólicas. Isto leva a que nas últimas europeias 40% dos eleitores inscritos não votasse.

Pessoalmente não ponho de parte a adopção desta medida como defendeu Carlos César, se bem que considere que haveria inúmeras desvirtuações que poderiam advir daí, nada trazendo de efectivo para a resolução do verdadeiro problema.

Então que fazer para incentivar a uma maior e consciente participação eleitoral por parte dos cidadãos? Será o voto um dever ou um direito? Matéria para um próximo texto dentro de minutos [olhando já ao tamanho deste].

2009-07-03

Quiz XXXIV


É impressão minha ou é só em Portugal que os outrora impolutos "tycoons" e "CEO's" financeiros, aparentam padecer de um surto de amnésia viral?

É que chega a ser confrangedor ver pessoas como Jardim Gonçalves declarar que não sabia da existência de offshores no caso Millenium BCP, ou pessoas como Dias Loureiro, até há uns atrás endeusado como o mais puro exemplo de rectidão e ética, a declarar que assinava documentos sem olhar aos mesmos...

2009-07-02

Estranho unamismo ou apenas mudança de paradigma?

Ocorreu pelos últimos dias um golpe de estado em mais um país da América Central. Até aqui, nada de novo e poderia-se considerar que era apenas a perpetuação de uma longa tradição de tomadas de poder e intromissões do Exército na condução dos destinos de cada país, situação aliás que tem raízes que remotam até Símon Bolívar.

No entanto, o que que é interessante verificar, é o estranho unamismo que se criou na condenação deste acto. Zelaya como se sabe, era um indefectível seguidor da linha boliviriana chavista. A condenação do acto por parte de Obama e a ausência de apoio ou neutralidade para com o perpetuadores do ataque por parte dos EUA, acabam assim por constituir um corte com o passado recente.

Enquadrar-se-à esta posição de Obama numa simples extensão do seu discurso idealista ou estará meramente a tentar contrapor o enorme ascendente que Chavez possui no continente? Não é segredo para ninguém, que durante séculos [posso seguramente já usar a expressão], os EUA consideraram a América Latina como seu território de influência, escudando o mesmo a ingerências externas - célebre teoria Monroe [de que já aqui falamos].

A coberto desta situação, foi dada imensa cobertura a elites oligarcas locais que por meios dictatoriais [na esmagadora maioria dos casos] se perpetuaram no poder, escudando os interesses dos EUA numa primeira, quer numa segunda fase, contendo os ímpetos de uma possível contaminação comunista do continente.

Neste caso, as restricções aplicadas a Cuba [ainda existente devido ao enorme lobby anti-castrista de Miami] são um puro exemplo do que falo. Mais atropelos às mais elementares regras de democracia foram aplicados [ex. Chile em 1973], fazendo com que a América Latina rapidamente se tornasse uma espécie de besta negra ou caixinha dos horrores, nada condizentes com a mensagem e postura moralmente superior, que uns EUA defensores da liberdade pretendiam passar.

A América do Sul é um continente muito desigual. Com cerca de 80% da população urbanizada, mais de metade dos seus munícipios [ou unidades administrativas equivalentes] são rurais e tem menos de 5000 habitantes. Isto gera, conforme devem imaginar graves desiquilíbrios. A protecção dada pelos americanos, às minoria que se arrastou pelo poder durante décadas, ajudou a fomentar ódios de estimação, assim como populismos que com razão ou não, souberam aproveitar estes sentimentos.

Daí a minha questão sobre esta mudança de atitude de Obama em relação à América do Sul. Ainda para mais quando o presidente em questão pretendia alterar a constituição, para efectuar um referendo popular para poder se recandidatar a novo mandato. Será que estarão por detrás questões de pacificação interna da região? Será esta uma medida que visa agradar à crescente preponderância [em termos demográficos - 11% na actualidade, mas 22% em 2025] hispânica no "melting pot" que são os EUA? Haverão questões comerciais - petróleo, mercado livre da ALCA - por detrás desta posição? Ou procurará Obama meramente contrapor a crescente preponderância de Chévez na região?

Tudo questões interessantes que são levantadas, mas não deixa de ser estranho este estranho unamismo existente, deixando assim Chávez sem alvo para poder disparar à vontade.

A propósito do tema: Europas

2009-06-24

Jovens e a Política II


Nesta segunda parte [ver aqui 1ªparte "Jovens e a Política" - ou em alternativa, ver 2 entradas abaixo], focarei-me essencialmente na resposta às questões lançadas, assim como analisarei a questão das juventudes partidárias.

Creio ser interessante ter em conta um estudo "Os Jovens e a Política" [do Centro de Sondagens e Estudos de Opinião da Universidade Católica Portuguesa, da autoria de Pedro Magalhães e Jesus Sanz Moral], lançado em Janeiro 2008, onde caracteriza em traços gerais a atitude da juventude em relação a formas de participação política por vias convencionais e não convencionais. Em traços gerais, há que separar a juventude até aos 18 anos e os jovens adultos dos 18 anos até aos 29 anos.

O primeiro grupo caracteriza-se por uma baixíssima taxa de interesse seja por vias convencionais de participação política (partidos, comícios, etc), seja por não convencionais (petições, manifestações ilegais, etc.), embora fosse previsível que este último grupo colhe mais adesão que o primeiro. No contexto europeu e fruto da nossa mentalidade e posição mais reactiva e expectante [a baixa auto-estima nacional em muito contribui para isto], estamos nesta faixa etária nas últimas posições, quando comparados a nível europeu. Curiosamente, o grupo dos jovens adultos, pese a baixa participação,já apresenta taxas bem mais elevadas [e medianas a nível europeu], bem parecidas com o escalão etário seguinte, destacando-se no entanto a apetência para formas de participação não convencional em detrimento das formas de participação convencional.

Estes dados, e tomando em linha de conta que a consolidação democrática foi alicerçada sob o formalismo e estrutura dos partidos, permitem um leitura no sentido que estas estruturas por vezes fechadas, necessitam de adoptar novas estratégias e tipos de abertura, para poder englobar estas franjas etárias de população. Obviamente, há participação fora do contexto partidário, mas é notória a primazia que este tem sobre os demais (e nóveis na minha opinião) movimentos cívicos ou formas organizadas de intervenção cívica que existam ou venham a se formar.
Tomando em linha de conta, esta primazia partidária, convém analisar a posição e estatuto das chamdas juventudes partidárias. Antes de mais, tenho de fazer uma declaração de interesses: tal como Vicente Jorge Silva, tenho uma imagem nada idealista das jotas. Reconheço a sua função como formadora de quadros e admiro a capacidade de compromisso que assumem numa idade onde essa característica por vezes escasseia.

Mas a verdade é que noto muito vezes apenas a reprodução de muitos dos malefícios que os partidos possuem: viveiros de carreirismo, que servem muitas vezes como interlocutores das casas-mãe para fazer ou dizer [ou atacar] aquilo que o partido eticamente não pode efectuar. Servem muitas vezes para dar aquele toque de irreverência às campanhas eleitorais [os gritos "futeboleiros" da JSD no discurso de Manuela Ferreira Leite roçaram o risível]. Para além de, por vezes silenciarem a capacidade de expressão individual dos militantes, sob o signo do unamismo e do discurso único, transformando os mesmos em autênticas cassetes.

Obviamente e dado que desconheço o funcionamento interno destas organizações [existem jotinhas aqui no blog que poderiam responder a isso melhor que eu - assim como participantes a quem peço que deixem a sua opinião, até para estimular debate e troca de opiniões], dou o benefício da dúvida sobre se estas organizações serão as ideais, como espaços de participação e inclusão dos jovens em termos cívicos.

Mas a verdade é que, olhando aos resultados do estudo assim como às sucessivas altas taxas de abstenção nesta faixa etária, a generalidade dos jovens não se revê neste sistema formal partidário. Aliás, as causas defendidas pelos mesmos estão em mutação, dado que os interesses são invarialmente outros. Estas últimas europeias, tiveram o condão de mostrar que um partido sueco cuja única causa é a abolição dos direitos de propriedade, o Partido Pirata, conseguiu eleger um eurodeputado. Aliás, já há uma formação similar portuguesa (PPP).

A política está igualmente em mutação. O tempo das ideologias e das fortes clivagens ideológicas deu lugar a um tempo onde o slogan e a imagem assumiram uma enorme preponderância. A divisão esquerda - direita já não é tão vincada e hoje em dia, o aparecimento de causas é um factor que concorre com a preponderância e primazia dos partidos, ainda que estas sejam efémeras. Partidos com uma maior dificuldade em construir pontes e a se abrir a estas novas causas e bandeiras, terão muitas poucas hipóteses de almejar a algo mais que a mera sobrevivência [isso já é visível em muitos partidos].

Creio que para finalizar, hoje em dia, a participação dos jovens tende assim a se efectuar mais por canais alternativos aos convencionais, nomeadamente os por via partidária - ainda que estes tenham de facto muito mais visibilidade. No entanto, estas vias alternativas, levantaram novos desafios aos partidos, que terão que se abrir à sociedade e deixar de lado as tendências unificadoras e agregadoras que muitas esmagam o debate interno, passando a se preocupar com novas bandeiras, de uma geração que ao contrário dos pais, é bem mais informada e preparada, porém tem muito mais insegurança e instabilidade profissional (que se reflecte a nível pessoal), não vislumbrando em muitos casos, sequer um futuro. É a geração dos estágios não pagos e dos empregos nas autênticas linhas de produção do séc. XXI que são os "call-center". A resposta tem de ser dada nestas matérias e nesta área. Para que esta geração e as vindouras, possam ser enquadrados e incluídos a dar o seu contributo para uma sociedade melhor.

Jovens e a Política


"(...)De acordo com a Visão, o perfil típico do abstencionista é:
- tem entre 18 e 29 anos
- não é casado
- não tem filhos
- não participa na vida do local onde vive, nem sequer nas reuniões de condomínio.
- vive tipicamente em zonas urbanas, no litoral ou nos Açores (...)"

Retive esta passagem de (mais um bom) "post" de Duarte Gouveia ainda sobre o tema das europeias e rapidamente me lembrei de uma temática sobre a qual estou para escrever há mais de um ano, mas que motivos vários, tem ficado sucessivamente na gaveta, a exemplo de muitos outros temas. Falarei então dos jovens e o crónico alheamento da política, um tema que volta em meia aparece nos escaparates e no ideário do debate político.

Num rápido exercício de senso comum, creio que é verificável que as sucessivas gerações de jovens foram sendo catalogadas pelos seus antecessores, como gerações despreocupadas, nada comprometidas, gerações sem uma real noção de valores cívicos. Esta ideia, sempre foi sendo veiculada ao longo da segunda metade do século XX, mesma com gerações que acabaram por vir a ter um grande posicionamento e acção política. Relembro as críticas do "establishment" europeu à geração do Maio de 68 ou as críticas de uma conservadora sociedade inglesa para com o movimento mood dos 60/70 e do movimento punk dos 70/80.

Em Portugal, tal situação igualmente aconteceu com a crítica feita à geração de 60/70 que fez a revolução, mas que em meados de 80/90 criticava fortemente os filhos da revolução, chamando os mesmos de "geração rasca", epíteto dado pelo meu conterrâneo Vicente Jorge Silva, na altura director do Público, criticando a falta de objectivos, de valores, de princípios, mas acima de tudo de sonhos, contrapondo aos feitos da sua geração.

Actualmente vivemos em Portugal sob o espectro da "geração morangos" e novamente as vozes alarmistas se levantam denunciando o desinteresse, a futilidade e a preferência pelo ócio que estas novas gerações têm. Ainda que concorde com certos aspectos (e tenho pouco mais de um quarto de século), acho que convém analisar a situação sob outro prisma, tendo sempre em mente que aqueles que criticam, já foram um dia jovens e foram igualmente criticados.

Ao contrário do que muitas vezes é propalado, este afastamento dos jovens da política não é meramente nacional e é de facto um sintoma comum aos nossos parceiros europeus. Segundo o jornal Público, um estudo revelado no início de abril pela UE, indicava que dos 96 milhões de jovens existentes na faixa etária entre os 15 e os 29 anos, apenas 4% indicava ter participado em actividades partidárias ou sindicais.

Será que aquele valor reflecte um menor envolvimento cívico dos jovens. Certamente não, olhando que o mesmo estudo referia que 49% dos jovens pertencia por outro lado a associações de cariz recreativo ou de outros fins.

Relembro que Tocqueville considerava que a existência de micro-associações [formais ou não] locais, estimulava a participação cívica. Mas é uma realidade que estudos comparados entre as décadas de 70 e 90 [ex: Gundelach e Torpe - estudo sobre realidade dinamarquesa] identificam uma maior adesão a organizações, assumindo no entanto cada vez mais esses participantes uma posição passiva e expectante.

Esta discrepância pode levar a dois tipos de leituras: a completa alienação dos jovens ou a inadaptação do sistema de representação partidário face a este grupo etário. Será que os jovens de hoje renderam-se ao ócio, dando por adquiridos todos os direitos pelos quais as gerações anteriores tiveram que lutar? Ou será que as formas de participação e causas igualmente se têm vindo a transformar, exigindo uma adaptação por parte dos partidos e organizações. Que leitura ter perante e tão baixo cenário de participação? Qual a posição das juventudes partidárias em todo este processo? Haverá novas formas de participação na forja? Tudo matérias para uma reflexão num post que publicarei de seguida (devido à já grande extensão deste).

2009-04-18

It's Politics, Stupid!

"Não vou ser candidato"
"Ao fim de 10 anos de trabalho no Parlamento Europeu, não faz muito sentido que quem foi na última eleição em quinto, seja agora oitavo"
"Não aceito a lei da paridade como justificação. Não é suficiente para atribuir ao PSD-Madeira esse lugar"
Sérgio Marques dixit


"(...)"Já está resolvido. O candidato ao Parlamento Europeu, no mesmo 8º lugar, é o senhor dr. Nuno Teixeira".
"Não quer um, vai outro. A única pessoa importante neste partido sou eu".
"Não, ele disse-me agora antes de começar a Comissão Política. Não aceita, também não peço nada a ninguém. Surpreendeu-me pela maneira de ser dele (Sérgio Marques). Não o julgava capaz disto"(...)"

AJJ dixit


A surpreendente recusa de Sérgio Marques de integrar as listas do PSD às europeias em 8ºlugar [nas últimas eleições foi eleito em 5º], depois de ter sabido via Comunicação Social que era este o lugar que lhe era destinado, conforme tem sido aventado nos órgãos de comunicação sociais e na blogosfera madeirense, merece uma leitura algo mais profunda do que à primeira vista possa parecer.

Sérgio Marques é reconhecidamente, e num puro exercício de sondagem sem qualquer tipo de rigor científico, um dos nomes laranjas cujo trabalho e capacidade de iniciativa não é posta em causa dentro das hostes laranjas regionais, tendo o eleitorado opositor geralmente uma uma boa imagem da sua prestação política.

O facto de estar há 2 mandatos exilado na Europa, logo longe quer da vida política regional, quer do desgaste de imagem que a mesma produz, aliado à boa publicitação do seu trabalho - é dos deputados laranjas que mais investe nesta área, em especial na área das novas tecnologias - dos primeiros a estar na blogosfera, usa redes sociais para contactar eleitores [Facebook no caso], etc. - faz com que a imagem tida dele seja em geral positiva, não havendo grandes máculas sobre a sua imagem.

Numa primeira leitura simplista, face às palavras caústicas de Alberto João Jardim confrontado com a recusa, poderíamos considerar que Sérgio Marques tenha assinado a sua certidão de óbito político, pelo menos no seio do PSD-M, devido à "heresia"de ter ousado enfrentar o líder. Uma pessoa menos atenta à vida política na Madeira, pode achar que estou a exagerar, mas convém recordar que Jardim nunca foi grande adepto de debate interno ou de muitos desvios à ortodoxia da sua palavra.

Por outro lado, outra leitura possível, poderá indiciar esta recusa como uma simples tomada de posição por parte do deputado, que não tendo satisfeito as suas ambições, resolveu tomar uma atitude de força no calor do momento.

Há no entanto diversas nuances que me fazem explorar um outro prisma. Sérgio Marques, como qualquer político, tem as suas ambições e era público [em entrevista recente] que veria com bons olhos a ideia de poder no período pós-Jardim. Por outro lado, temos de considerar o facto de o poder e a alternância do mesmo, ser motivado, pelo menos em Portugal, não por uma vitória da oposição, mas sim pela erosão governativa do partido no poder. Tendo em mente estas duas premissas, num exercício de pura especulação, poderíamos ser levados a pensar que os factos que nortearam esta abrupta decisão poderiam ter mente uma estratégia com horizontes mais latos.

Isto porque com esta decisão e a aparente proscrição (a nível regional), o mais engraçado nesta situação é o facto de Sérgio Marques poder vir a obter a médio-longo prazo enormes ganhos políticos com esta medida, beneficiando com isso o PSD-M. Confusos?

Num cenário de liderança pós-Jardim, Sérgio Marques com esta recusa e pelo facto de perante os olhos da opinião pública, ter afrontado Jardim, pode constituir para o partido uma possível alternativa ou alternativa de reserva, isto quando o jardinismo (ou o que restar dele) deixar de ser a matriz agregadora do partido ou o eleitorado madeirense já não ser sensível ao peculiar estilo de retórica e mensagem.

Em termos de calculismo político, esta poderia ser considerada uma manobra arriscada - sabendo-se que o manancial de apoio do jardinismo é bem grande, a gratidão dos madeirenses é (irracionalmente e inexplicavelmente) devota e o aproveitar da sua imagem e memória, que após a sua retirada serão concerteza explorados e darão votos ao partido laranja pelo menos durante algum tempo.
Mas dado que nada é eterno, quando a alternância estiver na eminência, Marques estaria salvaguardado, aparecendo aos olhos do eleitorado laranja, como uma opção recta e imaculada (vinda fora do sistema), que soube se manter à parte, seja do possível lavar de roupa que previsivelmente se seguirá no interior do partido (e que já aparentemente já decorre - os indícios são muitos), seja das conotações menos claras com o período jardinista.
Marques funcionaria assim como o às de trunfo, num cenário de iminente alternância num contexto eleitoral difícil.

Claro que esta análise tem muitos "ses" e face ao publicamente propalado, não creio que tenha havido este tipo de visão política a longo prazo - estão escritas muitas determinantes não controláveis. Aliás, as próprias ambições a curto-prazo do candidato, ficariam algo lesadas, podendo a sua imagem pública ser afectada (como deverá previsivelmente ficar).
No entanto, não deixa de ser engraçado como uma medida que aparentemente é uma mera tomada de força, poderia no entanto se revestir de uma medida com extrema astúcia e argúcia. Será a análise assim tão descabida e fictional?